Carlos Norton e o seu Fungo Azul dão a conhecer o Arquivo Sonoro Paisagístico do Algarve

O som da praia de Monte Clérigo num dia buliçoso de Verão, o roçagar das pás do Parque Eólico da […]

O som da praia de Monte Clérigo num dia buliçoso de Verão, o roçagar das pás do Parque Eólico da Gruta Funda, o barulho atroador de uma tempestade no miradouro da Fonte Santa, a caminho da Fóia. Estes são apenas três dos 130 sons diferentes gravados ao longo de meses por Carlos Norton, fundador da recém criada associação cultural Fungo Azul e sonoplasta, no âmbito do projeto do ASPA – Arquivo Sonoro Paisagístico do Algarve.

O ASPA viu, no passado dia 21 de Dezembro, a luz do dia, com a disponibilização, num mapa interativo na internet, acessível a todos, de um primeiro lote de 33 recolhas de som, nos concelhos de Aljezur, Vila do Bispo, Lagos e Monchique.

O objetivo deste projeto, que foi apoiado financeiramente pela Direção Regional de Cultura do Algarve, é «criar uma base de dados sonora do Algarve», explicou Carlos Norton, em entrevista ao programa «Impressões», produzido em conjunto pelo Sul Informação e pela Rádio Universitária do Algarve (RUA FM).

A ideia inicial nasceu quando Norton estava em Inglaterra a fazer um doutoramento na sua área de formação (Biologia Marinha) e tinha saudades de Faro: «e se havia uma coisa de tinha saudades era de estar num ancoradouro à beira da Ria Formosa a ler um livro, a ouvir as águas calmas da ria».

E foi aí que lhe ocorreu que, «se eu pudesse estar aqui em Inglaterra, no meio desta chuva e nevoeiro, e pudesse estar a ouvir o som da Ria Formosa e a ler um livro, seria fenomenal». E assim nasceu a Fungo Azul e o seu projeto de criar o tal Arquivo Sonoro Paisagístico do Algarve.

Em primeiro lugar, explica Norton, esta recolha destina-se «a quem está fora e tem saudades do Algarve». Como músico e sonoplasta que é, defende que «uma imagem ou um vídeo é uma coisa, o som é outra coisa! Se fecharmos os olhos de auscultadores na cabeça e ouvirmos o som da nossa terra, é fantástico!»

Foi então assim que nasceram os alicerces do ASPA, que «mais tarde se tornou um projeto mais científico de recolha exaustiva de todo o Algarve, porque o som paisagístico é também património imaterial, é algo que é mutável. O som de uma cidade dos anos 80 não tem nada a ver com o som de hoje e não tem nada a ver com o que será daqui a 20 anos. É algo que pode e deve ser recolhido para estudo e para documentar e recordar», refere.

Mas há ainda uma terceira e importante função, que é «dar a conhecer a quem não conhece o Algarve», mas sob o ângulo do som. «Quem vem visitar, quem pondera vir viver para o Algarve, vai fazer pesquisas na internet e vê fotografias e vídeo. Mas agora pode ouvir como é o Mercado de Levante em Lagos ou como é o som de uma praia», o que «vai dar uma ideia completamente do que será chegar ao Algarve».

Carlos Norton salienta que «no século XXI, vivemos numa época em que a imagem é que manda, só os olhos é que funcionam, os ouvidos são acessórios». Mas aqui, no ASPA, não é assim, é antes «voltar mesmo à essência do som enquanto sentido primordial».

Ao longo dos meses em que andou a calcorrear todo o Algarve, de microfones e gravador na mão, o sonoplasta notou coisas interessantes. Por exemplo, «que o ruído é uma constante, sobretudo o ruído automóvel. É incrível como, estando a gravar numa praia ou no meio de uma serra isolada, está ali o ruído dos automóveis sempre, sempre. Nós já nem ouvimos…»

A recolha do som é feita com dois microfones, em ambiente estéreo, e os microfones estão dispostos de uma maneira que imita o ouvido humano. Por isso, aconselha, «quando ouvirem a recolha, oiçam com um bom sistema de som ou com auscultadores na cabeça porque vai recriar o estarmos sentados no local, a ouvir isso».

Carlos Norton garante que «andar pelo Algarve de microfones foi uma experiência fabulosa».

