Terras sem Sombra traz a energia criativa de quatro mulheres a S. Martinho das Amoreiras

Programa do Terras sem Sombra desta vez terá só um dia, por causa das Eleições Europeias

A pacata aldeia de S. Martinho das Amoreiras, na zona serrana de Odemira, entre o Alentejo e o Algarve, abre as portas da sua bela igreja, no próximo sábado, dia 25, às 21h30, para acolher algo inédito em Portugal: o concerto de um quarteto de flautas travessas que revela, sem esquivar declinações do jazz, um programa de música contemporânea muito pouco conhecido, incluindo peças de Espanha, do Brasil, da Argentina e, até, dos Estados Unidos.

Trata-se de mais um concerto do Festival Terras sem Sombra, que volta a Odemira, mas, desta vez, ao interior daquele que é o maior concelho de Portugal.

Desta vez, porque domingo, 26 de Maio, é dia de Eleições Europeias, o programa do festival reduz-se apenas a uma jornada, no sábado, 26. E haverá uma espécie de “dois em um” no que diz respeito ao passeio cultural e à atividade de biodiversidade, que se juntam e decorrem na tarde de sábado. «Como o percurso das duas ações era mais ou menos parecido, resolvemos juntá-las a ambas numa só», explicou José António Falcão, diretor geral do Festival ao Sul Informação.

O programa de mais esta jornada do Terras sem Sombra começa ainda antes do concerto, como é habitual. A tarde do dia 25, a partir das 15h00, vai ser dedicada ao património arqueológico, à história e à biodiversidade da Serra da Vigia, famosa pela abundância de fontes e mananciais e pela abertura a panoramas de cortar a respiração. Aqui nascem os rios Mira e Sado. Um bom pretexto para conhecer as alcôncaras (candidatas às 7 Maravilhas Doces de Portugal) e outros doces e iguarias locais, provar a “melhor aguardente de medronho do mundo” e partilhar experiências de vida.

 

Um Quartetazzo de mulheres

«Eis a música ao feminino, com toda a energia criativa», sublinha a organização do festival, sobre o concerto deste sábado. Duas flautistas são espanholas, da Andaluzia e de Madrid, outra é brasileira e outra ainda é argentina. Acompanha-as um percussionista também andaluz.

Esta viagem musical global amplia os horizontes do Terras sem Sombra, em 2019, pela América do Sul, pelos ritmos flamencos e pelos olhares sugeridos por Michel Camillo, numa terra fortemente musical onde se mantêm, com orgulho, as essências do Canto ao Baldão e da viola campaniça.

«As mulheres estão secundarizadas na música, que precisa das mulheres por exemplo para cantar. Mas depois, nos agrupamentos, são sempre rostos masculinos que emergem. Aqui são só mulheres! Há um percussionista, mas é só um ajudante», explicou José António Falcão nas suas declarações ao Sul Informação. Ou seja, ao percussionista homem é reservado um papel mais secundário, como os que normalmente são reservados às mulheres.

Remontando à época das grandes navegações, quando o homem europeu decidiu arriscar, por mares então desconhecidos, através de novas rotas, em busca de especiarias e outros produtos vindos das Índias, o agrupamento Quartetazzo «apresenta uma mostra de uma possível viagem, que podemos denominar histórico-afetiva, para não dizer também emotiva. A própria formação do ensemble evoca um recorte do que foram as consequências deste feito».

Trata-se de um dispositivo formado por quatro mulheres. São todas flautistas, com formações completamente diferentes, ainda que tendo algo em comum: o Flamenco.

Aliás, o seu primeiro encontro deu-se exatamente em Sanlúcar de Barrameda, lugar de onde saiu a primeira expedição de Fernão de Magalhães e Sebastião Elcano, durante uma iniciativa do grande flautista flamenco Jorge Pardo. Neste encontro, puderam dar-se conta da pequena jóia que tinham em mãos: quatro mulheres fortes, cheias de histórias para contar através das suas músicas e vivências.

Nasceu, assim, o grupo, qual mar de memórias e criações. O flamenco é algo que Emilse Barlatay, Trinidad Jiménez, Letícia Malvares e Carmen Vela têm em comum.

No entanto, após um ano de existência, tornou-se mais do que evidente a vocação universal de Quartetazzo. Todas as cores deste grupo são representadas pelos estilos trabalhados por ele, que se identificam notoriamente com o lugar de procedência de cada uma das suas componentes.

Para S. Martinho das Amoreiras, escolheram «um programa único, adequado ao espírito do lugar, que é bem revelador das atuais tendências da música contemporânea, de um e de outro lado do Atlântico. Para os artistas, este resume-se a um charco».

