Uma Fundação da Dieta Mediterrânica no Barrocal Serra Algarvio

O barrocal serra algarvio é uma sub-região tão privilegiada como desfavorecida, que merece, por isso mesmo, uma atenção particular, pois ele é, de certo modo, a coluna vertebral de toda a região algarvia

Volto ao assunto, como tinha prometido numa das crónicas anteriores. O Algarve precisa de projetos estruturantes que mudem substancialmente o modo de lidarmos com a paisagem, o território, a economia e as gentes que aí habitam e trabalham, mas, também, com os neorrurais que queremos trazer para o Algarve.

O barrocal serra algarvio (BSA) é uma sub-região tão privilegiada como desfavorecida, que merece, por isso mesmo, uma atenção particular, pois ele é, de certo modo, a coluna vertebral de toda a região algarvia.

O concelho de Loulé, a união de freguesias de Querença, Tôr e Benafim e a Fundação Manuel Viegas Guerreiro, pela sua centralidade e representatividade, são um bom ponto de partida para este projeto estruturante que, estou convencido, trará muitos jovens empreendedores ao barrocal serra algarvio.

Acresce que o trabalho de fundações já existentes, como a Fundação Serralves e a Fundação Gulbenkian, pode ajudar-nos imenso nesta tarefa. As razões para este “projeto revolucionário” são muito variadas.

Em primeiro lugar, pelo esplendor da natureza e a exuberância da paisagem do BSA que nos revelam verdadeiros jardins do paraíso.

Em segundo lugar, porque as alterações climáticas são um risco permanente que põe em causa o valioso mosaico agro-silvo-pastoril do BSA.

Em terceiro lugar, porque o BSA reúne as principais joias da coroa da economia algarvia, no que diz respeito à agricultura tradicional e à dieta mediterrânica: dos produtos do montado ao pomar tradicional de sequeiro, do mel ao medronho e às ervas aromáticas, dos citrinos aos hortejos tradicionais e fruticultura da beira serra.

Em quarto lugar, porque após a apelação Dieta Mediterrânica conferida pela UNESCO é imperioso manter no BSA um núcleo de biodiversidade e conservação, se quisermos, um núcleo de ecologia funcional em estreita articulação com a arquitetura paisagista e as artes da paisagem.

Em quinto lugar, porque o BSA constitui um excelente ecossistema de acolhimento para promover um ambiente inteligente, isto é, a smartificação deste território.

Em sexto lugar, porque já existe um valioso património construído ligado aos recursos hídricos, no preciso momento em que a água é o bem mais raro e precioso.

Em sétimo lugar, porque a beleza do BSA é de tal modo extraordinária que pode muito receber no seu seio infraestruturas e equipamentos pedagógicos, terapêuticos e recreativos de qualidade e alcance internacionais.

Em oitavo lugar, porque a presença do festival literário internacional de Querença, realizado pela Fundação Manuel Viegas Guerreiro (FLIQ), e a imagem do romantismo naturalista que ele projeta nos trazem à memória o simbolismo das paisagens literárias algarvias, um ativo imaterial muito valioso nos tempos que correm.

Finalmente, a coroar esta série de razões, e porventura o mais decisivo, os universos culturais e científicos de dois ilustres querentinos, os Professores Manuel Viegas Guerreiro e Manuel Gomes Guerreiro, que só por si são justificação bastante para levar por diante este projeto estruturante de âmbito nacional nesta região do Algarve.

Com efeito, todas estas razões, na sua integralidade, prestam um merecido tributo, não apenas à antropologia sociocultural do Prof. Manuel Viegas Guerreiro, mas, também, à “perspetiva ecológica do homem” muito cara ao Prof. Manuel Gomes Guerreiro.

Estou, por isso, inteiramente convencido de que podemos construir, a partir da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, um projeto emblemático em Querença, de âmbito e projeção nacional e internacional, que esteja à altura da denominação Dieta Mediterrânica conferida pela UNESCO.