E que som mais o impressionou? «Há uns de que eu gosto particularmente, por exemplo, a gravação que foi feita na praia de Monte Clérigo. Eu estava deitado na toalha, tinha levado o equipamento que anda sempre comigo e pus a gravar o som. Ou seja, não é o som bonito do mar e das gaivotas. Não! É o barulho de alguém que está sentado no meio da praia. Ouve-se as pessoas, o mar lá ao fundo, as crianças que gritam à volta e estão a jogar à bola, aquele som banal».

Mas «há um som particular que eu adoro, e que acho que deveriam ouvir, que é o som recolhido em Vila do Bispo, no Parque Eólico da Gruta Funda, e em que o som foi captado precisamente debaixo das pás do moinho eólico a girar. E aquilo faz um som fenomenal», conta, entusiasmado.

No seu trabalho de recolha, Norton tenta ser «o mais discreto possível, de modo a não haver interferências». É que, explica, há uma premissa no ASPA: «a recolha do som é sempre feita de forma genuína e única, ou seja, eu chego a um local, ponho os microfones a gravar e grava durante 15 minutos e está feito, independentemente do que aconteça!»

As recolhas foram feitas por todo o Algarve, tendo havido «uma distribuição equitativa dos concelhos», mas também houve recolhas que não estavam programadas. Norton recorda que «uma das recolhas foi feita na serra de Monchique, no miradouro da Fonte Santa, junto à Fóia, simplesmente porque eu cheguei a casa – e eu moro junto à Fóia – e estava uma tempestade medonha, uma trovoada linda. O que é que eu fiz? Peguei no microfone, meti-me no carro e fui lá para cima gravar aquilo. Estava uma chuva horrível. Gravei dentro do carro, o chapéu de chuva de fora, e está recolhido esse som da trovoada e da chuva a bater no chapéu-de-chuva. Está recolhido esse som, foi uma coisa de momento que me apeteceu recolher».

Mas também houve outras situações mais complicadas, uma mesmo que deixou o sonoplasta com «problemas éticos»: os incêndios.

«Onde eu vivo estive uma semana a tentar perceber se ia arder ou não e [o fogo] ficou ali mesmo à porta e o meu primeiro ímpeto foi: vou agarrar no material e vou gravar o som do incêndio. E é uma questão que ainda hoje se pode pôr: eu deveria ter ido ou eu não deveria ter ido? Hesitei muito na altura, quase com aquele sentimento de repórter, de querer gravar tudo. O incêndio é uma coisa que existe, e tem um som muito característico e que seria bonito, em termos de sonoplastia, que fosse registado. Mas, por uma questão ética, eu não consegui. Era muito fácil, mas seria quase ultrajante para as pessoas que estavam a sofrer com o incêndio eu estar ali, airoso, de microfone na mão, a aproveitar-me de uma desgraça alheia e comunitária. Estive acima de tudo preocupado com o incêndio, porque andei lá de enxada na mão, a ajudar os bombeiros a apagar o fogo e achei que era mais útil fazer esse trabalho».

O ASPA acaba aqui, com a disponibilização destas primeiras 130 recolhas em todo o Algarve, ou é um projeto para continuar? E será que, daqui a alguns anos, Norton vai voltar a recolher som nos mesmos locais?

O sonoplasta responde que «essa é uma das ideias». Tendo em conta que a recolha foi feita de modo cientifico, «há um caderno de campo em que é apontado tudo – desde a nebulosidade, ao vento, à posição dos microfones. É tirada uma fotografia ao material, e para quê? Para que, daqui a 20 anos, se quisermos ir ao mesmo sítio, possamos colocar os microfones exatamente no mesmo sítio e a recolha seja uma réplica perfeita».

Tendo em conta que o que tem andado a fazer é recolher paisagens sonoras pelo Algarve fora, têm acontecido alguns «acidentes de percurso», que acabam por ficar no projeto. «Acidentes de percurso que são naturais, eu estou lá a gravar e eu faço parte da paisagem. Lembro-me de quando fui gravar no Castelo de Aljezur, que é um local muito tranquilo, poucos visitantes chegam lá e geralmente sobem a pé. E eu chego lá com o material, ponho-me à porta da cisterna, e, quando começo a gravar, chegam três carros e durante sete minutos estão ali os visitantes aos gritos. Mas eu pensei: isto faz parte da paisagem. Há momentos em que chegamos ao castelo e há esta paisagem, outros não. Isso é que é o mais difícil, perceber que isto é a paisagem natural, porque o som nunca é igual. Eu posso ir cinco vezes ao castelo e apanhar sempre coisas diferentes e nenhuma delas é falsa. Tal como não é falso eu estar a gravar».

