Faro vai ter uma festa dedicada às suas açoteias

Organizadores de várias cidades da Europa, bem como técnicos e empresários algarvios encontraram-se em Faro

As açoteias de Faro – os terraços na cobertura dos edifícios, públicos ou privados, altos ou baixos, novos ou antigos – são o motivo de um novo festival que vai ter lugar na cidade nos dias 21 e 22 de Junho próximo.

Os pormenores do evento só hoje, ao final da tarde, serão revelados, em conferência de imprensa. Mas ontem, quinta-feira, e hoje, durante a manhã, decorreu na capital algarvia um inédito encontro europeu sobre rooftops, os tais terraços de cobertura, ou antes, açoteias.

O Encontro Europeu trouxe ao Algarve, pela primeira vez, representantes de festivais de rooftops que já acontecem em outras cidades por essa Europa fora ou que estão também a ser preparados, como o de Faro.

Várias cidades europeias – como Amesterdão e Roterdão, na Holanda, Antuérpia, na Bélgica, Barcelona, em Espanha, Praga, na República Checa, Milão, em Itália, ou Nicósia, no Chipre – já fazem ou têm programados eventos que tiram partido dos seus rooftops. E foram representantes destes festivais que vieram a Faro. O curioso é que, ainda que alguns deles sejam quase vizinhos, como Roterdão, Amesterdão e Antuérpia, os seus organizadores não se conheciam…e foi preciso virem à capital algarvia para que finalmente se encontrassem cara a cara e trocassem ideias.

Ao longo do dia de ontem, um grupo de quase 50 pessoas, que incluía representantes desses eventos europeus, mas também empresários e técnicos farenses ligados à hotelaria, à restauração, à organização de eventos, ao turismo, à arquitetura e até uma jornalista – a do Sul Informação -, começaram por visitar os principais pontos turísticos do concelho – a Praia de Faro, o Palácio de Estoi, a Vila-Adentro – para, ao fim da manhã, subir de facto ao primeiro rooftop – o topo da torre da Sé de Faro, de onde o olhar abarca uma vista de 360 graus sobre a cidade e a Ria Formosa.

 

Depois de um almoço num outro terraço sobre a ria, o da Galeria Arco, foi a vez de subir ao último piso do Hotel Eva, onde, durante quatro intensas horas ao longo da tarde, teve lugar um brainstorming de ideias, que partia do tema «que tipo de festival de rooftops se pode fazer em Faro».

Paulo Santos, vice presidente da Câmara de Faro, considerou, em declarações ao Sul Informação, que as ideias saídas do debate são «muito úteis», assim como foi também muito proveitoso o contacto com quem, noutras cidades europeias, com dimensão muito maior que a capital algarvia, já faz eventos tirando partido dos terraços de cobertura de edifícios públicos, hotéis, centros comerciais, monumentos, casas e prédios privados.

«Aqui em Faro, só para começarmos, já temos pelo menos uns sete ou oito espaços em açoteias que podemos usar, porque são espaços de hotéis e restaurantes ou de edifícios públicos», explicou Paulo Santos. Os terraços dos hotéis Faro e EVA, do Centro Ciência Viva, da Galeria Arco, do restaurante Tertúlia Algarvia, do hostel Casa d’Alagoa e de outras unidades hoteleiras e de restauração integram essa lista.

Mas o vice presidente da Câmara quer que a primeira edição do Festival, em Junho, vá mais longe e envolva os farenses. Por isso, «vamos lançar um convite à população, para que possa abrir o seu terraço, a sua açoteia. Vamos falar, vamos discutir o que se pode fazer em cada um deles. Se uma açoteia só tem espaço para 15 pessoas, fazemos um evento que seja só para essas 15 pessoas», disse o autarca ao Sul Informação, que ontem acompanhou e participou em todo o programa do encontro.

 

Bruno Inácio, chefe da Divisão de Cultura da Câmara de Faro e responsável pela organização deste encontro, salientou, no início da sessão de brainstorming, que «Faro é uma cidade do Sul da Europa, temos por aqui muitos telhados planos, muitos terraços, aquilo a que chamamos açoteias».

«Normalmente, olhamos a cidade a partir da rua. Mas estar numa açoteia muda a maneira como se olha a cidade. Antigamente, as açoteias e os terraços eram muito utilizados no Algarve, mas isso começou a perder-se ou o seu uso mudou. O que queremos com este novo evento é trazer as pessoas para pensarem em conjunto sobre esta questão, as pessoas de cá, mas também as que vêm de outras cidades, e que nos poderão trazer contributos importantes, mas também levar daqui ideias».

