Tolentino e Elisa

Estou plenamente convencido de que a professora Elisa Ferreira terá uma missão bem mais pesada do que o padre Tolentino de Mendonça

Não, não se trata de uma versão contemporânea de Romeu e Julieta, refiro-me a dois ilustres filhos da pátria lusitana, de mérito superlativo e por isso merecedores dos nossos maiores encómios.

José Tolentino de Mendonça

O padre José Tolentino de Mendonça nasceu na ilha da Madeira há 53 anos. Foi professor e vice-reitor na Universidade Católica Portuguesa, onde se doutorou em teologia bíblica. Especialista em Estudos Bíblicos a relação entre o cristianismo e a cultura é uma das ideias-força do seu percurso como escritor. Além de ensaísta, tem uma vasta e prestigiada obra poética distinguida com vários prémios.

O padre José Tolentino de Mendonça foi nomeado a 26 de junho de 2018 arquivista do arquivo secreto do Vaticano e bibliotecário da biblioteca apostólica vaticana.

A 1 de setembro de 2019 foi anunciada a sua elevação a cardeal pelo Papa Francisco, depois de já ser nomeado arcebispo titular de Suava pelo Papa. Tal acontecerá no consistório que se reúne no próximo dia 5 de outubro de 2019.

Acerca da sua obra literária, deixo aos leitores um pequeno excerto, sobre o tempo e a lentidão, de um dos seus escritos denominado “Aqui e agora” que faz parte do livro “Pequeno caminho das grandes perguntas” publicada em 2017 pela Editora Quetzal:

“Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver. Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento interno. Precisamente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecânicas, dos gestos cegamente compulsivos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque temos de nos desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno. Mesmo tendo perdido o estatuto nas nossas sociedades modernas e ocidentais, a lentidão continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo”.

Elisa Maria Guimarães Ferreira

A professora Elisa Ferreira nasceu no Porto há 63 anos. Foi professora de economia na Universidade do Porto, ministra do ambiente e do planeamento, deputada europeia e vice-governadora do Banco de Portugal.

A professora Elisa Ferreira vai ser a nova comissária portuguesa na Comissão Europeia, presidida pela alemã Ursula Van der Leyen.

Na Comissão, Elisa Ferreira irá assumir, a partir do dia 1 de novembro, a pasta que trata de coesão, reformas estruturais, transição energética e digital e, ainda, o instrumento orçamental da zona euro.

Pela sua relevância e oportunidade, trazemos ao conhecimento dos leitores a carta dirigida pela Presidente da Comissão Europeia, onde é formulado o convite a Elisa Ferreira.

