Rui Vieira Nery desvenda origens do cante alentejano

Beja tornou-se, no dia 21 de abril, palco de uma viagem pelo tempo em que a igreja de Nossa Senhora […]

Beja tornou-se, no dia 21 de abril, palco de uma viagem pelo tempo em que a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, convertida numa caravela repleta de tripulantes, atravessou os mares do tempo e recuou até aos primórdios do canto, explorando a história e evolução da voz humana e a sua importância na música religiosa, desde a Antiguidade até ao século XXI.

O fautor deste prodígio foi Rui Vieira Nery, que proferiu a conferência intitulada “Cum liquida voce et convenientissima modulatione”, (com voz suave e bem modulada) – a intervenção de fundo da 8.ª edição do Festival Terras Sem Sombra.

Atravessando os séculos, desde o canto gregoriano (que acabou por encontrar no cante alentejano uma forte descendência) até ao expoente máximo da polifonia do século XVI, Vieira Nery apresentou a evolução da música vocal no âmbito do Cristianismo e refletiu sobre a música sacra e o propósito fundamental do canto como exaltação da palavra que, como explicou, “reforça a palavra rezada, tem poderes mágicos sobre os sentimentos e o pensamento humano”.

Esta “voz suave e bem modulada” continuou a fluir ao longo dos tempos, chegando ao século XX carregada de significado e transformou-se numa poderosa arma de introspeção e reflexão social.

O musicólogo e especialista em música antiga não ficou indiferente à cultura musical alentejana, aclamando a importância do cante, explicando o seu papel no longo panorama do canto e convidando os espetadores a recuarem no tempo e a reencontrarem as suas origens.

Embora nascido à sombra da tradição religiosa da bacia do Mediterrâneo, o cante ganhou, pela sua riqueza musical, poética e identitária, uma autonomia muito grande, sem nunca perder as profundas componentes espirituais, e ocupa um lugar de destaque no panorama da música europeia.

Nas palavras do diretor-geral do Festival Terras sem Sombra, José António Falcão, “o que se viveu nesta conferência foi um regresso às origens, para compreender o estado atual da arte; foi uma lição que nos iluminou a tarde, num espaço tão ecuménico e cheio de história e cultura, como é o Alentejo”.

O entusiasmo do público, que encheu por completo a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, em pleno coração de Beja, é um belo testemunho da grande paixão que a música inspira nas gentes do Alentejo.

 

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