Um livro que é memória e semente para recordações futuras

O livro vai estar à venda, na Câmara de Aljezur e não só

«A memória é património cultural e semente de recordações futuras», disse Maria João Pereira Neto, uma das coautoras do livro de fotografia “Aljezur 1869~1969 | memórias”, durante o seu lançamento, com casa cheia,  no Espaço+ de Aljezur, no passado sábado.

Foi uma sessão marcada pela emoção, que muitas vezes toldou a voz dos intervenientes e assomou aos olhos de quem ouvia. «Aljezur surge como lugar das memórias dos autores e de todos os destinatários desta obra, muitos dos quais contribuíram de forma ativa e empenhada na sua construção, ao cederem parte das suas memórias, dos seus registos e imagens, dos seus arquivos pessoais, familiares e íntimos, numa partilha solidária e identitária, para a preservação de um património comum», acrescentou aquela professora e investigadora do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa – CIAUD, ela própria aljezurense de alma e coração.

Ou, como diria José Gonçalves, presidente da Câmara, «estas fotografias, muitas delas inéditas, são a alma dos aljezurenses, desde Odeceixe, passando pelo Rogil, Aljezur e Bordeira».

E, para as encontrar, foi mesmo preciso ir até ao fundo das memórias privadas e dos arquivos públicos. «Fomos vasculhar os baús das famílias aqui da terra», mas também os arquivos de fotógrafos que, ao longo das décadas, passaram pela vila e registaram em imagem as pessoas, as festas, os acontecimentos, as paisagens, as ruas, como recordou João Mariano, fotógrafo e fundador da empresa 1000olhos, o outro coautor do livro a que prefere chamar «álbum».

Foto: 1000olhos

João Mariano, que, com a sua mulher Lénia Santos, garantiu também a coordenação técnica e editorial da obra, garante que os dois anos de trabalho para a preparação desta publicação foram «um processo longo e doloroso». Mas, nessa tarefa, tiveram acesso a uma quantidade imensa de imagens, de tal forma que João garantiu nunca ter pensado «que houvesse tantos registos e tão antigos», com «fotografias fabulosas» sobre Aljezur.

«É incrível pensar que houve fotógrafos a passar por Aljezur em 1869, quando a fotografia tinha sido inventada apenas em 1826, poucas décadas antes», acrescentou. Apesar de ser um concelho periférico, longe de tudo, já então havia em Aljezur gente que se interessava pelo progresso da sua terra.

Maria João Pereira Neto recordou que esta obra resultou de um seu projeto de investigação, que se concretizou neste livro, em parceria com a empresa 1000olhos e a Câmara Municipal de Aljezur. É, como salientou a investigadora, emocionada, um «projeto de investigação de uma vida, ao assumirmos o dever de perpetuar muitas vidas».

E porquê o horizonte temporal destes 100 anos, de 1869 a 1969? Para já, porque de 1869 data a fotografia mais antiga descoberta durante as investigações. Depois, porque o início dessa «baliza temporal», «assume a consolidação de Aljezur como concelho nos finais do século XIX», explicou a investigadora.

E o término desse período, o final dos anos 60, surge porque foi uma «década de consolidação de muitas mudanças: desde a almejada chegada da luz elétrica ao progressivo abandono das práticas ancestrais da agricultura e das pescas». Depois, «tempo de migrações: para África, França, Alemanha», não só por razões económicas, mas até políticas.

Durante toda a sessão de apresentação do livro, um belo objeto de design editorial, feito com todo o gosto e cuidado, ficou patente uma certa nostalgia, pela memória de um tempo passado, mas também pela memória de um tempo futuro (se tal for possível) em que, grande parte do que distingue Aljezur se poderá ter perdido. Como salientou Maria João Pereira Neto, «Aljezur, pese o facto de ter a grande maioria do seu território protegido por leis, nacionais e europeias, foi sempre (des)protegido, sendo no presente um dos tesouros menos preservados e mais cobiçados da Europa Ocidental».

