Também já se aprende a ser viveirista na escola

Curso de Produção e Apanha de Bivalves é a primeira formação do For-Mar Olhão a pensar especificamente em viveiristas e mariscadores

Ostras não faltam, na maternidade experimental da Mirabilis, em Tavira. Mas, ao contrário daquelas com que trabalham diariamente muitos dos formandos do curso de Produção e Apanha de Bivalves, do For-Mar Olhão, estas ostras são ainda bem pequenas e muitas delas nem sequer são visíveis a olho nu.

O Centro de Formação Profissional das Pescas e do Mar de Olhão lançou recentemente o primeiro curso, a pensar, especificamente, em viveiristas e mariscadores, bem como na aquacultura de bivalves. E, mais do que transmitir teoria, o For-Mar fez questão de ir ao terreno e mostrar o lado mais científico da produção de ostras aos seus formandos.

Para isso, aliou-se à empresa Mirabilis, uma spin-off da Universidade do Algarve que se propõe a instalar no Algarve uma maternidade de ostra portuguesa (Crassostrea angulata).

A start up algarvia está a levar a cabo o projeto “Angulata I&D- Inovação na Prrodução de Ostra Portuguesa em Maternidade”,  em parceria com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera e com o apoio do Programa Operacional Mar 2020, que «pretende alargar a época de reprodução de ostra portuguesa em ambiente de maternidade e viabilizar, assim, a produção desta espécie, que outrora teve tanta importância», explica Márcia Santos, da Mirabilis.

O “Angulata I&D”, tem um custo de cerca de cem mil euros, cerca de 36,8 mil dos quais garantidos pela União Europeia e 12,2 pelo Estado português.

«O projeto baseia-se no acondicionamento de reprodutores e é nisso que estamos a trabalhar. Estamos a ter excelentes resultados, ao nível do acondicionamento e maturação dos reprodutores, com diferentes temperaturas e alimentações», acrescentou a bióloga marinha formada na UAlg, em declarações ao Sul Informação.

 

Semente de ostra da Mirabilis

 

Foram os resultados deste projeto que a Mirabilis apresentou aos formandos do curso de Produção e Apanha de Bivalves, primeiro em sessões no próprio For-Mar e, no passado sábado, numa visita ao laboratório da Mirabilis, instalado na Estação Experimental de Moluscicultura de Tavira do IPMA, que tem sido um parceiro da start up algarvia desde a primeira hora.

«Durante a visita e nas intervenções que fizemos no ForMar, em Olhão, falámos aos formandos do que tem sido o nosso dia-a-dia na Mirabilis, no âmbito deste nosso projeto de investigação científica, e apresentámos os resultados da primeira fase do “Angulata I&D”. Hoje os formandos tiveram a oportunidade de ver ao vivo o que já conseguimos», explicou ao Sul Informação Maurício Namora, co-fundador da empresa.

E o interesse dos alunos do curso, muitos deles já com experiência na área da produção de ostra, era evidente pelas reações e pelas muitas perguntas que fizeram.

«Já tínhamos uma ideia de que se produzia semente de ostra aqui no Algarve. Mas ver in loco é muito mais interessante. Agradeço à For-Mar a oportunidade e por ter proporcionado estes momentos, porque isto é muito importante para a nossa atividade», confessou Hélder Felizardo.

Hélder é viveirista, atividade à qual se dedica «mais a sério há três ou quatro anos» e que alia com o trabalho no setor das marítimo-turísticas, ao qual esteve «sempre ligado». «Estou muito interessado nesta cultura e estamos no bom caminho», disse.

 

Maurício Namora mostra os cantos à casa aos formandos do For-Mar

 

Também Ana Soares, cujo marido trabalha na produção de ostras, se mostra muito interessada na área. «Também estou a pensar trabalhar neste setor e acho que é importante conhecermos um pouco mais sobre aquilo em que vamos trabalhar. E há também a vertente de saber o que estamos a consumir», disse.

«Trabalhei em aquacultura e o facto de o meu marido trabalhar nesta área há mais de 13 anos também contribuiu para o meu interesse neste curso», referiu Ana Soares.

Assim, na visão destes formandos, foi em boa hora que o For-Mar e a jovem empresa algarvia se juntaram para pensar este curso.

«Juntámo-nos um dia e achámos que, para aquele plano normal que nós temos – que é o habitual, o pescador, a produção -, estávamos a falhar um bocado na área da aquacultura e dos bivalves. Assim, em conjunto com a Mirabilis, definimos este curso, para dar resposta às necessidades existentes», explicou ao Sul Informação Angelina Ramos, coordenadora regional do For-Mar.

Esta é uma ação de formação de 175 horas, que são ministradas «sensivelmente ao longo de dois meses».

«Fizemos um primeiro curso, mas apenas com 125 horas, porque já estávamos muito próximo do final do ano. Esse curso não teve dois módulos que nós, mais tarde, considerámos que eram muito importantes, a expedição e depuração. Este segundo grupo já terá essa formação e o anterior virá no dia 22 fazer esses dois módulos», acrescentou Angelina Ramos.

Este é um curso que conta com «uma forte componente prática.  Os formandos têm estado no laboratório e feito uma série de experiências».

E, depois, há uma parte de contacto com as empresas, onde eles podem conhecer a realidade do setor. Assim, «não se trata apenas de ouvir o que se deve fazer, também põe a mão na massa, principalmente na parte do controlo sanitário».

 

Márcia Santos

Esta última vertente interessa particularmente a Ana Rendeiro e a Ana Paula – «aqui são todas Anas», brinca Angelina Ramos -, embora por razões distintas.

Ana Rendeiro é viveirista e explora os viveiros que o seu avô já trabalhava. «Faz diferença o que aprendemos neste curso, em relação ao que nos foi passado pelos nossos pais e avós», assegura.

«Aqui aprendemos sobre a biologia dos bivalves. Também é importante saber sobre as doenças e porque razão acontecem, para as podermos combater. Por vezes, sabemos que há mortalidade, mas não sabemos porquê. Com formação, é diferente», acrescentou.

«Acho que os viveiristas e mariscadores deviam apostar na formação e ver o ponto de vista não só de quem trabalha no terreno, mas também o técnico e ambiental. Há coisas de que não tinha noção, mesmo estando em contacto com as ostras todos os dias. O curso abre-nos os olhos para outras realidades», rematou Ana Rendeiro.

Ana Paula, por seu lado, é engenheira e trabalha na área do controlo sanitário. Natural do Brasil, ingressou no curso do For-Mar por ser «uma interessada nesta área».

«Há várias vantagens de fazer este curso. Portugal é um país que vive muito voltado para o litoral. Se não valorizar esta cultura milenar, é um grande desperdício. Eu vejo isso até como estrangeira que sou», acredita esta formanda do curso Produção e Apanha de Bivalves.

«Aqui aprendemos as boas prática, discutimos as espécies que são usadas – se é melhor usar espécies de cá ou trazer de outros locais -, e há um intercâmbio entre os próprios viveiristas. Isto pode ajudá-los a resolver problemas comuns», concluiu Ana Paula.

No sábado, os formandos que visitaram a Mirabilis não disfarçavam a boa disposição. E quem sabe se não estarão aqui futuros clientes da Mirabilis, que sonha em dar fôlego à produção de ostra portuguesa, uma indústria que, outrora, teve uma grande expressão.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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