Katrien Ligt é a organizadora do festival Dias dos Rooftops, na cidade portuária holandesa de Roterdão, que já vai na sua quinta edição. Pequenos concertos, festas, exposições, banhos em jaccuzzi e até acampar são algumas das atividades que decorrem ao longo desses dias, nos terraços da cidade.

Os eventos têm lugar em «terraços na cobertura de edifícios públicos, hotéis, alguns edifícios privados, em parques de estacionamento, em jardins nas coberturas. Há de tudo um pouco em Roterdão», explicou Katrien Ligt ao Sul Informação. E, só em 2018, o festival envolveu 56 rooftops e 20 mil visitantes.

Uma das formas de descobrir esses rooftops, sobretudo os que «não estão muito acessíveis, é pegar no Google Maps e procurar». Depois, explica a holandesa, «vamos saber quem são os proprietários, se eles autorizam ou não. Procuramos sempre uma ligação à comunidade e até oferecemos a quem participa algumas recompensas. No ano passado, em conjunto com o Museu da Fotografia, onde decorria um dos eventos, oferecíamos a possibilidade de as pessoas ganharem uma sessão fotográfica. Este ano, vamos fazer a exposição dessas fotografias nesse mesmo rooftop».

Também em Roterdão o festival tem lugar em Junho, na primeira semana, supostamente uma altura do ano em que chove menos nesta cidade costeira holandesa. Mas, «no ano passado, na semana anterior choveu a cântaros, enquanto estávamos a fazer a montagem dos eventos. Felizmente, no dia em que começou o festival, parou de chover».

 

Em Praga, a capital da República Checa, a organização do seu festival de rooftops, que já vai no 4º ano, tem sotaque português. É que o principal organizador é o jovem moçambicano Sandro Martins Valigy, que estudou em Portugal, foi para aquele país para fazer Erasmus e por lá ficou.

Neste caso, o festival tem eventos que se vão prolongando ao longo dos meses, no final de Maio, em Junho, em Julho e em Setembro. E decorrem no topo de edifícios tão diferentes como o Hotel Continental, um centro comercial que tem em cima um restaurante de dia e uma discoteca à noite, ou monumentos.

Concertos, performances, festas, projeções de cinema, tudo em horário pós laboral, são algumas das atividades que, segundo Sandro Valigy, têm lugar nos terraços dos edifícios participantes em Praga. Alguns são eventos para 500 pessoas, outros são de menor dimensão. «Tudo depende do tipo de rooftop», explica.

Em Nicósia, a capital do Chipre, que tem um clima e até uma arquitetura «muito parecida com Faro», a jovem Marina Kyriakou está também à frente da organização de um futuro evento nos terraços cipriotas. «Ainda estamos a definir o que vai ser feito, mas vou levar muitas ideias daqui de Faro», disse ao nosso jornal.

 

De volta à Europa menos quente, Greet Nulens, da cidade belga de Antuérpia, revelou que o primeiro festival teve lugar no ano passado e «correu muito bem». «Em Antuérpia, há muitos rooftops, mas a maioria até estava fechada por questões de segurança. E nós conseguimos que alguns abrissem, para acolher os eventos do festival».

Da sessão de intensa troca de ideias que decorreu durante a tarde, saíram muitas propostas, algumas bastante arrojadas. E foi defendida a ideia de os terraços, ou açoteias, ou rooftops, como lhes quiserem chamar, terem de servir para reforçar os laços entre a comunidade. Por isso, não se pense que o festival que Faro vai estrear terá concertos barulhentos em todas as açoteias da cidade.

As propostas, aliás, passaram antes por pequenos concertos de música acústica, recriação de atividades tradicionais, recuperando artes e ofícios de outrora, que tinham ligação à utilidade original das açoteias, exposições de arte, sessões de cinema, pequenas performances teatrais, instalação de jardins, ou simplesmente ver as vistas, tudo pensado e concretizado de forma sustentável e com conetividade.

 

Pol Noya, de Barcelona, salientou a dificuldade de as pessoas aceitarem a ideia de ter estranhos nos seus terraços e a necessidade de as envolver no processo. O autarca Paulo Santos reforçou que é isso precisamente que Faro quer fazer.

Para facilitar a vida a quem vai querer conhecer esses rooftops, Jesse Jorg, de Amesterdão, lançou a ideia de criar uma aplicação, uma app, que indique «quais os rooftops disponíveis, onde se pode acampar num rooftop ou qual o próximo gig num rooftop».

E Katrien Ligt ficou apaixonada pela palavra portuguesa «açoteia», que aliás a Câmara de Faro fez questão de utilizar. De tal forma, que a holandesa até sugeriu que «açoteia passe a ser a palavra internacional a designar um rooftop que seja mesmo, mesmo utilizado».

Portanto, prepara-se: em Junho, Faro vai promover o seu primeiro festival de açoteias. Será nos dias 21 e 22.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

 

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