“Eles” e os monchiquenses não se entendem

Os monchiquenses não são de pedir ajuda, o Estado não a dá facilmente e, sete meses depois do incêndio, sofre-se em silêncio

Esta reportagem poderia servir para contar a história de Vitorino e Maria Inácia que, quando não chove, dormem na casa que ficou danificada no incêndio de Monchique, há sete meses.

Esta reportagem poderia servir também contar a história de Diamantino e de Maria do Rosário, que preferem ficar numa casa sem condições, do que pedir, ou aceitar, a ajuda que lhes pode ser concedida.

Poderia ainda contar a história de José Franco, que vive num palheiro, desde que o fogo destruiu a sua habitação. Ou mesmo para voltar a falar de Glória Marques, que ficou ferida com gravidade quando, vinda do nada, uma labareda lhe provocou queimaduras.

No entanto, todas estas histórias já foram contadas ao longo dos últimos sete meses. Jornais, televisões e rádios já falaram com estas pessoas. No Alferce, uma aldeia que viu o fogo chegar às suas portas, em dia de festa de S. Romão, os jornalistas são tratados pelo nome próprio: o Mário, a Rosa, o Duarte, o Pedro, o Hugo, ou o João.

Não é estranho, por isso, que mais um jornalista seja recebido com naturalidade, mas com um misto de desconfiança, por Manuel Joaquim, José Albano e José Luís, que fazem parte de um grupo mais alargado de octogenários, que está sentado na paragem de autocarros.

«Bom dia, sou jornalista do Sul Informação, posso falar convosco por uns minutos?». «Diga lá», responde Manuel Joaquim, que é prontamente interrompido por José Luís: «não penses que este é diferente, ele também não te vai dar dinheiro nenhum. A gente fala, fala, mas não serve de nada».

Aproveito a oportunidade para introduzir o tema dos incêndios: «Então os senhores perderam muito com o incêndio?». «Perdemos todos. Estamos de luto. Toda a gente aqui perdeu alguma coisa. Demos conhecimento à Junta, mas não estamos à espera de nada. Estar à espera do quê? Eles não dão nada».

Ao segundo dia de reportagem no terreno, já não vale a pena perguntar quem são “Eles”. Pela definição da população do concelho de Monchique, “Eles” são os governantes, os burocratas, “Eles” são o Estado.

«Eu só quero saber onde é que meto a máquina que me ardeu, que tenho lá no terreno. Qualquer dia ainda vão lá e passam-me uma multa, que eles não hão-de querer que fique lá a máquina. Se eles me fossem lá buscar a máquina e a levassem para a sucata já era bom, mas lá terei que ser eu a ligar ao sucateiro», diz José Albano.

Mas essa não parece ser a sua maior preocupação. Apesar de estarem sentados na paragem de autocarros, estes homens não esperam transporte para lado nenhum. «Vou-me embora, que já vi que isto não abre hoje. Estamos aqui a ver se isto abre, vim eu de Monchique para nada», diz o homem, enquanto aponta para a entrada da dependência da Caixa Agrícola.

«Não há aviso ou dias certos para que a Caixa abra?», questiono. «Não há nada disso, umas vezes vêm cá, outras não. Desde o incêndio que é assim», diz Manuel Joaquim, apontando depois para José Albano: «vens aí com as algibeiras cheias de notas para meter na caixa, mas eles não vêm».

A vontade de falar sobre o incêndio esgota-se depressa, como um mecanismo de defesa. Mas a freguesia do Alferce está ferida, ainda arde, e o fogo ainda faz vítimas.

No dia anterior à conversa com José Albano, Manuel Joaquim e José Luís, houve um funeral na aldeia de alguém que viu a sua casa destruída pelo fogo e não viveu para vê-la novamente de pé. A população reuniu-se e chorou uma vítima tardia do incêndio, mas tem havido outras.

José Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia, que recebeu o Sul Informação pouco tempo depois do cortejo fúnebre, em que também participou, diz que «todos os dias morrem pessoas. Ouve-se dizer que há “mais um AVC, mais um internado…”. As pessoas não aguentam esta pressão e desilusão. Estamos a falar de idosos, que já passaram por isto em 2003, mas com uma intensidade inferior. Na altura, não havia tanta burocracia e as casas foram recuperadas com rapidez. Agora há um sentimento de injustiça e as pessoas têm desalento e falta de motivação».

Este desalento leva a uma revolta interior, que acaba por se manifestar em resignação, como aquela que foi demonstrada pelos homens sentados em frente à Caixa Agrícola.

