Portimão integra Rede de Cidades com Mobilidade para Todos mas ainda tem barreiras a vencer

No Pavilhão Desportivo da Escola EB 2,3 da Mexilhoeira Grande, onde a equipa de basquetebol adaptado da Parasport treina, uma […]

No Pavilhão Desportivo da Escola EB 2,3 da Mexilhoeira Grande, onde a equipa de basquetebol adaptado da Parasport treina, uma vedação metálica impede o acesso entre o compartimento onde as cadeiras de rodas desportivas são guardadas e o recinto do jogo.

Resultado: é um dos atletas, que apesar de tudo tem mais facilidade de se locomover, que, todas as vezes que há treinos, tem que fazer o esforço adicional de pegar nas cadeiras uma a uma e colocá-las do lado de dentro do recinto de jogo (veja o vídeo no fim deste artigo).

Este exemplo foi apresentado na noite de quarta-feira em mais um debate do ciclo «Teia d’Ideias», sobre o tema «Mobilidade vs Acessibilidade – a visão de quem precisa», iniciativa da associação Teia d’Impulsos, que teve lugar na Casa Manuel Teixeira Gomes, na baixa de Portimão.

Guilherme Ribeiro, membro da Teia d’Impulsos e ele próprio portador de deficiência motora, pretendeu mostrar como um edifício recente, com boas acessibilidades externas, acaba por apresentar barreiras arquitetónicas nas quais, quem não tem problemas de locomoção, nem repara.

A vereadora Isabel Guerreiro, presente no debate, confessou que ela própria nunca tinha reparado neste pormenor e prometeu tentar alterar a situação.

Outro exemplo: na estação dos CTT do Largo Teixeira Gomes há um elevador externo para facilitar o acesso a pessoas portadoras de deficiência motora, nomeadamente às que se deslocam em cadeira de rodas. Mas para acionar essa plataforma é preciso tocar a uma campainha, que há de alertar um funcionário no interior da estação dos correios. Acontece que a campainha, talvez por estar exposta no exterior, está quase sempre avariada…

Nuno Silva, moderador do debate, colocou em palavras o que grande parte da assistência estava a pensar: «nunca tinha reparado que havia ali uma campainha. Quanto mais que estava avariada»…

João Nunes, delegado da Associação Portuguesa de Deficientes, deu outros exemplos: na Praia da Rocha, no acesso ao areal, obra feita recentemente, «só há um corrimão à direita onde eu me posso agarrar, para descer. E para subir? Venho de costas? E nos autocarros Vai e Vem só há uma rampa para deficientes no Largo do Dique. Subo aqui e desço onde?».

Apesar destes exemplos, Portimão até é a cidade do Algarve mais bem preparada para a acessibilidade e para a mobilidade.

Para já, salientou Paula Teles, coordenadora nacional da Rede de Cidades e Vilas com Mobilidade para Todos, Portimão tem a 1ª e única Rota Acessível de Portugal e das poucas na Europa.

Até agora, notou a especialista, em todo o país houve 80 Câmaras Municipais que aderiram ao projeto da Rede, sendo que o Algarve é a região onde maior número de autarquias aderiu, porque «percebeu que a acessibilidade tinha muita importância na sua projeção turística».

Uma adesão que Paula Teles elogiou, já que, disse, «fazer rampas, tapar o buraco do passeio, tirar o caixote do lixo do caminho não é o tipo de projeto que dê muita visibilidade à ação das autarquias».

 

Uma autarquia pára Plano Estratégico do Turismo Acessível no Algarve

 

António Almeida Pires, vice-presidente da Entidade Regional de Turismo do Algarve com os pelouros do Turismo Acessível e Sénior, entre outros, salientou que 10% da população mundial é portadora de uma qualquer deficiência e que esse número sobe para 40% se se pensar em todas as pessoas com necessidades especiais, como os idosos, as grávidas, as famílias com carrinhos de bebés.

Na Europa, acrescentou Almeida Pires, há 134 milhões de pessoas potencialmente “consumidoras” do turismo adaptado.

Percebendo a «janela de oportunidade» que o Turismo Acessível pode ser para o Algarve, a ERTA resolveu avançar para um Plano Estratégico, que envolvesse também os 16 municípios da região. Mas houve uma Câmara Municipal – cujo nome Almeida Pires não quis revelar – que recusou participar no Plano Estratégico e por isso este instrumento já não avançará. «A autarquia que ficou de fora fê-lo não por falta de dinheiro, mas por falta de visão», garantiu o vice-presidente da ERTA.

Com o fracasso da estratégia que o Turismo do Algarve pretendia lançar a nível regional, Almeida Pires, a título pessoal e porque entretanto se empenhou a fundo nestes temas, lançou uma petição pública, para a qual espera receber 5000 assinaturas, de modo a que o tema seja obrigatoriamente discutido na Assembleia da República. Para já, vai apenas em pouco mais de 600 assinaturas…

A propósito da importância da acessibilidade para atrair turistas, Paula Teles frisou que, no Algarve, «não pode ser só Portimão a ser acessível, é preciso que todas as outras cidades sejam acessíveis». É que, explicou a especialista, «os turistas não querem ficar só dentro do resort, que até pode ser acessível. Querem passear, conhecer o mercado, visitar o centro, amanhã ir a Lagos e no dia seguinte a Tavira».