João Mariano, fotógrafo nascido em Lisboa, mas com fortes raízes familiares em Aljezur, para onde escolheu regressar e aí trabalhar, confessou que «ao longo dos anos, descobri que a coisa que mais gosto de fazer são livros. Gosto de fotografar, de desenhar, mas fazer um livro é uma coisa única».

E, de facto, este álbum com 160 páginas e 202 fotografias a preto e branco, é um belo objeto, a começar pela capa de couro finíssimo, onde o nome da obra está marcado com cunho artesanal.

«Para chegarmos a estas 202 fotografias, passaram-nos pelas mãos milhares de imagens», recordou. Nesses tempos, do final do século XIX, princípios do XX, até aos anos 60, a fotografia não era, como hoje, acessível a todos, até num simples telemóvel no bolso. Pelo contrário, «era um processo caro e não acessível a toda a gente». Por isso, são relevantes neste livro as coleções de algumas das famílias tradicionais aljezurenses, mais abastadas.

Mas há também as «fotografias fabulosas do Senhor Furtado, que trabalhava na farmácia de Aljezur, era fotógrafo amador, mas tinha um sentido estético fabuloso». «Esta câmara foi do Senhor Furtado, adquirida pelo meu pai», disse João Mariano, com a voz embargada, segurando nas mãos uma Halina Viceroy, de aspeto antigo e usado.

A máquina fazia fotografias de formato quadrado, 6X6, mas o fotógrafo Frederico Furtado Júnior muitas vezes, como era hábito da época, reenquadrava-as, dando-lhe um formato final retangular. «Tivemos acesso à matriz original, ao negativo. Digitalizámos a partir do negativo e, quando só havia esse negativo, não existindo nenhuma cópia em papel da fotografia, mantivemos o formato 6X6».

Caras, tradições, paisagens, atividades, acontecimentos. Tudo isto está agora vivo nas páginas da obra “Aljezur 1869~1969 | memórias”.

No sábado passado, o livro foi oferecido pela Câmara de Aljezur a todos quantos enchiam por completo, com gente de pé, a sala do «Espaço+». No fim, já de livro aberto nos joelhos, foram muitos os que não saíram enquanto não buscaram na obra aquele rosto, aquela paisagem, aquela festa. «Ainda te lembras desta ponte?», perguntava uma senhora ao seu marido. «Não, isso é a ponte que caiu com as cheias de 1947, eu ainda não tinha nascido». E lá continuaram, eles e muitos outros, a folhear com interesse este verdadeiro álbum de recordações.

José Gonçalves, presidente da Câmara de Aljezur, manifestou-se «muito orgulhoso» com o álbum, que é o resultado de toda a investigação feita ao longo de dois anos. «A apresentação deste livro de memórias é qualquer coisa de fantástico e de espetacular. Traduz o trabalho do Município, na sua missão de recolher, mostrar e preservar o que Aljezur tem de melhor».

Por isso, o autarca fez votos para que, «em 2069, alguém que esteja aqui na Câmara possa voltar a promover um livro destes».

Só que, se for pela vontade da professora Maria João Pereira Neto e do fotógrafo João Mariano, não terá de esperar-se assim tanto. A investigadora diz haver material para mais um ou dois livros, desde 1969 até…2020.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação (a não ser quando indicado)

 

Parcerias úteis, com «pessoas e entidades certas»

A publicação integra-se no projeto de investigação «Aljezur: “entre visão “ do lugar e da memória” – salvaguarda do património material e imaterial de um concelho (des)protegido», de que é investigadora responsável a professora doutora Maria João de Mendonça e Costa Pereira Neto, do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa – CIAUD.

Resulta de uma parceria com a 1000olhos – Imagem e Comunicação e a Câmara Municipal de Aljezur, na sequência de protocolo institucional com a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em Setembro de 2014.

Como disse José Gonçalves, presidente da Câmara Municipal de Aljezur, no lançamento da obra, «este livro é sinal da utilidade das parcerias com as pessoas e com as entidades certas».

O livro, que deverá custar 50 euros, vai ser vendido pela Câmara de Aljezur, bem como na loja Aljezur SW Portugal powered by 1000olhos, naquela vila.

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