Mouros e outros encantamentos no passeio noturno pelo património histórico de Loulé

Passeio de três horas e meia revelou alguns dos mistérios do centro histórico louletano

«Aqui em Loulé não há, nem nunca houve castelo. Castelo é outra coisa. Aqui há é muralhas!», começou por explicar Isabel Luzia, arqueóloga da Câmara de Loulé, que ontem à noite guiou um passeio a pé ao luar, para descobrir o centro histórico da cidade.

O percurso, proposto pelo Museu Municipal louletano, no âmbito das Jornadas Europeias do Património e das comemorações do Dia Mundial do Turismo, inseriu-se no ciclo de caminhadas culturais arqueológicas, sob o mote “Património ao Luar”.

Durante mais de três horas e meia, um grupo de três dezenas de pessoas, na sua maioria portugueses, mas também com alguns estrangeiros à mistura, foi ver onde estão as muralhas islâmicas de Loulé, bem como as suas torres, algumas quase desconhecidas e pouco visíveis, porque se erguem hoje em quintais privados do miolo do centro histórico.

Num dos locais, em plena avenida e quase ao lado do Café Calcinha, a arqueóloga chamou a atenção para a simetria e proporções estranhas de três edifícios, na sua opinião construídos onde antes existiria uma das portas de entrada na medina de Loulé, ladeada por duas fortes torres, à semelhança do que ainda hoje se vê no Arco do Repouso, em Faro.

Na cerca do Convento, os olhares voltaram-se para os restos de dois silos subterrâneos descobertos há anos durante obras no local, e para o pano de muralha, que passa quase despercebido. E falou-se da água em que o subsolo de Loulé é rico, causando problemas nas edificações, até aos dias de hoje.

Junto ao Mercado Municipal, falou-se da história deste local e do que ali existia, antes de, no início do século XX, ter sido construído o atual edifício.

Junto à Igreja Matriz de Loulé, Isabel Luzia chamou a atenção para a torre da igreja, que era, com toda a probabilidade, o minarete da mesquita que ali existia antes da reconquista cristã. Mas falou também das centenas e centenas de pessoas que, até ao século XIX, foram sendo sepultadas no vasto terreiro à volta da igreja. Aproveitou para salientar as diferenças dos rituais de enterramento dos muçulmanos e dos cristãos, tão visíveis sempre que as escavações arqueológicas põem a descoberto um antigo cemitério, destas duas religiões e épocas.

A arqueóloga mostrou ainda as igrejas dedicadas a Maria que o rei D. João IV, grande devoto da Mãe de Jesus, mandou construir à entrada das principais cidades do reino de Portugal…e do Algarve. Em Loulé, há duas dessas igrejas, uma a de Nossa Senhora do Pilar, junto a uma porta virada a sul, outra a de Nossa Senhora da Conceição, perto da antiga alcaidaria.

E foi aqui que, quando há poucos anos a Câmara de Loulé procedeu a obras de conservação e restauro deste pequeno, mas belo, templo, se descobriu, no subsolo, o que resta de uma das principais portas de entrada nas muralhas islâmicas de Loulé. Protegidos por um grosso vidro, lá estão, para que todos os visitantes os vejam, a soleira dessa porta, bem como os sólidos cubos onde rodavam os gonzos das portas.

Nos banhos islâmicos, o hamman tão bem preservado que é peça arqueológica única em Portugal, Isabel Luzia mostrou a delicadeza de algumas peças encontradas nas escavações, como os restos de pequenos frascos de vidro colorido, onde as mouras guardavam os seus perfumes e óleos, ou os ganchos do cabelo, perdidos às centenas, pelas mulheres de há 800 anos.

De volta ao Museu de Loulé, após um périplo curto no espaço (as muralhas de Loulé têm um perímetro de apenas 1 quilómetro), mas longo no tempo (o passeio terminou à 1 hora da manhã), houve ainda oportunidade para apreciar algumas belas peças de cerâmica, islâmicas, que têm sido descobertas ao longo dos anos de trabalhos arqueológicos no centro histórico de Loulé. E de comparar, com peças de cobre e mantas, como certas técnicas e padrões de decoração, que nos foram trazidas pelos mouros, perduraram até ao nosso tempo.

Pelo meio, e até porque esta caminhada noturna tem tudo a ver com isso, Isabel Luzia incitou os participantes a visitar, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, a exposição “LOULÉ. Territórios, Memórias, Identidades”. É que lá é possível fazer uma viagem por sete mil anos da história do concelho e há a oportunidade única de ver algumas peças de grande valor, descobertas pelos arqueólogos nas ruas e edifícios onde ontem decorreu este passeio.

Quando essa mostra acabar, muitas das peças regressarão ao Museu de Loulé. Mas não haverá espaço para as mostrar todas, devidamente musealizadas, como agora acontece em Lisboa.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

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