Cabrita Reis considera «perfeitamente saudável» reação negativa à sua intervenção na Barragem da Bemposta

«A atividade do artista não tem de ser cordata com aquilo que a sociedade espera», disse Pedro Cabrita Reis, numa […]

«A atividade do artista não tem de ser cordata com aquilo que a sociedade espera», disse Pedro Cabrita Reis, numa conferência na Universidade do Algarve, em Faro, a propósito da questão colocada por um aluno sobre a sua intervenção artística na Barragem da Bemposta, no Douro.

«A ética de um artista não se prende com aquilo que seria a resposta imediata da sociedade», acrescentou Cabrita Reis, para comentar a reação adversa que a sua intervenção na barragem, que o artista pintou de amarelo forte, causou entre a população, uma reação que alguns meios de comunicação, em especial as televisões, exploraram até à exaustão.

Cabrita Reis sublinhou que a intervenção na Barragem da Bemposta foi uma encomenda da EDP, e achou «perfeitamente expectável e saudável» que tenha havido uma «reação de perplexidade e de recusa por parte da população». «Mal estaríamos se fossem lá todos bater palmas», sublinhou.

Perante uma intervenção como a que foi feita na barragem, pintando de amarelo vivo o paredão de betão cinzento, Cabrita Reis admite que, «no momento inicial, há sempre fraturas, as pessoas têm dificuldade de, de forma espontânea, incorporar transformações da sua paisagem e têm todo o direito de reagir de forma adversa».

E a EDP, dona da obra da barragem e que lhe fez a encomenda deveria ter feito algum esforço para explicar à população o que se iria passar, poderia perguntar-se. «A EDP devia ter contado às pessoas, devia ter ido junto dos órgãos do poder local para explicar o que ali se ia fazer. Eu estava disponível para isso!».

Intervenção de Pedro Cabrita Reis na Barragem da Bemposta

O artista criticou ainda a forma «demagógica como os meios de comunicação geriram a questão». «A abordagem que as televisões fizeram às pessoas foi demagógica, urbana, paternalista», disse, com veemência. «Foi uma utilização reacionária dos meios de informação em relação à obra de um artista contemporâneo».

Para mais porque, recordou Cabrita Reis, «estranhamente, nunca [os media] se lembraram de vir confrontar o artista. Aquilo é projeto de um artista que devia ter sido chamado à pedra, para falar sobre ele». E isso, frisou, nunca foi feito.

Apesar da normal reação negativa das pessoas à sua intervenção na Barragem da Bemposta, a verdade é que o artista considera que grande parte da polémica foi criada e explorada artificialmente pelos media. De tal forma que «já há pessoas a fotografarem-se lá à frente para casamentos», concluiu Cabrita Reis.

Pedro Cabrita Reis falava na última de sete conferências integradas no Ciclo de Artes Visuais, organizado pelo Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC), que levou à Universidade do Algarve artistas, curadores e galeristas para falar dos seus trabalhos, do mercado e da situação das artes em Portugal.

O anfiteatro situado no Campus da Penha estava cheio de gente interessada em ouvir e debater com aquele que é um dos maiores artistas plásticos europeus contemporâneos.

Para lá dos alunos da licenciatura de Artes Visuais da UAlg ou do seu mestrado em Comunicação, Cultura e Artes, no debate intervieram ainda outros artistas consagrados, como Xana (Alexandre Alves Barata), Rui Sanches ou Pedro Cabral Santo, todos docentes naquela universidade algarvia.

 

«Pedro Cabrita Reis não é uma pessoa qualquer»

 

Pedro Cabrita Reis, a aluna e o cartaz

A conferência, que começou ligeiramente atrasada, já passava das 17h30, porque Pedro Cabrita Reis (PCR) chegou diretamente de um dos seus lendários almoços prolongados, começou logo com uma peripécia que fez soltar gargalhadas entre os presentes e uma resposta bem humorada do artista. Uma aluna – Kate – resolveu marcar de forma artística a chegada de Cabrita Reis, ostentando um cartaz em papelão, como aqueles que os adeptos de futebol mais fanáticos mostram aos seus ídolos, com os seguintes dizeres: «Cabrita, Fá Mum Filho Mó! Made in Algarve». Ao que o artista respondeu «Vamos lá!».

Já dentro do anfiteatro, Cabrita Reis pediu à jovem artista que colocasse o seu cartaz visível no pequeno palco onde falou. E mais tarde, quase no fim da conferência que haveria de durar três horas, quando a jovem se preparava para sair, o artista chamou-a e, pelo seu punho, escreveu no cartaz: «só um?».

Entretanto, já a conferência tinha começado, com uma intervenção de Pedro Cabral Santo sobre a obra do seu convidado, quando um jovem entrou na sala com um saco plástico de supermercado na mão e se dirigiu a Cabrita Reis para lho entregar.

Lá de dentro, o artista tirou um copo com gelo e uma garrafa de whisky Johnny Walker Black Label, ainda dentro da caixa de papel. Despejou um pouco no copo e foi bebericando, alternando com água, ao longo da conversa. Mais à frente, de copo na mão, haveria de comentar: «isto é uma homenagem a Vinicius de Morais».

Pedro Cabral Santo começou por sublinhar que «Pedro Cabrita Reis não é uma pessoa qualquer – «ninguém é uma pessoa qualquer», comentou PCR num aparte – teve um impacto muito grande noutras pessoas, foi muito importante para a minha geração». «Atrás de nós houve alguém que abriu caminho», acrescentou Pedro Cabral Santo, para frisar: «temos aqui uma personagem ao vivo da História da Arte».

