A (des)informação nas empresas algarvias

O que acontecerá às empresas algarvias quando houver uma nova crise económica?

Desde há muito que se discute a capacidade de sustentabilidade das empresas portuguesas. De facto, a economia tem mostrado sinais de recuperação desde a grande crise económica e financeira que se fez sentir um pouco por todo o mundo em meados do ano de 2008. Mas o que acontecerá a estas empresas quando a economia voltar a entrar na fase recessiva do ciclo?

A resposta a esta questão será composta por um conjunto de vários fatores. Contudo, a sua capacidade de adaptação e sustentabilidade perante condições de mercado adversas, assume um papel preponderante na resolução do enigma supra.

O desaparecimento de um número significativo de empresas portuguesas, provocado pela crise de 2008, deu lugar ao nascimento de novas empresas, em certos aspetos, mais evoluídas. Avalie-se, por exemplo, a revolução tecnológica e digital que acompanhou a criação destas empresas.

De facto, as tecnologias de informação são agora utilizadas como meio publicitário, como canal de distribuição dos produtos ou serviços e como veículo de interação com o cliente, tanto ao nível da comunicação, como ao nível das transações realizadas no âmbito do negócio.

No entanto, a digitalização de per si não é garantia de sucesso e a maioria das empresas portuguesas, das quais as algarvias não são exceção, parece deixar-se levar ao sabor do vento. Assim, ainda que a economia da região apresente um histórico de resultados satisfatórios nos últimos anos, principalmente no que respeita à atividade turística, é necessário considerar que a conjuntura internacional nos tem sido favorável.

Bem sabemos que, no Algarve, predomina o setor terciário, ou seja, o setor dos serviços, pelo que, dada a sua intangibilidade, pode ser difícil conferir-se a robustez necessária e encontrar soluções para sobreviver a uma crise mundial como aquela a que assistimos em 2008. Porém, se pensarmos naquilo que as nossas empresas têm feito para se precaverem e sobreviverem a uma situação de nova recessão económica, provavelmente não teremos uma resposta muito animadora.

Para nosso ânimo, há algo cujo valor é inestimável para a gestão de qualquer empresa e que deve ser valorizado acima de tudo, a informação.

Nesse sentido, surge a necessidade de implementar um sistema de controlo de gestão, que é precisamente um sistema que agrega dados de forma a produzir informação capaz de avaliar o desempenho de uma organização e apoiar na tomada de decisões estratégicas.

Note-se que um sistema de controlo de gestão não é uma ferramenta “chave na mão”. Significa isto que, para implementá-lo, é necessário estudar a estrutura orgânica de cada empresa, analisar as características do mercado em que se insere, bem como as especificidades da atividade que desenvolve. Deste modo, com sistemas desta natureza pode ser obtida informação financeira, mas também não financeira, a qual pode incidir numa perspetiva operacional, humana ou comercial, consoante o tipo de dados introduzidos.

Expondo a situação desta forma, parece fazer todo o sentido que as empresas que pretendam vingar no mercado e ter capacidade de resposta perante eventuais adversidades, apostem no controlo de gestão.

De facto, as grandes empresas a operar no nosso país têm nas suas estruturas orgânicas áreas que lhe são exclusivamente dedicadas.

Contudo, não é esta a realidade que se vive na maioria das empresas algarvias. Para além de parecer existir um profundo desconhecimento acerca desta matéria, parece haver uma depreciação do potencial deste tipo de atividades, pelo que se conclui que as nossas empresas não valorizam a informação.

Se tivermos de caracterizar o tecido empresarial algarvio, podemos dizer que é composto essencialmente por micro e pequenas empresas, muitas delas estruturas tipicamente familiares. Empresas desse género têm um tipo de gestão particular pois, perseguem maioritariamente um objetivo de sobrevivência e isso resulta num viés importante face àquele que é teoricamente considerado como o objetivo primordial da gestão (i.e., a criação de valor para o acionista).

Talvez as características supra, aliadas a uma cultura empresarial de débil organização e planeamento e elevada reatividade, justifiquem o menosprezo pela área da gestão e suas ramificações, consideradas como custos fixos cuja missão se resume ao cumprimento das obrigações contabilísticas e fiscais.

Tal como dizia Milton Friedman, [em economia] não há almoços grátis, o que significa que este comportamento levado a cabo pela (quase) totalidade das empresas sediadas na nossa região, acarreta um custo. Para além de afastar vários profissionais da área e, naturalmente, empobrecer o mercado de trabalho da região, retira a capacidade de antecipação e, também, de reação das nossas empresas podendo, em última análise, retirar-lhes a sua sustentabilidade.

 

Autora: Beatriz Gonçalves é licenciada em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, instituição onde também obteve o grau de mestre em Finanças Empresariais.
Membro efetivo da Ordem dos Economistas, do colégio de especialidade de Economia Política.
É sobretudo no setor empresarial onde tem desenvolvido a sua atividade profissional, exercendo funções de acompanhamento a projetos de investimento e apoio à gestão. Nutre especial interesse pela área do controlo de gestão das empresas, na qual se tem especializado.

 

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

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