Ciência: Carta a Marie Sklodowska Curie

Ouso interromper o silêncio do teu íntimo descanso cósmico, convidar a tua memória para celebrar os 144 anos do teu […]

Ouso interromper o silêncio do teu íntimo descanso cósmico, convidar a tua memória para celebrar os 144 anos do teu nascimento, a 7 de Novembro de 1867. Quantos núcleos de Polónio (Po) e Rádio (Ra), que descobriste grão a grão entre toneladas de minério de urânio, decaem hoje para celebrar o teu aniversário?

Ouso olhar para as imagens das nebulosas, gases e poeiras restantes de supernovas explosões no longínquo passado de milhares de milhões de anos, e que hoje os telescópios e a informática nos traduzem para um presente de cor, onde antes era só breu, desconhecido. Dessas explosões espalharam-se no espaço sideral alguns dos poucos núcleos de polónio e rádio que tu, na companhia inseparável de teu marido Pierre, e já com a tua primeira filha Irene ao colo, desvendaste do seio de amostras de pechblenda, um minério impuro de uraninita. Imagino a explosão de brilho da descoberta nos teus olhos radiantes ao ver o fulgor azulado no ar envolvente de poucos gramas de Polónio, que batizaste em honra à tua Polónia mátria.

Anunciaste a descoberta do Rádio, cerca de um milhão de vezes mais radioativo do que o urânio, no dia seguinte ao Natal de 1898. Com ele, tu e Pierre confirmaram a existência dessa radiação provinda do núcleo de alguns elementos, atividade a quem tu e Pierre cunharam por radioatividade. Mal sabiam vocês que essa mesma radiação, que vos alegrava pelo prazer da descoberta e do conhecimento, vos trespassava as células, alterava, Curie a Curie, inúmeras letras do manual genético que regulava as vossas vidas.

Imagino o olhar terno e filial de Irene perante a alegria do trabalho árduo mas recompensado de sua mãe. Recompensado por ter descoberto, por ter compreendido. Anos mais tarde, Eve, a tua segunda filha vai escrever-te a tua mais linda e comovente biografia. Foste uma mãe extremosa a quem o trabalho permanente não foi desculpa para os afetos com que envolveste os outros e disso é testemunho o maior reconhecimento que Eve escreveu sobre a tua sacrificada vida.

Afinal, o que te trouxe a Paris, à Sorbonne do teu valor, senão a busca incessante pelo conhecimento, por querer saber sempre mais, por olhar para o alto do que está para fazer com os pés já em cima do degrau desvendado.

Disseste que “nada na vida deve ser temido, apenas compreendido”. E de facto nunca pestanejaste perante o cansaço que te alagava o chão que pisavas com a firmeza da perseverança, de uma vontade, diria hoje, radioativa por contagiante aos que te rodeavam sem argumentos. E não foram poucos os que te honorificaram com prémios e mais prémios, honras e graus académicos. Muitos foram os que te cobiçaram e que não entenderam que conseguiste o que alcançaste, não porque eras mulher, mas porque nunca viraste a cara ao trabalho persistente, corrosivo, rigoroso pela excelência, iluminado pela verdade. Poucos segundos perdeste a olhar para o que fizeste pois só conhecias a procura do que ainda restava para fazer, para descobrir através do trabalho.

Foste a primeira das primeiras em muitas coisas do género humano. Os prémios? Esses outros os podem ganhar e ultrapassar-te na contabilidade dos orgulhos honoríficos. Mas a tua maior recompensa foi o conhecimento. E a noção de que o conhecimento que alcançavas deveria estar imediatamente ao acesso dos outros para sua utilidade. Cedo insististe para o uso de equipamentos móveis de radiografia para tratar os enfermos na 1ª Guerra Mundial. Podes ter morrido pela acumulação de erros genéticos provindos da radioatividade que nunca abandonaste. Mas hoje milhões de pessoas com cancro utilizam a radioterapia para sobreviverem a um destino fatal.

Tuas mãos, corroídas pelas radiações que compreendeste, descansam sobre o teu colo feminino, mas irradiam a humanidade que há nos afetos genuínos.

Obrigado Marie Curie.

 

Texto de: António Piedade

Bioquímico

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

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