Cabral Santo resumiria a obra do convidado da tarde dizendo que se trata de um «artista-construtor». «O Pedro é pintor de origem, de vez em quando revisita a pintura, sem nenhum medo vai lá e não esconde isso. Mas ele é um artista-construtor».

PCR acrescentaria: «há quem queira ligar o meu trabalho à arquitetura. Nada mais errado! O meu território está antes do território da arquitetura, é o da construção, de índole mais filosófica e antropológica. A arquitetura propõe-se fazer a gestão do espaço social, propõe-se anular e amaciar, é de índole sociológica. O meu trabalho é um exercício antropológico de construção de um espaço de vivência».

E o que é concretamente PCR? «Sou um pintor que faz outras coisas – tenho imensas pinturas feitas com blocos de cimento, com luzes fluorescentes, com pedaços de madeira, mas até tenho algumas feitas a óleo», ironizou.

Virando-se para os alunos de Artes, Cabrita Reis disse: «nunca se deve limitar aquilo que se quer fazer, nunca se deve restringir. Não há pintores, escultores, cineastas. O que há é pessoas que vivem a criatividade».

Pedro Cabrita Reis, licenciado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, e que começou a sua vida profissional como professor de liceu – e que nessa função deu aulas em Portimão, por exemplo –, aproveitou o facto de estar perante uma plateia formada na sua maioria por alunos e professores para expressar as suas ideias sobre aquilo que deve ser a escola.

«A escola não é garante do que querem fazer na vida. É um magnífico momento de encontro entre pessoas, uma comunidade que devem utilizar e gerir. Mas se não tiverem em vocês próprios qualquer coisa mais forte, qualquer tipo de convicção que os faça chegar mais longe não será a passagem por esta instituição que o fará».

«Não podem pensar que a escola vos salva, mas também não a podem recusar. Entre uma e outra coisa, têm que construir um território qualquer».

O artista criticou ainda aquilo a que chamou o «estigma de Bolonha»: «concentrar [os cursos] num curto período de tempo, para fazer girar mais dinheiro numa estrutura universitária», através da oferta posterior de mestrados e doutoramentos. «Os europeus, lamentavelmente, estão a tentar reconstruir o modelo americano».

Xana, professor na UAlg e também artista plástico, comentaria: «antes havia o paradigma de que era na tropa que os rapazes se faziam homenzinhos, agora esse paradigma é a universidade».

Mirian Tavares, coordenadora do CIAC, sublinhou, por seu lado, que frequentemente diz aos alunos que «a universidade não é um ATL, é experimentação, é fazer um monte de coisa que não podem fazer lá fora». «Têm que correr atrás!», incitou a docente. «Se for preciso incendiar a reitoria, incendeiem a reitoria», concluiu, arrancando risos e muitos comentários da assistência.

Talvez pegando neste mote, e após uma viva conversa com um dos alunos, no final da conferência, Pedro Cabrita Reis pediu um isqueiro e ofereceu-o ao jovem: «dou-te este isqueiro simbólico. É este isqueiro e a tua vontade individual que irão mudar as coisas. Nunca peças desculpa nem fiques à espera de nada!».

 

«Artista não é um adjetivo»

 

Houve ainda alguém da assistência que quis saber como é o processo criativo de Pedro Cabrita Reis. «Sou o pior cliente das lojas de artes plásticas, trabalho com o lixo», respondeu o artista.

«Não é que todos os meus trabalhos sejam feitos com coisas que eu recupero do lixo, há coisas que eu mando fazer, ou às vezes compro o melhor papel que há. Mas isso é uma fracção diminuta do meu trabalho», explicou.

Em Roma, por exemplo, as 16 peças para uma exposição foram construídas com materiais encontrados no pátio «da galeria, que era o vazadouro do lixo dos vizinhos. Aquecedores, portas velhas, tubos de chumbo… havia ali uma riqueza absolutamente irresistível de lixo que veio ao encontro do meu trabalho». E que acabou por ser integrado nas peças da exposição.

«Imagine que eu sou de uma tribo selvagem que vai recolhendo no território os objetos que interessam», guardando uns, rejeitando outros.

«Mas isso não é exatamente o mesmo se usares óleo sobre tela?», interrogou Rui Sanches. «Quando uma pessoa faz um desenho também decide: eu vou apagar isto ou deixar aquela linha esquisita porque me interessa a esquisitice».

De facto, respondeu PCR, «a criação artística é o momento do olhar, o momento da escolha. O artista define-se pelas escolhas que faz, sejam elas sobre o desenho que faz ou o lixo do pátio de Roma. Eu prefiro trabalhar com lixo, outros preferem trabalhar com óleo. Mas não há aqui uma fratura de pensamento».

«Artista não é um adjetivo que se põe em cima de uma pessoa. Artista é uma pessoa que tem uma forma particular de estar na vida. É essa diferença que nos faz estar sempre ao serviço. O artista transporta em si algo de que não se pode livrar: olha para aquilo que todos olham de uma forma apenas diferente. E é nesse “apenas” que está a questão».

«E a diferença onde é que está?», questionou Xana.

«Está no trabalho. Cada um, no seu trabalho, materializa essa diferença».

E no trabalho de Pedro Cabrita Reis, o mais reconhecido artista português contemporâneo, que até tem em exposição permanente três peças suas numa sala do 5º piso da Tate Modern de Londres, essa diferença é palpável.

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