Há bocas de incêndio a despejar água em Faro, mas é «para evitar prejuízos maiores»

No espaço de uma semana, por duas vezes, bocas de incêndio despejaram água para a rua durante várias horas

A boca de incêndio que se vê na foto que ilustra esta notícia começou a jorrar água ontem, segunda-feira, ao fim do dia e, esta manhã, cerca das 11h00, quando o Sul Informação esteve no local, ainda não tinha parado. A razão? As obras de construção da rotunda na Avenida Calouste Gulbenkian provocaram, pela segunda vez, no espaço de uma semana, uma rotura no sistema de abastecimento de água de Faro e é necessário purgar o ar das condutas «para evitar prejuízos muito maiores».

A situação tem preocupado inúmeros moradores, que contactaram o nosso jornal e que, além de terem ficado várias horas sem água nas torneiras, viram bocas de incêndio jorrar milhares de litros de água para a rua, numa altura em que o Algarve está em situação de seca severa ou extrema.

Joana Cabrita Martins, uma das munícipes que tomou posição contra este desperdício de água, fez, na semana passada, quando ocorreu a primeira rotura e a respetiva purga, que durou toda a noite e uma parte da manhã, uma participação à Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) e hoje voltou a fazer nova queixa.

A moradora considera que esta situação é «atroz. E depois andam a promover sessões públicas em que se mostram muito preocupados com as questões da falta de água na região».

Paulo Gouveia da Costa, presidente da Fagar, empresa municipal responsável pelo abastecimento de água no concelho de Faro, explicou ao Sul Informação que o corte de água que afetou várias zonas da cidade, esta segunda-feira, se deveu a uma rotura numa conduta de água «provocada pelo empreiteiro» que está construir a nova rotunda da Avenida Calouste Gulbenkian.

«O empreiteiro atingiu a nossa conduta na semana passada e ontem voltou a acontecer o mesmo. Em virtude dessa rotura, outros pontos do sistema sofrem pressão e houve mais duas roturas na sequência dessa», adiantou.

 

Houve uma rotura na zona do Hospital de Faro que, esta manhã, ainda não estava reparada

Uma delas, junto à entrada do Hospital de Faro, do lado do Estádio de São Luís, estava ainda a ser reparada esta manhã e a água continuava a escorrer até à Rotunda do Hospital.

Questionado pelo Sul Informação sobre o desperdício de água provocado pela purga que está a ser feita, através das bocas de incêndio, Paulo Gouveia da Costa diz que esta técnica «é essencial para salvaguardar a integridade do sistema. Quando há estas roturas, entra ar na rede e, se o ar não for purgado, vamos ter outros pontos da rede com mais roturas e com cortes de água por períodos mais prolongados».

Mas não há forma de reaproveitar esta água, utilizando, por exemplo, autotanques? O presidente da Fagar não acha a solução viável. «Nós devemos ter em Faro dois autotanques dos bombeiros, que têm de estar prontos para qualquer ocorrência. Mesmo que conseguíssemos encher um autotanque com a água de uma das bocas, onde iríamos colocar essa água?», questiona.

Joana Cabrita Martins responde: «Se tivessem recolhido a água desperdiçada na semana passada, ontem, durante todo o período em que deixaram meia cidade privada de água, podiam ter colocado vários autotanques a disponibilizar água aos munícipes que não a tinham nas torneiras. Ou, simplesmente, podia ser utilizada para regar os vários canteiros e espaços verdes da cidade, desligando a rega automática, para equilibrar os gastos. Eu não sou técnica de gestão de águas, o que sei é que quem o é tem a responsabilidade e o dever superior de estar informado e ter um plano de atualizado e em conformidade com a realidade local».

Paulo Gouveia da Costa garante que a polémica purga «está de acordo com as melhores práticas. É aquilo que se faz em todo o lado e faz-se isto há dezenas de anos. Esta preocupação com o desperdício, que agora existe, tem a ver com o facto de a problemática da água ter entrado no dia a dia das pessoas e com a questão da seca. Quando a população tem a perceção destes acidentes, a preocupação vem ao de cima».

 

Obras de construção da rotunda na Avenida Calouste Gulbenkian estão na origem das roturas

No entanto, para o responsável «o problema da falta de água e da poupança de água, não deve ser só lembrado quando há acidentes. E este é um acidente, não é uma operação normal. A poupança de água deve ser vista noutra perspetiva, na captação de água e na criação de outras formas de retenção de água mais equilibradas».

Ainda assim, Paulo Gouveia da Costa garante que «se possível, faremos a poupança que pudermos fazer. No entanto, estamos a falar de situação de crise. O que temos de fazer é usar meios técnicos mais adequados para, no mais curto espaço de tempo possível, devolver água à população. É a isso que a entidade reguladora nos obriga».

O presidente da Fagar, apesar das críticas, deixa uma garantia: «Nas purgas, há alguma água que é gasta, mas é muito menos do que iríamos perder com novas roturas causadas pelo ar e eventualmente o colapso da rede».

Em relação ao número de bocas de incêndio utilizadas para esta purga, Paulo Gouveia da Costa não dá um número certo, uma vez que depende «da localização da rotura e do número de interceções da conduta. Podem ser usadas uma duas ou três. Depois podem ser fechadas umas e abertas outras».

O responsável pela empresa municipal entende que «as pessoas estejam alarmadas, mas somos dos municípios a nível nacional com menos perdas de água. Em 308 municípios, estamos no 20º lugar, atrás do Porto. Temos 20% de perdas e a média nacional é superior. Há municípios com 50 ou 60% de perdas. E nós temos trabalhado para manter perdas baixas e reduzi-las ainda mais».

Para Paulo Gouveia da Costa, «os resultados ditam que estamos a ir no caminho certo» mas, para a população, que vê bocas de incêndio a jorrar água, a perceção é outra.

 

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