«Este é um cluster de mercado que só vai ser forte e afirmar-se quando todos os municípios forem igualmente fortes» no que à acessibilidade diz respeito. «O Algarve deve estar de mãos dadas para eliminar as barreiras e ser um polo de atração para estes turistas especiais», que são cada vez mais.

Mas não é só ao nível do turismo que há muito trabalho a fazer. Célia Sabino, assistente social no Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão, e que trabalha precisamente com pessoas portadoras de deficiência, revelou que faz parte de um grupo de trabalho, criado no âmbito da Administração Regional de Saúde (ARS), para eliminar as barreiras arquitetónicas nas estruturas ligadas à ARS.

Os trabalhos estão agora em fase de diagnóstico, para depois se avançar para a avaliação dos custos das intervenções necessárias «Mas estamos a falar de edifícios de todos os tipos, alguns deles muito antigos, que remontam ao início do Serviço Nacional de Saúde, após o 25 de Abril. Mas seja as acessibilidades dentro ou fora dos edifícios, tudo está a ser discutido neste momento».

 

Cinco quilómetros com câmara de vídeo na cadeira de rodas

 

Uma avaliação foi também o que fez a associação Teia d’Impulsos, na preparação deste debate. «Fiz o levantamento em toda a cidade e fui até onde a cidade me deixou ir», explicou Guilherme Ribeiro.

Além de um exaustivo levantamento em fotografia dos pontos bons e maus da acessibilidade em edifícios públicos e nas ruas de Portimão, Guilherme deu-se ainda ao trabalho de percorrer os cinco quilómetros da Rota Acessível, com uma câmara de vídeo acoplada à sua cadeira de rodas. «Supostamente a Rota Acessível é um percurso ininterrupto e sem barreiras, mas isso não é verdade», garantiu.

E demonstrou-o, exibindo algumas imagens desse vídeo, que em breve estará disponível no Youtube: o edifício da Segurança Social, que tem, ele próprio, excelente acessibilidade, não está ligado de forma fácil à Rota Acessível. Para quem não tem problemas em locomover-se o acesso parece ótimo. Mas as imagens feitas a partir da cadeira de rodas de Guilherme mostram que a realidade é diferente.

Ou seja, apesar de todos os investimentos feitos em Portimão, a conclusão do debate que se prolongou quase até à 1h00 da manhã é que, como disse a especialista Paula Teles, a acessibilidade é «um processo que nunca está acabado».

 

 

Edifícios de Portimão com boa e acessibilidade

(segundo o levantamento feito pela Teia d’Impulsos)

 

>>>Biblioteca Municipal – Excelente acessibilidade

>>>Centro de Emprego – edifício não acessível

(tem um degrau na entrada; resolvia-se com construção de pequena rampa)

>>>Conservatória e Cartório – não acessível

(degraus na entrada)

>>>CTT Largo Gil Eanes – não acessível

(degrau na entrada)

>>>CTT Largo Teixeira Gomes – acessível, mas nem sempre

(se a campainha estiver avariada…)

>>>EMARP – Excelente acessibilidade

>>>Finanças – não acessível

(o edifício em si parece acessível, mas o parque de estacionamento em terra e os passeios inacabados impedem o acesso)

>>>Junta de Freguesia de Portimão – acessível só para alguns

(rampa de entrada muito inclinada)

>>>PSP – não acessível

(dispõe de uma rampa não regulamentar e perigosa)

>>>Segurança Social – Excelente acessibilidade

(rampa em três níveis, fácil de utilizar)

>>>Tribunal – acessível só para alguns

(pedra de soleira não regulamentar com cerca de 4 cm de altura; resolvia-se boleando a pedra)

 

 

 

 

Assine aqui a Petição Pública «Turismo Acessível – Todos Diferentes, Todos Iguais»

 

Mais um debate em perspetiva:

 

Esta iniciativa da Teia D’Impulsos contou com o apoio da Pastelaria Arade e da Delta que adoçaram o intervalo desta tertúlia.

Como habitual, o debate foi registado em formato audio, sendo posteriormente transmitido, em diferido, pela Rádio Costa D’Oiro no programa “Impulso”, nas suas edições de 8 e 15 de Março, entre as 20 e as 22h00.

Encontra-se já agendado o 7º episódio da Teia d’Ideias que vai decorrer no dia 11 de abril e será subordinado ao tema “Portimão – Visto por quem é de fora”.

Mais informações acerca desta e outras iniciativas da Associação Teia D’Impulsos em www.teiadimpulsos.pt ou através do e-mail teiadimpulsos@gmail.com.

 

 

 

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