Portanto, confirma-se que está tudo a saque?

A tragédia dos incêndios do ano passado marcou a ferro e fogo a opinião pública. Um misto de choque, incompreensão, […]

“Limpeza” e abate de árvores em Cacela Velha – Foto: Teresa Patrício

A tragédia dos incêndios do ano passado marcou a ferro e fogo a opinião pública.
Um misto de choque, incompreensão, revolta, medo.

De férias, o responsável máximo do Governo dizia-nos, entre um focus group e outro, que estava tudo bem, e que aquela barata tonta que fazia o papel de Ministra da Administração Interna estava em pleno controlo da situação para que tinha contribuído, com a habitual dança das cadeiras partidárias na Protecção Civil, semanas antes.

O tempo e a realidade se encarregaram de desmontar essa ficção, deixando para trás, fumegante, mais de uma centena de cadáveres, e um País física e moralmente abalado.

Mas o tempo é também curandeiro, e, um ano passado, o que lá vai, lá vai.

Este ano, dizem-nos, estamos muito melhor preparados, porque não sei quantos milhões – afinal, o que interessa – foram vertidos sobre o problema, pese embora a sua estrutura fundamental, assente no desordenamento territorial e no esvaziamento e morte de parte significativa das nossas paisagens “interiores”, ou rurais, em nada tenha sido mexida.

A menos que se considere como mexida a furiosa interpretação que foi feita do conceito de gestão de combustível, plasmado no famigerado Decreto-Lei nº 124/2006, de 28 de Junho, entretanto alterado pela Lei nº 76/2017, de 17 de Agosto, que define o Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios.

A reboque dessa legislação, o Governo pôs em marcha uma cega e musculada campanha de perseguição dendrofóbica, a nível nacional, em que tudo o que é verde é para cortar. Assim pelo nível da raiz, de preferência…

À boa moda portuguesa, tal ensejo rapidamente foi visto como uma oportunidade de safar todo o tipo de vilanias que se queira praticar em termos ambientais, bastando invocar o papão dos fogos e, claro está, a benta água da legislação, que lava todos os pecados, agora interpretada como um desígnio, quase divino, de podar até ao esquecimento toda a plantinha que esteja com aquele ar malandro de quem nos quer é queimar…

E a coisa vai de tal forma de vento em popa, que até em áreas protegidas vinga, como todos ficámos a saber nos últimos dias, olhando para Cacela-Velha.

Numa das mais valiosas paisagens do Parque Natural da Ria Formosa, seu autêntico ex-libris, foram arrasadas dezenas de hectares de vegetação, literalmente por dá cá aquela palha.

“Gestão de combustível”, que ninguém se equivoque! E, segundo informação divulgada pelo Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente da Guarda Nacional Republicana, tudo certinho, direitinho, com o alto patrocínio do Instituto de “Conservação da Natureza e das Florestas” (neste parágrafo, achei melhor colocar, entre aspas, os termos dúbios, para não estar aqui a enganar ninguém).

Se ao menos o camaleão fosse tão protegido nestes habitats como é nas construções ilegais das ilhas-barreira…

Entretanto, como deu bronca, já há dito-por-não-dito, e começou o jogo do empurra das responsabilidades. Para não falar que as acções de rapagem do terreno foram suspensas. Porque foram até às arribas. Mas continuam. Coisas…

Para a posteridade, fica o facto de o ICNF autorizar, ou, no mínimo, não fiscalizar adequadamente, intervenções de monta numa área de Parque Natural, numa zona de particular sensibilidade paisagística, não apenas pela componente ambiental, mas também pela cultural, ali à beira do conjunto edificado de Cacela-Velha!

Mais tarde, depois de enxutas as lágrimas de crocodilo (que as haverá!), e talvez pagas umas multas irrisórias, será interessante acompanhar o que se segue no terreno em apreço. Betão? Relva com buracos e bandeiras? Abacate? Polietileno? Tudo menos o diabo da vegetação, que traz o fogo atrelado! Sempre em nome da gestão de combustível, note-se!

Não sei se estão lembrados mas, há uns anos, gozou-se em Portugal com George W. Bush, por causa de uma teoria a que deu voz, originária do poderoso lobby madeireiro norte-americano, que era brilhante, de tão estúpida: se cortarmos todas as árvores, não haverá mais incêndios, por falta de combustível.

Numa soberba galhofa, suspirávamos de alívio por nem em Portugal, que é sítio dado a insólitos, tal estupidez jamais colher sustento. Com idêntica linha de pensamento, mesmo que referindo-se a questões diversas, ainda há dias o nosso preclaro Marcelo Rebelo de Sousa disse a Trump que Portugal não é os EUA.

Se pensarmos que o Ronaldo com facilidade lhe ganhava as eleições, e sem ter que ir fazer figuras tristes para um concerto de Xutos, e face ao cúmulo de estupidez e indignidade a que chegámos, e de que esta situação em Cacela é apenas mais uma amostra, será mais prudente o nosso Presidente da República reequacionar, antes de mandar tais bocas…

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP)
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

 

 

 

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