À descoberta das relíquias do emblemático Cine Mariani de Monte Gordo

Um projetor de arco, dos anos 50, a carvão, para películas de 35 milímetros, e que ainda funciona, cartazes que […]

Um projetor de arco, dos anos 50, a carvão, para películas de 35 milímetros, e que ainda funciona, cartazes que anunciam filmes de outros tempos, como “O Último Couplet”, “Carmen” ou “Sozinho em Casa”, e bobines a embelezar todo o espaço. O emblemático Cine Mariani, em Monte Gordo, fechou em 2008, após décadas de história, mas a exposição que está patente no antigo espaço faz recuar no tempo. 

Numa viagem pelo mundo da sétima arte, também se encontra outras relíquias, como um amplificador antigo, fotos dos artistas que se punham nos cartazes e até um microfone que possivelmente foi utilizado quando os filmes tinham de ser narrados.

Ainda assim, houve objetos que tiveram de continuar guardados, como um amplificador antigo, dos anos 40 ou 50, devido ao seu peso e dificuldade no transporte.

Todos estes objetos acabam por ser memórias e, para as recordar, nada melhor do que Iuri Mariani Maló, neto de Evaristo Mariani, o célebre proprietário do Cine Mariani, que tinha origem italiana, apesar de ter nascido em Portugal.

«Todo este material teve muito uso», começa por explicar, em conversa com o Sul Informação. Foi no âmbito da Mostra Internacional de Cinema “FRONTEiRAS” que surgiu a ideia «de ir ao baú» buscar alguns destes objetos e expô-los.

Uns estavam guardados ali, no espaço do antigo Cine Mariani, que é hoje a Casa da Cultura de Monte Gordo, da qual Iuri é um dos responsáveis, outros na casa da viúva de Evaristo Mariani, «que fez uma pesquisa ao longo de semanas», explica.

E mesmo depois do fim do festival “FRONTEiRAs”, que terá lugar esta noite, dia 28 de Outubro, alguns dos objetos continuarão expostos, como a câmara de projeção e parte dos cartazes. Para hoje, sábado, no âmbito do festival, está agendada a exibição de três filmes: às 18h00, “The Jigsaw”, uma curta metragem de oito minutos, e “Le Havre”, do realizador finlandês Aki Kaurismaki. Já às 21h00 estará, na tela do Cine Mariani, o clássico “Seven Chances”, de Buster Keaton.

Mas embarquemos na história do emblemático Cine Mariani. Da década de 50 do século XX até 2008, aquele foi, muitas vezes, ponto de paragem obrigatório para os turistas que enchiam Monte Gordo, de Maio a Setembro. Muitos deles eram espanhóis, o que explica que, entre o espólio do cinema agora exposto, se veja muitos cartazes e fotos de filmes castelhanos, com as grandes estrelas da época, como Sara Montiel.

O espaço foi, até 1999, totalmente diferente do que é hoje. Naquilo que é agora a sala de cinema, à direita de quem entra, estava o projetor que exibia os filmes numa tela branca… que era a parede. «Às vezes, a meio de uma cena, via-se passar uma osga», recorda Iuri, entre risos.

E mais: na altura, o Cine Mariani apenas tinha uma parte da sala coberta, enquanto a restante, mais próxima da tela, era ao ar livre.

Certo é que, todas as noites, de Maio a Setembro, havia duas sessões. Por ali passaram filmes com o clássico “Casablanca” ou êxitos mais recentes como “Die Hard” ou “Sozinho em Casa”. «Havia pessoas que já tinham visto os filmes, mas que os reviam aqui», recorda Iuri.

Nos anos 90, deu-se uma «quebra do negócio», devido à dificuldade de um cinema mais pequeno lutar contra os grandes. Assim surgiu a possibilidade de «destruir o antigo cinema e fazer este novo espaço», algo que Evaristo Mariani acabou por aceitar.