 

A Montanha Mágica: História e Histórias de S. Martinho das Amoreiras

Ensombrado pela massa altaneira da vizinha Serra de Monchique, o cordão montanhoso da Serra da Vigia, muitas vezes dito Serra de São Martinho, foi frequentemente tomado por uma ramificação daquela, intrigando há muito os investigadores.

O Terras sem Sombra vai explorá-lo, sob a orientação dos arqueólogos Virgílio Hipólito Correia e Jorge Vilhena, do historiador António Martins Quaresma, o geólogo Noel Moreira (Universidade de Évora) e do guia Rudolf Muller, da Rota Vicentina. O ponto de encontro é no Largo da Igreja de S. Martinho das Amoreiras, às 15h00 de sábado.

Uma velha estrada, que a atravessava, suscitou o interesse do poder régio, dando origem a grandes obras, na segunda metade do século XVIII.

De São Martinho/Vale Brique, subia a Vale d’El Rei, a Geraldo, a Boa Mulher e a Pero Galego; descia depois, por Corte Brique, a Santa Clara e Sabóia, antes de se abalançar, de novo, à serra, desta vez a verdadeira de Monchique.

Charles Bonnet, em 1851, chamou-lhe serra do Caldeirão, acolhendo, decerto, um topónimo há muito existente. Isto haveria de causar confusões com a serra do Caldeirão ou Mu.

Um século depois, o geógrafo Mariano Feio, baseando-se no nome da sua maior elevação, designou-a por serra da Vigia, e nos nossos dias assim frequentemente é denominada.

Os seus mistérios estão hoje, pouco a pouco, relutantemente, a emergir. Destaca-se, aqui, a necrópole do Pardieiro, monumento funerário da 1ª Idade do Ferro, há cerca de 2500 anos, onde foram achados grãos de cevada tostada.

Isto corresponde a um processo que se destinaria a conservar o grão e/ou a produzir malte para cerveja antiga (“cervoise”, um líquido fermentado espesso antecessor da atual cerveja), bebida muito apreciada nessa época remota.

 

 

Programa do Festival Terras sem Sombra

ODEMIRA

25 de Maio
15h00 – A Montanha Mágica: História e Histórias de São Martinho das Amoreiras
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras
21h30 – SÃO MARTINHO DAS AMOREIRAS – Igreja Paroquial de São Martinho
Noutras Margens: Obras Americanas e Europeias para Flauta
Quartetazzo
Flauta Emilse Barlatay, Trinidad Jiménez, Leticia Malvares, Carmen Vela
Percussão Epi Pacheco

BARRANCOS

8 de Junho
18h30 – Cineteatro Municipal
Convite à Viagem: Geografias, Memórias e Tempos do Canto Lírico
Contralto Ellen Rabiner
Piano Nuno Margarido Lopes
21h30 – Ler o Céu e as suas Tradições: Da Astrologia à Astrofísica
Ponto de encontro: Cineteatro, Baldio, Barrancos

9 de Junho
09h30 – Todos por Um: Prevenção e Combate do Fogo na Raia
Ponto de encontro: Jardim do Miradouro, Rua 1.º de Dezembro, Barrancos

SANTIAGO DO CACÉM

22 de Junho
15h00 – Corte na Aldeia: O Palácio da Carreira
Ponto de encontro: Palácio da Carreira, Largo do Capitão-Mor J. J. Salema de Andrade, Santiago do Cacém
21h30 – Igreja Matriz de Santiago Maior
Onde Está a Minha Casa? Tradição e Vanguardas na Música Checa (Séculos XIX-XX)
Československé Komorní Duo
Violino Pavel Burdych
Piano Zuzana Beresova

23 de Junho
09h30 – Mansa Corrente: O Curso Médio do Rio Sado
Ponto de encontro: Junta de Freguesia de Ermidas-Sado, Rua 25 Abril, n.º 2, Ermidas do Sado, Santiago do Cacém

SINES

6 de Julho
15h00 – Dentro do Olho do Cíclope: O Farol do Cabo de Sines
Ponto de encontro: Farol de Sines, Cabo de Sines
21h30 – Castelo de Sines
Longe, mas Perto: Identidades Musicais Contemporâneas nos EUA
Kronos Quartet
Violino David Harrington, John Sherba
Viola da gamba Hank Dutt
Violoncelo Sunny Yang

7 de Julho
09h30 – Nereu e Proteu: Vigiar e Cultivar o Mar
Ponto de encontro: Paços do Concelho, Rua Ramos da Costa, Sines

19 de Outubro [18h30]
Campo Maior Centro Cultural
Entrega do Prémio Internacional Terras sem Sombra

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