«A política de coesão da Europa tem um impacto tangível nas vidas de milhões de europeus. O investimento nas comunidades locais e nas infraestruturas ajuda as regiões a reverter atrasos e reduz as disparidades geográficas.
Mas também ajuda a lidar com realidades diárias, nomeadamente com uma cada vez maior disparidade rural ou com as populações envelhecidas e em declínio de diferentes partes da Europa.
As transições climática e digital estão já a ter um profundo impacto em muitas comunidades e em muitos trabalhadores. Ao mesmo tempo, as regiões também vão dar-nos muitas das soluções e inovações de que precisamos.
Temos de apoiar uma transição justa através de investimento direcionado e apoio a reformas estruturais que acelerem um crescimento inclusivo.
A tua tarefa ao longo dos próximos cinco anos é a de assegurar que a Europa investe e apoia as regiões e as pessoas mais afetadas pelas transições digital e climática, sem deixar ninguém para trás à medida que avançamos juntos.
Deverás trabalhar com os colegisladores no sentido de chegar a acordos, num quadro legislativo, relativamente aos Fundos de Coesão para o próximo orçamento a longo prazo.
A política futura deverá ser moderna e simples de usar e conduzir a mais investimento de alta qualidade. Um acordo rápido é essencial para assegurar que os programas estão prontos a funcionar a partir do primeiro dia.
Vais ajudar as regiões e as autoridades a preparar os seus programas, de acordo com as suas necessidades específicas e com os objetivos gerais da Europa.
Paralelamente, deverás trabalhar com os Estados-membros para assegurar que eles utilizam de forma eficaz os fundos do orçamento atual e para assegurar que há controlos adequados da despesa.
Quero que desenhes e ponhas em prática um novo Fundo Justo de Transição, para trabalhar de perto com o vice-presidente executivo para o Green Deal Europeu e com o comissário para o Orçamento e Administração.
Este fundo deverá oferecer apoio à medida para os mais afetados, por exemplo àqueles que vivem em regiões com intensa exploração industrial, de carvão e de energia e que estão a passar por transformações locais significativas.
Deverá haver coordenação e proximidade entre o Fundo Justo de Transição, os fundos sociais e de emprego, bem como o programa InvestEU.
Irás apoiar as reformas estruturais dos Estados-membros que visem acelerar o investimento destinado a promover o crescimento. Também serás responsável pelo trabalho do Serviço de Apoio às Reformas Estruturais, dando apoio técnico e financeiro às reformas. Irás coordenar o apoio técnico que é dado aos Estados-membros que se estão a preparar para aderir ao euro.
Deverás trabalhar em conjunto com os colegisladores para alcançarem um acordo oportuno sobre o Programa de Apoio às Reformas e sobre o Instrumento Orçamental para a Convergência e a Competitividade na zona euro. Irás assegurar a sua total implementação assim que estiverem em vigor.
Deverás ter uma atenção especial ao desenvolvimento sustentável das cidades e áreas urbanas europeias. A próxima revisão da Agenda Urbana para a UE é uma oportunidade para percebermos como poderemos trabalhar melhor com as cidades em temas como as alterações climáticas, a digitalização e a economia circular.
Deverás também contribuir para uma visão a longo prazo sobre as áreas rurais e assegurar que exploramos ao máximo as provisões dos Tratados para as regiões ultraperiféricas.
O investimento nas reformas, na coesão e numa transição justa tem o potencial para transformar as comunidades locais. É uma história de sucesso europeia que deve ser amplamente divulgada e compreendida.
Deverás visitar projetos, chamar a atenção e falar com as pessoas no terreno para veres como podemos melhorar a implementação e atender melhor às suas necessidades.
Por regra, irás trabalhar sob a orientação do vice-presidente executivo para uma “Economia que Funcione para as Pessoas”. A direção-geral para as políticas regionais e urbanas e uma nova direção-geral para o apoio às reformas estruturais vai apoiar-te no teu trabalho.
A missão descrita acima é não exaustiva nem prescritiva. Outras oportunidades e desafios irão, sem dúvida, aparecer durante os próximos cinco anos. Em todos esses assuntos, vou pedir-te que trabalhes de forma próxima comigo e com os outros membros do colégio.
Quando houver mais clareza, deveremos estar prontos para preparar o caminho para uma parceria ambiciosa e estratégica com o Reino Unido.
Estou desejosa de trabalharmos juntos neste que é um momento emocionante e desafiante para a nossa União. Podes, naturalmente, contar com o meu total apoio político e pessoal para a tua audição no Parlamento Europeu e durante o nosso mandato.

Com os melhores cumprimentos.

Ursula Van der Leyen»

 

Notas Finais

Dadas as circunstâncias, estou plenamente convencido de que a professora Elisa Ferreira terá uma missão bem mais pesada do que o padre Tolentino de Mendonça. Aliás, as movimentações políticas em redor da próxima proposta de orçamento plurianual já deixam indiciar sérios problemas para a pasta de Elisa Ferreira.

Ao contrário da proposta da Comissão Europeia que é igual a 1,11% do rendimento nacional bruto (RNB) dos 27, a última proposta alemã não pretende ultrapassar os 1% do RNB.

Se a proposta da Comissão já pressupõe um corte de 7% nos fundos europeus dirigidos a Portugal, uma diminuição da dotação final global irá repercutir-se inevitavelmente nos recursos ao dispor da comissária portuguesa para a política de coesão e convergência.

E uma vez que o instrumento a criar na área do euro sairá do próximo orçamento comunitário, à semelhança do que acontecerá com o Fundo de Transição Energética e Digital, uma menor dotação para a política de coesão criará grandes obstáculos de negociação política distributiva à comissária portuguesa.

Deste ponto de vista, pelo menos, a passagem do padre José Tolentino de Mendonça pelo Vaticano e pela cúria romana não será, aparentemente, tão atribulada.

Muitas felicidades para estes dois eméritos portugueses.

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