O preço do dinheiro

Nos países que adotam o Euro como moeda de referência, as taxas de juro são determinadas pelo Banco Central Europeu

Como seria de esperar de uma rubrica escrita por um economista, hoje vamos falar sobre dinheiro. Mais concretamente, sobre o preço do dinheiro. Mas quanto é que o dinheiro custa? E como resposta a esta (não tão) simples pergunta, vamos analisar o papel das taxas de juro numa economia.

Nos países que adotam o Euro como moeda de referência, as taxas de juro são determinadas pelo Banco Central Europeu (BCE). Embora frequentemente nos refiramos a uma única taxa de juro, é importante salientar que o BCE define na realidade três taxas distintas: a taxa de juro que os bancos pagam por pedirem emprestado por uma semana ao BCE, a taxa que pagam por empréstimos a um dia e a taxa de juro que recebem pelas reservas depositadas junto do Banco Central.

Destas, a taxa de empréstimo a uma semana, conhecida como a “main refinancing rate”, destaca-se como a mais significativa, exercendo uma influência preponderante sobre outras taxas de referência, como a Euribor, com a qual os leitores estarão mais familiarizados.

Para decidir sobre o preço dos Euros que todos detemos, existe um processo complexo e institucionalizado. Um conselho composto por cinco governadores e um(a) presidente (atualmente, Christine Lagarde), eleitos pelo Comissão Europeia e Parlamento Europeu, reúne-se oito vezes por ano para deliberar sobre políticas monetárias e a situação económica da Zona Euro.

Adicionalmente, os 19 governadores dos Bancos Centrais Nacionais, incluindo o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno atualmente, contribuem para este processo. Em suma, é todo um processo não inteiramente democrático, nem inteiramente transparente e 100% definido por pessoas que estão sujeitas às suas vieses, inclinações políticas, pressões, interesses e interferências. E afeta-nos a todos.

Em Julho de 2020, a main refinancing rate situava-se em 0%, contrastando com os atuais 4.5%. Este ajuste resultou numa variação significativa da Euribor a 12 meses, que passou de -0.3% para 3.7% durante o mesmo período, tendo atingindo um pico de 4.05% em agosto de 2023.

As comunicações recentes de Christine Lagarde, no rescaldo da última reunião em Abril, indicam uma tendência de redução das taxas de juro, com um primeiro corte de taxas de juro em junho e mais dois2 cortes ainda em 2024.

Estas projeções apontam para acabarmos 2024 com as taxas de juro a baixar para 3.75% e para 2.75% em dezembro 2025. Os leitores mais atentos repararam que esta projeção coincide com a taxa de Euribor a 12 meses? Não é coincidência nenhuma.

Todos os leitores que têm, ou que pensam em adquirir, um crédito à habitação, saberão certamente que os bancos estão com campanhas promocionais a promover taxas fixas aos seus clientes. Será que, pela primeira vez, os bancos estão a oferecer grandes oportunidades de negócio aos seus clientes? Como tudo em finanças, a resposta é: depende.

Cenário 1: a economia europeia revela-se mais resiliente do que esperado e a inflação converge para os 2% ou menos e como tal as taxas de juro não chegam a baixar tanto como esperado, taxa fixa é bom negócio.

Cenário 2: a economia europeia encontra grandes dificuldades, o preço da energia dispara devido a um conflito no Médio Oriente, o desemprego aumenta e como tal o Banco Central Europeu vê-se obrigado a cortar taxas de juro rapidamente, taxa fixa é mau negócio.

Para terminar, gostava de escrever sobre outros dois aspetos muito menos debatidos nesta temática das taxas de juro:

1. O papel da preferência temporal do consumo: taxas de juro mais elevadas recompensam quem tem poupanças e vive dentro dos seus meios, incentivam-nos a pensar mais a longo prazo, a fazer menos investimentos especulativos e a evitar endividamento excessivo. No reverso da moeda estão as taxas de juro baixas, que promovem o consumo imediato financiado com créditos baratos, prejudicam quem tem poupanças e tendem a promover desvalorizações das moedas através do efeito taxa de câmbio.

2. O papel na oferta de habitação: este tema é mais complexo, mas num mercado imobiliário como o nosso, em que há um claro desajuste entre a oferta de habitação, que é escassa, e a procura por habitação, que é elevada, taxas de juro altas tendem a restringir a construção de novas habitações, pois dificultam o acesso e aumentam o custo do crédito para os construtores imobiliários que tanto precisamos para trazer mais casas, prédios e moradias ao mercado, sobretudo para o segmento menos afluente/classe média.

Em suma, as taxas de juro desempenham um papel central na condução da política monetária e na determinação das condições financeiras. A sua evolução reflete não apenas as decisões das autoridades monetárias, mas também as dinâmicas económicas e financeiras subjacentes. Como sempre, é fundamental uma análise criteriosa e uma compreensão aprofundada das implicações económicas e financeiras das políticas adotadas.

 

Autor: João Feliciano Martins, licenciado em Gestão de Empresas e Pós-Graduado em Finanças Empresariais, ambos na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, é membro efetivo da Ordem dos Economistas – Delegação Regional do Algarve.
Profissionalmente, é Consultor de Investimentos em Londres, Gibraltar e no Algarve e é co-fundador da CV Riser – uma empresa com presença em Portugal e no Brasil que pretende automatizar e agilizar toda a experiência de recrutamento.

 

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economista

 

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