Só que o Cine Mariani nunca mais seria o mesmo… «Quando foi reativado, em 2004, já foi apanhar um período ingrato para estes cinemas mais pequenos. Foi um fim inglório: estar a combater com os centros comerciais… As condições de aluguer de filme já tinham encargos diferentes. O meu avô não podia ter aqui uma estreia – os filmes tinham de passar numa casa grande primeiro», diz Iuri, amargurado.

Desses momentos mais complicados, há uma história que o neto de Evaristo Mariani costuma contar. «Numa noite de 2006 ou 2007, estava agendada a exibição de um filme para às 21h30. À tarde passou cá um senhor, perto das 18h00, e comprou dois bilhetes que foram os únicos vendidos para essa noite. Quando chegou perto da hora do filme, após o meu avô já ter esperado para ver se chegava mais alguém, foi ao pé dele e disse-lhe que não ia conseguir dar a sessão, porque nem compensava arrancar com as máquinas todas».

O que é que este espectador resolveu fazer? Perguntou a Evaristo qual era o mínimo de bilhetes vendidos que precisava para arrancar com a sessão.

O proprietário do Cine Mariani respondeu-lhe: 10. «Então o senhor, que até era proprietário de um restaurante aqui em Monte Gordo, disse ao meu avó que lhe comprava mais oito bilhetes!», conta Iuri. E assim arrancou a sessão, apenas com dois espectadores, apesar dos 10 bilhetes vendidos…

Enquanto vai percorrendo a exposição, Iuri Mariani Maló diz que «algumas pessoas ainda se lembram» de objetos que estão expostos, como fotografias de filmes dos anos 80 e 90. «Isto faz parte da nossa história, da minha família. Isso toca-me de maneira particular», atira.

Desses tempos idos, de maior sucesso do que quando se venderam 10 bilhetes para duas pessoas, Iuri ainda guarda recordações. Tanto aquele local, como todo espaço têm muita história. «Naquela altura, morávamos aqui perto da Igreja. As pessoas, durante a tarde, iam bater à porta de casa da minha avó para reservarem logo os bilhetes para a noite! Havia duas sessões sempre cheias», recorda.

E toda a família ajudava para o sucesso do Cine Mariani. «Lembro-me de ser miúdo e todos tínhamos funções no cinema. O meu avô estava na projeção, a minha avó na bilheteira, a minha mãe à porta, eu e um primo levávamos as pessoas aos lugares», diz Iuri.

Por agora, ainda não há novas exibições regulares ali no antigo Cine Mariani. Tal deve-se, sobretudo, ao facto de o projeto da Casa da Cultura de Monte Gordo ainda estar numa fase embrionária. A ideia, porém, é já no próximo Verão começar a haver projeções.

Para Iuri, a exposição tem sido «muito importante para o espaço». «Esta é uma mostra de cinema para um público mais interessado, não tanto o comum espectador. Quem gosta realmente de cinema tem mais curiosidade em ver estes objetos antigos».

Por exemplo, para se perceber a diferença em relação às atuais projeções digitais, a máquina que está exposta no Cine Mariani utilizava carvões que garantiam a luz para que a máquina funcionasse. Ou seja, o carvão em combustão fazia com que houvesse luminosidade para a projeção do filme. Simples…mas muito perigoso.

Era com este tipo de relíquias que Evaristo Mariani, um verdadeiro apaixonado pelo que fazia, se habituou a trabalhar. Mesmo depois do fecho do espaço, todos os dias, às 8h00, ia para o seu cinema, nem que fosse para olear as máquinas e manter o espírito de um local ao qual se entregou de corpo e alma.

O proprietário do Cine Mariani acabaria por morrer em 2014, já com 88 anos de vida (a maior parte deles dedicados à sétima arte). Mas Iuri não tem dúvidas: «o meu avô ia ficar feliz ao ver esta exposição. Ele guardava tudo isto religiosamente. Tinha tudo um grande valor para ele».

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

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