Cine-Teatro Louletano mostra «como os velhos não são descartáveis»

Peça tem o condão de inquietar e alertar para a problemática da velhice

Paula é uma «mulher como tantas que haverá por aí» a tentar enfrentar as mágoas de se tornar velha. É ela a personagem principal de “Encanecer”, uma peça de teatro que estreia esta sexta-feira, 29 de Novembro, no Cine-Teatro Louletano. O espetáculo é um alerta para a necessidade «de mudarmos um pouco a maneira como olhamos para o envelhecimento». 

A ideia da peça, que é uma coprodução entre a associação Folha de Medronho e a Mákina de Cena, partiu de uma experiência bastante pessoal de Carolina Santos. Além de ser intérprete, também é ela a criadora e a encenadora.

«A peça chama-se “Encanecer” que quer dizer criar cãs, cabelos brancos. Envelhecer, no fundo. A ideia surgiu após eu ter perdido as minhas duas avós no espaço de um ano e de ter visto as implicações que isso teve na minha família. Quis tentar perceber o que sentem os meus pais, a geração deles, que está numa fase que é de pré-terceira idade, naquela faixa entre os 58 e os 65 anos», explicou, num ensaio aberto à imprensa, em que o Sul Informação marcou presença.

 

 

O objetivo passa, assim, por «entender o que essas pessoas sentem porque vão ser, de facto, velhos diferentes». No entender de Carolina, a verdade é que «temos de mudar um pouco a maneira como olhamos para o envelhecimento».

Segundo dados do Euromonitor International, Portugal é o quinto país mais envelhecido do mundo, número que merece uma reflexão: «é um problema que começará a ser ensurdecedor se não encaramos a velhice – e a entrada da velhice – de outra maneira»

«Há um vazio na maneira como a sociedade olha para estas pessoas. Enquanto nos países do Norte a qualidade de vida poderá ser melhor, aquela ideia de passar uma vida calma durante a reforma não é bem o que as pessoas sentem em Portugal. Acho que há toda uma visão que ainda não está direcionada para um envelhecimento com qualidade», considerou a atriz.

Por isso, a arte ganha aqui – como em tantas ocasiões – o condão de servir de alerta. De inquietar.

«As pessoas são convidadas a fazerem uma viagem, durante a peça, dentro daquilo a que chamamos a casa da Paula para percebemos esses pontos de vista. Daí tudo se passar dentro de uma estrutura giratória».

Ao longo da trama, haverá «um género de fantasma da juventude», interpretado por Carolina Santos, que coloca as questões e espicaça reações a Paula.

 

 

«Não manipulo, mas ajudo a que as coisas avancem, como se houvesse sempre esse fantasma de voltar atrás no tempo», explicou.

Paula é interpretada por Alexandra Diogo, atriz que também encara o envelhecimento como «um problema da sociedade».

«Temos de começar a enfrentar este problema de outra forma. Os velhos não são descartáveis até pela forma como podem querer estar na vida e influenciar os mais jovens», disse.

A peça terá apenas uma exibição, já esta sexta-feira, às 21h30, no Cine-Teatro Louletano. Os bilhetes custam 8 euros, valor que desce para 6, em caso de menores de 30 e maiores de 65 anos, podendo ser comprados aqui. Depois, haverá duas exibições, fora do concelho de Loulé, em locais ainda a definir.

O objetivo é também que “Encanecer”, que teve o apoio da Câmara de Loulé pela Bolsa de Apoio ao Teatro, faça no futuro uma digressão pelo país.

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

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