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Mosaico romano do Deus Oceano do Museu de Faro é o primeiro Tesouro Nacional do Algarve

O Deus Oceano (pormenor do mosaico)

O mosaico romano do Deus Oceano, do Museu de Faro, foi reconhecido como Tesouro Nacional na reunião desta quinta-feira, 3 de Maio, do Conselho de Ministros. Este é a primeira peça museológica abaixo de Évora a merecer esta classificação, a mais elevada existente a nível nacional.

Este reconhecimento era aguardado há muito por Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, que, em entrevista ao Sul Informação, não escondeu a satisfação pela decisão do Governo.

«A classificação como Tesouro Nacional é o reconhecimento máximo que uma peça museológica pode alcançar, em Portugal. O facto de, agora, termos um no museu, aumenta a nossa responsabilidade, mas também o nosso protagonismo, que, a partir de agora, mais do que local e regional, é nacional», considerou Marco Lopes.

«Esta é uma peça excecional, tanto pela dimensão, como do ponto de vista artístico e como testemunho da presença romana em Faro, então Ossónoba, que foi uma cidade portuária importante na província. É um conjunto fabuloso», acrescentou.

Tendo em conta que esta peça é a primeira a receber esta classificação na região, o facto de pertencer ao Museu de Faro também faz com que, «no contexto dos museus do Algarve, nós passemos a estar num patamar acima».

Para chegar aqui, foi preciso esperar cerca de três anos. «Não foi nada fácil. Fizemos a candidatura em 2015. Desde então, a proposta passou pelos diferentes serviços técnicos da Direção Geral do Património Cultural, que acharam que tinha condições para obter a classificação».

Marco Lopes frisou o papel de «dois conceituados arqueólogos, especialistas no período romano», João Paulo Bernardes, da Universidade do Algarve, e Catarina Viegas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que estudaram o mosaico e ajudaram a justificar esta classificação.

Sala do mosaico romano do Deus Oceano

A partir daí, «foi um grande sofrimento com os trâmites legais», que levaram a que o processo «andasse de cima para baixo». Em 2017, o processo deu um passo decisivo, ao ser aprovado por unanimidade pela Secção de Museus, da Conservação e Restauro e do Património Imaterial do Conselho Nacional de Cultura, «que junta personalidades especialistas em questões do património».

Esta aprovação aconteceu em Fevereiro de 2017, mas só mais de um ano depois é que a classificação do mosaico do Deus Oceano foi aprovada em Conselho de Ministros.

Neste período, Marco Lopes tentou perceber o andamento do processo, sem ter conseguido obter respostas por parte do Ministério da Cultura e dos seus serviços.

Acabou por ser o deputado Cristóvão Norte [deputado farense do PSD eleito pelo círculo do Algarve] a obtê-las, na sequência de uma pergunta que dirigiu ao Governo sobre o andamento do processo, em Março. Na altura, o Ministério da Cultura informou que o assunto iria a Conselho de Ministros dentro em breve, o que aconteceu hoje.

Entretanto, o PS Faro já veio a público felicitar o Governo «pela classificação do mosaico romano do Deus Oceano, como Tesouro Nacional, bem como todos os investigadores externos e técnicos/equipas do Museu Municipal que, ao longo das últimas três décadas, contribuíram para esta classificação, bem como a autarquia farense nestes mesmos mandatos».

Esta classificação, diz Marco Lopes, vem abrir a porta a que haja mais peças de museu algarvias a poder ser reconhecidas como Tesouro Nacional. «Eu conheço bem o acervo dos museus algarvios e acho que há peças que têm condições de obter esta classificação», acredita.

Mosaico do Deus Oceano

Descoberto em 1926, entre as Ruas Infante D. Henrique Ventura Coelho, em Faro, o mosaico foi, então, novamente reenterrado, só voltando a ser redescoberto em 1976 no decorrer de obras de construção.

Datado de finais do século II ou inícios do III d.C, estaria integrado num edifício público relacionado com atividades marítimas, talvez a sede duma corporação profissional (schola). Os patrocinadores do mosaico inscreveram nele, para a eternidade, os seus nomes, como era comum na sociedade romana.

A cabeça de Oceano é tratada como uma máscara e a associação dos Ventos (Euro e Bóreas) – que personificam as forças naturais – à cabeça de Oceano, não é a mais frequente nas representações do deus (Lancha, 1985:117).

Toda a iconografia e restante decoração presentes neste mosaico, bem como a própria inscrição dos nomes dos patrocinadores, além de indicarem uma origem norte africana dos seus executores, constituem todo um programa de afirmação de uma cidade e da sua vitalidade sócio-económica; uma urbe que vivia dos produtos do mar e seus preparados e que exportava um pouco para todo o império.

Daí a temática central deste mosaico: Oceano, pai de todas as águas ,que faz nascer os Ventos, cujo sopro favorece a navegação, o comércio. Cosmologia e geografia humana inspiram este mosaico e não a mitologia ou a cenografia (Lancha, 1985:119,120).

Bibliografia:
LANCHA, J.(1985) “O Mosaico “Oceano” descoberto em Faro (Algarve)”. Anais do Município de Faro. Vol.XV. Faro. p.111-124.

 

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