 

Um Laboratório Colaborativo para o Barrocal Serra Algarvio

No dia 16 de Julho de 2017, escrevi no Público um artigo intitulado “Os interfaces entre a tecnologia e os territórios, uma 2ª ruralidade?”. Num país tão pequeno e tão bem servido de vias de transporte e com o acesso generalizado das gerações mais novas às tecnologias digitais, o problema da “valorização do interior” tem necessariamente de ser pensado e equacionado em outros parâmetros.

Estou a pensar, por exemplo, no papel das escolas superiores agrárias, mas, também, nas escolas profissionais agrícolas e nas escolas de tecnologias da informação e comunicação e nos alunos que delas saem todos os anos.

Das tecnologias da informação e comunicação (TIC) aos territórios inteligentes e criativos (TIC) da 2ª ruralidade. Das TIC aos TIC, eis pois o grande desafio. Serão as TIC uma oportunidade única para o grande país do interior, para a formação da sua inteligência coletiva, serão os recursos intangíveis e a produção de conteúdos associada os fatores decisivos para editar os territórios inteligentes e criativos (TIC) do interior?

Tomemos o exemplo da realidade aumentada (RA) e da realidade virtual (RV). A realidade, hoje, já não é o que era.

Com efeito, com a realidade aumentada e com a realidade virtual nós acrescentamos realidade à realidade, viajamos no tempo, recuperamos recursos, misturamos o passado virtual e o futuro virtual com a realidade presente.

Passamos a ter uma “realidade tridimensional”, ambientes digitais em interação com realidades presenciais. Se quisermos, realidades tangíveis e materiais serão transformadas em ecossistemas inteligentes de aprendizagem, conhecimento e recreação, que serão outros tantos recursos intangíveis para juntar aos recursos materiais com os quais os nossos singelos territórios do interior estão mais habituados a lidar.

Aqui está uma grande oportunidade. Estes recursos intangíveis – a realidade aumentada (RA) e a realidade virtual (RV) – aumentam a cadeia de valor dos territórios já existentes convertendo-os em territórios mais inteligentes e criativos.

A realidade aumentada é um ambiente que mistura elementos do mundo real com elementos do mundo virtual, em duas e três dimensões e processada em tempo real. A realidade virtual é a simulação da realidade através da tecnologia, é a compreensão de um universo ficcional, pleno de significado para o entendimento do universo real e a sua transformação digital.

Hoje em dia praticamente todas as áreas de atividade estão ao alcance das TIC: da silvicultura preventiva à ecologia do fogo, da hidrologia à bioengenharia, da agricultura de precisão à luta biológica e à arquitetura da paisagem, da telemedicina aos serviços ambulatórios ao domicílio, já para não referir a verdadeira revolução na visitação turística, que se transforma em visitação interativa e que através da RA e RV nos permitem a observação, em várias dimensões, de endemismos locais, de sítios arqueológicos, de ruínas milenares, de monumentos históricos, de pinturas e arte sacra, de paisagens literárias, de épocas históricas e heróis locais, autênticas viagens no tempo que fazem reviver locais “aparentemente abandonados”.

Num plano mais prático e operativo, o Laboratório Colaborativo do Barrocal Serra Algarvio (LabCo do BSA) poderia ser o ator principal deste território-rede, ao mesmo tempo real e virtual, um verdadeiro território inteligente e criativo desta sub-região.

Os seus principais objetivos seriam os seguintes:

– Promover uma rede social do BSA que ligue esta região ao mundo,

– Promover uma estrutura de acolhimento para receber os projetos e os novos empreendedores,

– Promover a “digitalização do BSA” no que diz respeito a sistemas de informação geográfica (SIG), GPS, RA e RV e outros sistemas digitais,

– Promover uma pequena rede de espaços de coworking no BSA,

– Promover uma plataforma de crowd sourcing e de crowd funding para recolha de ideias, projetos e fundos de financiamento,

– Promover a criação de uma rede de microcrédito para pequenos projetos,

– Promover o marketing digital do BSA, em especial, o cabaz de primores do BSA,

– Promover uma plataforma tecnológica para as artes e a comunicação e a produção de conteúdos nestas áreas,

– Promover um programa de envelhecimento ativo e conceber serviços ambulatórios ao domicílio para os seniores do BSA,

– Promover uma rede de residências para voluntários, artistas, investigadores e estudantes que realizem projetos de investigação-ação.