Por outro lado, «às vezes, há pequenas interferências com a minha pessoa. Uma vez, estava a gravar no centro do Marmelete, no concelho de Monchique, pus discretamente os microfones, e às tantas oiço uma porta a abrir e oiço: Boa tarde! E agora, o que é que eu faço? Não vou ser mal educado, estou aqui, tenho de dizer: Boa tarde! Isso faz parte da gravação. São coisas que acontecem, são coisas naturais, e fica também para a posteridade».

O ASPA – Arquivo Sonoro Paisagístico do Algarve começou em Abril passado, com a fase de estudo e prospeção dos melhores locais, através da observação de imagens de satélite. Depois, entre Maio e Julho, foram feitas visitas extensivas ao terreno, para escolha dos locais para recolha de som ambiente.

Desde Agosto que a Fungo Azul tem feito recolhas, em ficheiros com duração exata de 15 minutos. Por uma questão logística, devido ao baixo orçamento para esta iniciativa, foi tomada a decisão de fasear as recolhas, criando quatro setores: o Setor EO, que inclui os concelhos de Aljezur, Vila do Bispo, Lagos e Monchique, o Setor CO, com Portimão, Lagoa, Silves e Albufeira, o Setor CE, com Loulé, Faro, Olhão e São Brás, e ainda o Setor EE, com Tavira, Castro Marim, VRSA e Alcoutim.

No total da região, são 130 recolhas espalhadas por todos os concelhos. O setor EO, o primeiro a ser disponibilizado na internet, no mapa interativo criado para o efeito, no passado dia 21 de Dezembro, conta com 33 recolhas. «Lançado o 1º setor no dia 21 de Dezembro, o segundo será a 21 de Janeiro, depois Março e Abril, sempre ao dia 21», revela Carlos Norton.

«Inicialmente tínhamos previsto fazer cerca de 300 gravações, mas não foi possível, haveremos de ficar, na conclusão desta primeira fase, pelas 130, em que serão 30 a 35 por cada setor». Mas este é um arquivo que irá sendo construído por muitos e muitos anos, o ASPA não vai acabar agora, vai continuar já em 2017. «No lançamento do último setor, haverá um pequeno evento para conclusão do projeto, nesta primeira fase», anuncia.

Os planos são muitos: «está previsto, daqui a algum tempo, abrirmos as recolhas à comunidade. Queremos que sejam as próprias pessoas, que tenham material, que tenham vontade, se for preciso com um telemóvel, a fazer as suas próprias gravações para incluir no mapa».

O «som cru, genuíno, tal e qual» recolhido ao longo dos meses de trabalho será agora disponibilizado de duas maneiras: por um lado através do mapa interativo, que tem um player para ouvir o som. Mas, sendo ele próprio um artista, Carlos Norton revela que «há também a possibilidade de disponibilizarmos o som em bruto. Convidamos até artistas que queiram fazer trabalhos plásticos ou sonoros, por cima das recolhas, que podem fazê-lo, que nós facultamos os ficheiros originais».

Para fazer todo este trabalho, foi fundamental o apoio da Direção Regional de Cultura do Algarve, que «permitiu a fase de estudo, as primeiras gravações e a criação do mapa interativo, onde disponibilizamos tudo». Só que agora «isso acabou», mas os membros da associação Fungo Azul querem continuar com o ASPA, pelo que, promete Carlos Norton, «voltaremos a concorrer para fazer crescer este arquivo». E pode ser que, depois de conhecidos os primeiros resultados desta original recolha de paisagens sonoras de uma região, surjam outras entidades interessadas em apoiar o ASPA.

«Não é muito fácil conseguir financiamento para este tipo de projetos, porque há sempre preferência por coisas concretas. Pode ser um festival, pode ser um concerto, pode ser uma edição, e isto é assim uma esquisitice, uma coisa que não é palpável, que não tem um interesse imediato para a maior parte das pessoas», mas que «tem muita importância para o futuro».

Por isso já sabe: quando quiser ouvir o Algarve (ou os muitos Algarves), basta clicar aqui.

 

Oiça a entrevista de Carlos Norton ao programa «Impressões» da RUA FM na íntegra

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