«Todos fomos afetados, todos dormimos mal desde esse dia. Nós somos “monchiqueiros” e os “monchiqueiros” nunca foram de pedir ajuda. As pessoas preferem sofrer caladas e escondidas a um canto. As pessoas têm vergonha de dizer que estão mal, que precisam de ajuda. Todas as famílias daqui, e pessoas de todas as idades, precisam de apoio, mas não temos coragem de dizer que precisamos dele», diz o autarca.

Isto traduz-se nos pedidos de apoio ao Estado. «Houve mais de 600 pessoas que tiveram prejuízos na agricultura, mas só 280 pediram ajuda. E isso só aconteceu, porque tivemos uma ação junto das pessoas para que não desistissem».

Agora, mesmo depois de muitos dos 280 processos já terem sido aprovados, continuam as desistências.

A Dona Paula, funcionária da Junta de Freguesia, que está atenta à conversa, interrompe para dar um exemplo, mostrando um papel: «coitado do moço, andou a coletar-se nas Finanças para ir receber 400 euros».

Neste caso, continua José Gonçalves, «o valor elegível da proposta [de apoio ao PDR2020] era 2061 euros e foram validados 470 euros. Para os receber, porque isto é para canos de água, vai ter de meter um contador. De Segurança Social, com a nova lei, paga, no mínimo, 20 euros por mês por ter atividade aberta. Isto leva a que as pessoas recebam a aprovação e desistam dos apoios».

A prática acaba por dar alguma razão às vozes que se ouvem pelo concelho: «não vale a pena pedir-lhes nada», «não dão nada a ninguém». Há descrença.

Para confirmar a regra, costuma haver a exceção e essa é António João. Viu a sua casa, na Eira do Bufo, entre o Alferce e a Fornalha, ser consumida pelas chamas, mas confia que esta será reconstruída em breve: «falei com o presidente da Câmara e ele disse que ia arranjar a casa».

Até àquele momento, não tinha tido novidades sobre o processo, até porque a documentação e a caderneta predial ficaram destruídas pelo fogo. Ainda assim, António João diz estar confiante: «temos de acreditar não é? Se o presidente diz, temos que acreditar».

Neste caso, a crença deste homem é justificada, uma vez que o Sul Informação confirmou, no dia seguinte, com o autarca Rui André, que o processo de reconstrução desta habitação estava concluído e que estava em condições para que o protocolo com o IHRU fosse assinado.

António João foi-me apresentado por José Gonçalves e encontrei-o na rua, quando regressava à casa emprestada, onde vive temporariamente, no centro do Alferce. Convidou-me a entrar e, durante alguns minutos, aceitou falar do dia do incêndio e dos meses que passaram. No entanto, uma vez que, todos os dias, vai até à sua casa ardida, para tratar dos cães, aceitou combinar um novo encontro, para o dia seguinte, nessa mesma casa. Não apareceu.

Voltei ao Alferce à procura de António João. Não estava em casa e dirigi-me à Junta de Freguesia, onde me recebeu a Dona Paula. Pouco depois, Paul, um inglês que vive na Foz do Vale, a cerca de um quilómetro do Alferce, entra.

Foi pedir que sejam repostas as placas indicativas para a Foz do Vale, que ficaram destruídas com o fogo. «Quero vender a propriedade e é difícil lá chegar sem as placas. Eu vi que estão placas antigas amontoadas num espaço da Junta de Freguesia e venho pedir que ponham uma dessas. É melhor ter uma antiga do que nenhuma», explica, pedindo-me ajuda para traduzir o que pretende.

Os motivos da venda da propriedade, que também foi afetada em redor, não estão relacionados com o incêndio, garante Paul, que chegou a Monchique há doze anos e que, por não querer «problemas», pede para não ser identificado na reportagem com o último nome, nem ser fotografado.

Com um olhar diferente sobre os apoios, até porque tinha seguro para os seus bens, o inglês ajudou a recolher donativos para as vítimas do incêndio que, realça, perderam muito mais do que ele.

No entanto, Paul também identifica nos monchiquenses as características apontadas por José Gonçalves: «a comunidade estrangeira costuma unir-se para doar coisas depois de grandes desastres e sei, da minha experiência, que há várias coisas que nunca foram entregues a ninguém. Isto pode ser porque as pessoas não querem admitir que perderam as suas propriedades, porque têm vergonha ou orgulho».

«Doei muitas coisas, mas, que eu saiba, não foram entregues. Eu sei que há armazéns com utensílios para as casas, que não foram doados. Agora, seis meses depois, se calhar, é demasiado tarde. Se calhar, vão ser utilizados na próxima vez. Porque Monchique vai arder outra vez», sentencia.