Por outro lado, a metodologia Smart Village poderia introduzir inúmeros benefícios nas áreas da energia e iluminação pública, água e saneamento básico, mobilidade e transportes, para citar apenas as mais comuns, mas, também, nos cuidados de saúde e serviços itinerantes, nos cuidados informais e voluntários, nos serviços de natureza, ambiente e proteção civil, na organização do banco de alojamento local, enfim, na rede de serviços agro-silvo-pastoris.

Por último, o LabCo do BSA, principal instrumento da Fundação da Dieta Mediterrânica, promoveria duas missões fundamentais que dizem respeito, em primeiro lugar, aos princípios de uma economia colaborativa e solidária, pela conversão, sempre que possível, de eventos e iniciativas soltas e difusas em atos orgânicos enraizados nas comunidades locais e transformados em economia local e, em segundo lugar, a designação dos “Embaixadores do BSA” tendo em vista promover as relações exteriores da região algarvia e a dieta mediterrânica, pois o BSA e a Dieta Mediterrânica não podem ser pensados apenas de “dentro para dentro”, ao contrário, têm de estar abertos ao mundo e ser o interface com as outras regiões e as nossas diásporas. Uma tarefa gigantesca, sem dúvida, mas é a única que vale a pena.

 

Nota Final

Seria uma janela aberta para o mundo ter no Algarve uma Fundação da Dieta Mediterrânica que reunisse no mesmo programa de ação a antropologia sociocultural de Manuel Viegas Guerreiro, a perspetiva ecológica do homem de Manuel Gomes Guerreiro e as artes da paisagem de Gonçalo Ribeiro Telles.

Sabemos que os sinais distintivos territoriais são a imagem de marca de um território. Um desses sinais é a sua distinção paisagística. Ora, num tempo de “turismo total” não é apenas a gentrificação das vilas e cidades que nos deve preocupar, é, também, a ludificação excessiva e, sobretudo, o critério e o modo como dispomos e usamos recursos escassos como a água, o solo e a vegetação, no fundo a paisagem global que nos acolhe.

Não simplifiquemos, pois. Todos nós somos, cada um à sua maneira, cuidadores da paisagem. Mas não nos iludamos. Há uma literacia própria da paisagem, que necessita de ser convenientemente abordada, sob pena de a nossa perceção da paisagem ser um crime de lesa-pátria e um mau serviço prestado ao país.

Esta seria, pois, a principal missão da Fundação da Dieta Mediterrânica, qual seja, a de abordar, num sentido muito compreensivo, a literacia paisagística das populações. Agora que se fala tanto em abandono, desertificação e valorização do interior, talvez seja o tempo de voltar ao unitarismo de outros tempos, regressando à política e às causas públicas, reabilitando o discurso ideológico sobre a ocupação do nosso território antes que o tenhamos de recuperar num qualquer leilão de ocasião aqui ou no estrangeiro.

A terminar, deixo a todos uma sugestão. Façamos uma visita às colinas mágicas do BSA e ao seu imaginário tão especial, celebremos a sua distinção paisagística, a presença das minas de água, a sublimação do lugar, o esplendor da luz e a geometria das formas, inspiremo-nos na simplicidade e na harmonia da ordem natural das coisas e teremos chegado aos jardins do paraíso, isto é, ao mais profundo e genuíno mediterrâneo algarvio. Se assim for, mais do que um turista ocasional, seremos um verdadeiro peregrino do espírito do tempo.

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