Da invenção, à prática

Esse investimento direto, estado-inovação, cria, para além de outros benefícios, um espaço de crescimento e de validação da inovação que em Portugal não existe

No dia 25 de Março, a McDonald’s anunciou a aquisição da Dynamic Yield, uma startup localizada em Telavive, por 300 milhões de dólares (USD). A sua maior aquisição desde 1999!

Esta startup, criada em 2011 e, entretanto, com mais de 83 milhões de USD de investimento, fornece tecnologia e lógica de decisão guiada por algoritmos.

O paradigma de mass marketing para mass personalization, baseado em algoritmos e automação, e que resulta, no caso da McDonald’s, de aprender com os hábitos de consumo de 68 milhões de pessoas todos os dias, combina dados tão diversos como meteorologia, hora do dia, trânsito local, eventos e, claro, dados relacionados com as vendas históricas, não só de um estabelecimento, mas de todo o mundo, para dar, por exemplo, aos seus clientes, sugestões personalizadas de compra baseados na hora do dia, no tipo de pedido ou nos tempos de serviço daquele momento.

O CEO da McDonald’s resume: “o problema nunca foi a falta de dados, mas sim obter o conhecimento e a inteligência neles existentes”.

Um dia depois, 26 de Março, recebíamos a notícia de que João Vasconcelos, com apenas 43 anos, havia falecido vítima de ataque cardíaco. Esta notícia chocou especialmente o ecossistema nacional ligado à inovação, à indústria e às startups.

O fundador da Codacy (única startup portuguesa vencedora da WebSummit) escreveu: “He was kind and wholehearted. He gave us an office with Startup Lisboa. Then he gave us a voice, because no one cared about Startups before. Then he gave us a stage with the web summit. Then he made people care about Startups when he was in the government. He gave until he couldn’t give no more”.

De que forma a McDonald’s, a Dynamic Yield, Telavive, João Vasconcelos e a Codacy se ligam?

A Dynamic Yield é a analogia, levada ao extremo, da ideia que está na origem da Yourdata – empresa que fundei num nicho das tecnologias da informação. A existência de um data office especialista e de suporte a empresas no desenvolvimento de análise de dados. Levada ao extremo, porque a McDonald’s literalmente adquiriu o conceito!

É também um exemplo recente de duas tendências importantes. Preenchimento do gap que existe entre o que é tecnologicamente possível e o que é feito na prática; e a concentração, em poucos players, de serviços e competências fundamentais de um mesmo mercado. Deter-me-ei apenas na primeira.

As startups assumem-se como veículos de competências combinadas, que, ao inovarem e diferenciarem-se, podem ser mais tarde adquiridas ou, encontrando os seus pequenos monopólios, tornarem-se os gigantes desses novos mercados… ou, mais provavelmente, não acontecer nada e representarem “apenas” um espaço de aprendizagem pessoal e profissional.

Os gigantes já instalados, como a Google ou a Amazon, com o seu maior “à vontade” competitivo, também são importantes na inovação. Os avanços técnicos e tecnológicos sucedem-se mas é, também, importante passar da invenção à prática.

Assistentes de revisão de código como a Codacy ou ainda, em low code, o unicórnio português Outsystems ou exemplos mais simples como a Appsheet, contribuem para o paradigma da democratização da programação.

Hoje é possível construir um website ou aplicações sem necessitar de um programador. Também a inteligência artificial e as competências em machine ou deep learning, processamento de linguagem natural, reconhecimento de voz/áudio, reconhecimento de imagem, estão, e vão tornar-se ainda mais, acessíveis, mesmo a uma pequena empresa no Algarve.

Desenvolver, combinar e ligar a tecnologia que já existe hoje a pequenas ou grandes empresas para a otimização de processos e resolução de problemas através de aplicações inteligentes de base computacional (análise de sentimento, previsão de stocks, clustering de clientes, associação de produtos, etc.) é um exemplo da prática e do valor que advêm da inovação que empresas como a Yourdata, mesmo na “periferia” nacional ou europeia, acrescentam.

“A Indústria 4.0 é a primeira Revolução em que Portugal, se quiser, pode ter peso. Com o digital não interessa saber onde estamos”, dizia João Vasconcelos.

Foi também este digital que tornou viável o aparecimento de ecossistemas como o de Telavive, num país com 60% de área desértica. O berço de startups como a Waze, Viber e Wix, é um dos principais pólos tecnológicos do mundo.

Será o mesmo digital que tornará possível o Algarve Tech Hub, com melhores praias, uma temperatura mais amena e arroz de lingueirão!

No entanto, neste contexto empreendedor, há duas perceções a passar.

A primeira, de mercado. O hype à volta das startups não deve subestimar o trabalho de pequenas empresas que resolvem problemas à medida. Se as aceleradoras e as grandes marcas fazem competições à procura de um produto que seja escalável, os problemas e as respetivas soluções são, na prática, de uma forma geral, e respetivamente, cada vez mais mais abrangentes e customizadas. Este desencontro, creio, está por resolver.

A segunda, política. Se o contexto nacional se caracteriza por escasso capital de risco, empresas hesitantes na adoção de tecnologia e relação universidades–empresas pouco flexível, é necessário um espaço de adoção, integração e de exemplo da transformação digital.

O sucesso de Telavive deriva por exemplo do investimento em tecnologia para a Defesa. O mesmo acontece com sucessivas administrações norte-americanas, num país economicamente liberal, no âmbito da Defesa e não só.

Esse investimento direto, estado-inovação, cria, para além de outros benefícios, um espaço de crescimento e de validação da inovação que em Portugal não existe (pela quase ausência de programas governamentais ou municipais ágeis, de integração de inovação nacional/regional).

João Vasconcelos era uma das figuras que personalizava esse maior protagonismo e ligação que a inovação portuguesa merece. Continuemos este trabalho.

 

Quem é David Pedro?
David João Antunes Pedro adora Lisboa, onde nasceu, e os seus bairros. Cresceu com dois irmãos na Graça, com vista para o Tejo, mas desde 1997 que vive todos os dias a qualidade de vida do Algarve.

Viveu no Azinhal e vive há dez anos em Faro, onde se licenciou em Gestão de Empresas. Depois da licenciatura, em 2007, começou a trabalhar na Caixa Geral de Depósitos. Nesse mesmo ano, concluiu a parte curricular do Mestrado em Finanças Empresariais.

Até 2015, foram oito anos sempre na área de empresas, que incluíram uma pós-graduação em Negócio Bancário pelo Instituto Superior de Gestão Bancária e seis meses na Sucursal do Luxemburgo.

Dirigente associativo juvenil desde os 16 anos e durante sete anos. Interessa-se, desde aí, por gestão e empresas. Valoriza os amigos e as pessoas ímpares com quem já se cruzou ou com quem teve oportunidade de aprender.

Depois de decidir deixar a CGD em 2015, funda a Ympec com o seu melhor amigo, onde ajudam a financiar projetos. Um dos quais a Yourdata, da qual é co-fundador, a qual, com uma grande equipa (!), tem um percurso tecnológico crescente, ao juntar inteligência artificial à análise de dados. Empresa selecionada para a WebSummit em 2018 e que é a primeira empresa do Algarve a ser escolhida para a fase de Pitch.

Tem gosto pelo humor, por viajar e conhecer culturas diferentes. Deixa a sua identidade para ser “o pai do Gonçalo” a partir de 2014 e também “o pai da Inês” a partir de 2018. E, claro, ainda tem tempo para mudar de camisola aos fins-de-semana, quando o Sporting joga!

 

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

 

 

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