Pela liberdade das ciências sociais e do ensino superior público

Vasco Pulido Valente publicou recentemente um texto no jornal Público visando aquilo que o próprio classificou de “Um erro e […]

Vasco Pulido Valente publicou recentemente um texto no jornal Público visando aquilo que o próprio classificou de “Um erro e uma vergonha”. Referia-se ao elevado número de licenciados em sociologia que foram produzidos pelo nosso ensino superior desde os anos 80. O número adiantado pelo autor foi de 30 mil sociólogos.

Devemos, em primeiro lugar, analisar este número. Podemos considerar que a formação é o que constitui o ofício ou poderemos ser rigorosos e ter presente que, tratando-se de um curso de ciências sociais, só aqueles que o exercem na área poderão ser considerados, efetivamente, sociólogos. Desse modo, duvido que existam sequer mais de três mil em Portugal. Da mesma maneira que nem todos os licenciados em direito são, por inerência, advogados ou juristas, os licenciados em história, historiadores, ou os em filosofia, filósofos.

Mas este ataque inusitado não se restringe à sociologia, muito pelo contrário – ele é direcionado também aos cursos de ciência política, psicologia e relações internacionais, adiantando ainda que se trata de “estudantes inocentes educados para a inutilidade”.

Caso não seja do conhecimento do leitor, Vasco Pulido Valente é licenciado em filosofia e doutorado em história, duas áreas que poderiam muito bem figurar entre as apontadas acima como “inúteis”, mas que, por terem sido aquelas onde o autor se formou, foram omitidas deliberadamente.

Podemos então refletir sobre os dados apontados. Vasco Pulido Valente apresenta 86,6% dos licenciados em sociologia como empregados, considerando 63,8% que a sua formação era adequada às tarefas que desempenhava (dados da Associação Portuguesa de Sociologia, APS). São números que atestam a qualidade da sociologia feita em Portugal, muito elogiada pela Associação Internacional de Sociologia (ISA) e que leva centenas de sociólogos estrangeiros a deslocaram-se a Portugal anualmente. Se há área de ensino onde Portugal não exporta licenciados, é na sociologia.

Existem, neste momento, tantos cursos no ensino superior de sociologia quanto os de história e de filosofia somados, com a pequena nuance de que, ao contrário destes, nenhum curso de sociologia está em risco de fechar. Ao mesmo tempo, dados da DGES apontam que há mais desempregados na área da história e da filosofia que em sociologia, mesmo sendo estes mais numerosos.

Vasco Pulido Valente aponta também que coube ao Estado “dar um modo de vida” aos licenciados em sociologia, por estes não terem emprego no setor privado. Sendo os licenciados em sociologia tão incapazes quanto o autor os faz parecer, não deixa de ser curioso como então são preferidos para trabalharem nos centros de investigação, universidades, observatórios, autarquias e na administração pública em detrimento de outras áreas (como a história e a filosofia, a título de exemplo).

Mas é compreensível esta indignação para com a sociologia. Aliás, todo o tom de provocação às ciências sociais e humanidades patente no texto denuncia as intenções de Vasco Pulido Valente, que acabou ensaiando um ataque a classes profissionais que, numa visão idiossincrática liberal conservadora, são pouco úteis à sociedade.

Efetivamente, a tecnocracia liberal tende a considerar os historiadores, filósofos, sociólogos, politólogos, diplomatas, psicólogos e outros profissionais da área social e humana um entrave ao desenvolvimento. Idealmente, o país apenas teria profissionais de saúde, engenheiros, economistas e técnicos das “ciências duras”.

Esta vontade de instrumentalizar o ensino superior, subordinando-o à linha do poder, levou a que em 69 os estudantes da Universidade de Coimbra assumissem uma posição de desobediência civil que duraria vários meses. No último governo de Cavaco Silva, a contestação às propinas levaria largos milhares de estudantes à rua, pela defesa do ensino superior e contra uma universidade para os ricos. Estaria então em causa a universalidade do ensino, princípio basilar de toda e qualquer Estado de Direito Democrático.

Muitos foram aqueles que nunca lidaram bem com estes acontecimentos históricos. A irreverência e não-alinhamento dos estudantes incomodavam. Hoje em dia a realidade não mudou assim tanto. O ensino superior continua a sofrer tentativas de instrumentalização e os cortes orçamentais para o ensino e investigação apenas agravam a situação, havendo no ar um clima de ataque à educação e falência do modelo educativo que se pretendia como o maior instrumento de mobilidade social e combate à cultura de pobreza que marcou Portugal durante séculos, posicionando-nos entre os países europeus com maiores taxas de analfabetos, abandono escolar e baixas qualificações da população até muito recentemente.

Esta guerra de classes profissionais tem sido uma das marcas da política educativa conservadora liberal que vê estes cursos como um desperdício de dinheiros públicos. À luz destas considerações, faz todo o sentido que a sociologia tenha sido a mais visada, uma vez que é de todas estas áreas a maior, mais difundida pelo país e que se pauta por um não-alinhamento para com o poder e as tendências ideológicas, prezando a liberdade crítica e a reflexividade acima de tudo.

Foi esta a grande razão para a sociologia em Portugal ser residual até à Revolução de Abril, pois o seu posicionamento epistemológico e a sua própria deontologia jamais permitiriam que fosse instrumentalizada por um Estado repressivo e ditatorial.

Citando um dos grandes sociólogos da nossa praça, Elísio Estanque, “a sociologia nasceu no século XIX quando a “questão social” e a miséria da classe operária ameaçavam o capitalismo emergente no mundo ocidental.” Hoje, perante um novo estado de falência do capitalismo que nada trouxe senão miséria, desemprego e uma progressiva deterioração do Estado de Bem-Estar (como se os nossos dirigentes nunca tivessem estudado Bismarck), compete à sociologia compreender e explicar este Estado de Coisas e contribuir para a mudança.

E desenganem-se aqueles que acreditam que os sociólogos serão algum dia submissos ao poder económico e a qualquer ideologia. Facto disto foi o enorme contributo que a sociologia da educação prestou ao que hoje se sabe sobre ensino, pedagogia e políticas educativas.

Já a Vasco Pulido Valente, ficar-lhe-ia bem honrar os princípios ontológicos da filosofia e não se esquecer das lições da história, contribuindo para a manipulação da realidade e a degradação da coesão social. Um Estado não sobrevive quando os seus elementos são constantemente postos em conflito entre si.

 

Autor: J. André Guerreiro, formador de filosofia, ciência política e história, presentemente estudando sociologia na Universidade do Algarve.

 

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