Monchique aproveita incêndio para estudar o seu património arqueológico

Pesquisa no terreno também já permitiu descobrir vestígios que ainda não tinham sido referenciados

O presidente da Câmara Rui André e o arqueólogo municipal Fábio Capela no terreno

O incêndio de Agosto de 2018 provocou sérios prejuízos na Serra de Monchique, mas também abriu uma janela de oportunidade para a investigação arqueológica no concelho.

É que o fogo reduziu «a cinzas muita vegetação que encobria vestígios arqueológicos», que agora têm estado a ser redescobertos e poderão vir a ser valorizados.

A Câmara de Monchique salienta que, no concelho, há «quarenta sítios arqueológicos, na sua maioria registados entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade da centúria seguinte», de acordo com o sistema de informação e gestão arqueológica da Direção-Geral do Património Cultural.

«Considerando a bibliografia disponível, pode afirmar-se que a maioria dos sítios arqueológicos identificados neste município se concentra na vertente voltada a sul do afloramento sienítico da Picota – área onde foram encontradas, entre outros vestígios, mais de setenta sepulturas que testemunham a ocupação deste território ao longo de milénios, por diferentes povos e em distintos momentos civilizacionais».

Esses testemunhos, bem como outros, estiveram durante décadas tapados por vegetação, mas, com o incêndio, voltaram a ficar à vista. Com efeito, «na envolvência do vale da ribeira do Banho, extensas áreas territoriais onde foram identificados e escavados monumentos arqueológicos ficaram completamente despidas de vegetação».

Vários monumentos sepulcrais ficaram novamente visíveis, abrindo-se assim uma janela de oportunidade para se proceder à relocalização e análise desses vestígios do nosso passado comum», salienta a autarquia.

Uma vez que a Câmara Municipal de Monchique possui nos seus quadros de pessoal um técnico superior de Arqueologia, «nos últimos meses têm vindo a ser desenvolvidas pesquisas que visam a inventariação do património histórico-arqueológico referenciado na bibliografia, em especial os bens culturais imóveis situados nas áreas queimadas».

Conseguiu-se, assim, identificar, na zona à volta das Caldas de Monchique, «a maioria dos monumentos funerários que foram escavados entre 1937 e 1949», pelos investigadores Abel Viana, Octávio da Veiga Ferreira e José Formosinho.

«Das dezasseis sepulturas neolíticas registas na necrópole de Palmeira, foram relocalizadas quinze, também se encontraram as sete sepulturas da necrópole do Esgravatadouro e as três da necrópole da Eira Cavada», acrescenta a Câmara de Monchique.

No decurso dos trabalhos de campo, procedeu-se, também, «à identificação de estruturas arqueológicas inéditas, por exemplo no Cerro do Oiro e na necrópole pré-histórica de Belle France».

Quanto ao «emblemático» Sítio Arqueológico do Cerro do Castelo de Alferce, foi agora possível descobrir qual «o local de entrada para este enorme recinto fortificado, tendo-se identificado segmentos não registados da muralha que define a extensão máxima do arqueossítio – facto que possibilitou calcular uma área intramuros com aproximadamente 9,5 hectares».

Também se têm identificado «vestígios patrimoniais mais recentes», por exemplo as ruínas do Eremitério de Nossa Senhora do Carmo, na Picota, assim como moinhos de vento e de água, «que estavam camuflados pela imensa vegetação que cresceu incontrolavelmente durante as últimas décadas».

A autarquia conclui que a continuação destas pesquisas irá permitir, entre outras coisas, elaborar a futura Carta de Património Cultural do Concelho de Monchique, realizar ações de investigação, de salvaguarda e de valorização patrimonial, bem como preparar materiais informativos sobre o diversificado património cultural do concelho de Monchique.

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