Deixo o Alferce em direção a Monchique, passando pela estrada que ainda tem as marcas da passagem do fogo. O problema com a placa de indicações destruída repete-se ao longo do caminho.

Na sede de concelho, apesar de mais movimentada, o sentimento da população não difere. José Gonçalo Duarte, presidente da Junta de Freguesia de Monchique, diz não conseguir quantificar o número de pessoas afetadas pelo incêndio que nem sequer quer ouvir falar em ajudas ou apoios do Estado.

«É praticamente impossível chegar a esse número. O nosso papel tem sido o de falar com a população, desmistificar situações mal interpretadas. Por um lado, as pessoas não entendem bem o papel das entidades oficiais, por outro, as entidades oficiais não têm a sensibilidade toda para perceber o que estas pessoas, que viveram esta situação, sentem», diz.

Esperar por “eles” e pelas ajudas, é algo que muita gente acha que não vale a pena: «há por aí várias situações de proprietários que perderam tubos de rega, pequenos anexos,  na grande maioria ilegais do ponto de vista cadastral, como fornos, arrecadações para a lenha, um sítio para os animais, que acabaram por resolver o assunto pelos próprios meios», adianta o autarca.

No caso dos apoios à agricultura, a legislação obriga a projetos, à abertura de atividade nas Finanças, o que «pode implicar uma vigilância maior por parte do fisco. Isto, do ponto de vista oficial, é do mais correto que existe. No entanto, para as pessoas mais idosas, que nunca tiveram contabilidade organizada e que viveram toda a vida sem isso… São pessoas habituadas a esperar por dez anos para vender umas arrobas de cortiça. Se formos fazer as contas ao ano, são 100 ou 200 euros. Mas se, ao fim de dez anos, vierem 1000 ou 2000 euros, as pessoas ficam contentíssimas», exemplifica José Gonçalo Duarte.

 

José Gonçalo Duarte

Nestes aspetos, «nota-se que as pessoas não estão envolvidas numa situação de legalidade. Devemos tentar que o Estado colabore na resolução destes problemas, mas, no dia a dia, as pessoas sentem que não foram apoiadas. Estas situações colocam-se nos pequenos proprietários. Os grandes sabem defender-se». Mas não há muitos em Monchique.

«As leis são cegas», prossegue o autarca.

Para dar um exemplo, José Gonçalo Duarte conta o caso de uma senhora de 90 anos, que vivia com o marido, mas que ficou viúva no ano passado.

Esta idosa «tem um filho que mora em Silves. E a senhora passa algum tempo na casa do filho para estar acompanhada. Aos fins de semana, vem aqui, trata das plantas, recupera as suas memórias e vivências. Tem a casa mobilada, mas, na prática, não vive lá. A casa ardeu. É uma primeira habitação? Não é. É uma segunda habitação? Não é também. Mas, de alguma forma, a senhora ainda ali mora e recebe a correspondência na caixa de correio. Agora, o Estado diz que não pode investir porque, na prática, a senhora não vive ali. Moralmente, esta senhora precisava muito de ser apoiada, para ter a sua casa, para ajudar à ocupação do território, para que filhos, ou netos, possam vir cá, mantendo a casa, mantendo o campo mais habitado e mais resiliente».

Aproveitando esta história, José Gonçalo Duarte deixa aquilo que diz ser «uma pequena crítica: parece-nos que, se a Serra estiver mais habitada, se tiver mais pessoas a trabalhar na agricultura, ainda que seja apenas de subsistência, e com alguma exploração florestal – ainda que tenha maior controlo – se calhar, a serra fica mais resiliente. Parece que há uma forte tendência, até oficial, de retirar as pessoas dos campos, colocando-as mais perto dos centros urbanos. Se houver um problema, não dá trabalho evacuar, não dá trabalho manter as estradas, as linhas de eletricidade, tudo isto. Do ponto de vista tecnocrático, é uma tendência, mas do ponto de vista de vivência na serra, devia ser o contrário», defende.

Ao fim de sete meses, José Gonçalo Duarte assume que o que tem sido feito «não tem tido um efeito visível junto da comunidade e dá a sensação que está tudo na mesma. Não está nos processos, na avaliação, mas, na prática, está».

Por tudo isto, “Eles” e os monchiquenses não se entendem. Enquanto uns falam a linguagem das leis «cegas», outros preferem nem falar, sofrendo em silêncio, porque «nunca foram de pedir ajuda».

Também há Paul, que não entende o sentimento de uns e não percebe porque é que «não está a acontecer nada».

E, enquanto nada acontece, os homens em frente à Caixa Agrícola de Alferce esperam que ela abra.

 

Fotos: Nuno Costa | Sul Informação

Comentários

pub
pub