Vendedores ambulantes ilegais na Praia do Peneco revoltam empresários de Albufeira

Vendedores estão em conluio com pelo menos um bar situado na baixa da cidade, onde vão buscar as bebidas que depois entregam aos clientes na praia

Praia do Peneco, com o apoio de praia Rocabeach e a zona concessionada – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

«Está a ver? Já anda ali um de volta das pessoas que estão nos chapéus de sol da concessão, para apanhar os clientes». João Guerreiro, administrador da Albufeira Hotel, empresa dona do hotel Rocamar, frente à praia do Peneco, e do restaurante Rocabeach, no areal, está farto de ver os vendedores ilegais de bebidas andarem, com todo o à vontade, a angariar clientes, fazendo concorrência desleal ao seu apoio de praia.

O restaurante Rocabeach, no areal da Praia do Peneco, foi construído há meia dúzia de anos, resultando de um investimento de 700 mil euros da empresa alemã proprietária do hotel situado no topo da falésia.

Desde há quatro anos, os responsáveis pela unidade hoteleira cansaram-se de ver os vendedores ambulantes de bebidas andarem pela praia, em especial entre as espreguiçadeiras e chapéus de sol da zona concessionada, recolhendo os pedidos dos banhistas e depois saindo da praia para ir buscar as bebidas a um bar na baixa de Albufeira.

«De início, traziam logo as bebidas em caixas de esferovite. Mas depois, como começaram a ser apanhados pelas autoridades, passaram a usar uma bandeja e um bloco de notas. Chegam ali, tiram os pedidos dos clientes, apontam no bloco. Depois vão lá ao tal bar buscar as bebidas e trazem-nas na bandeja. Se forem apanhados, até dizem que são para eles», descreve João Guerreiro.

O Sul Informação, que visitou duas vezes a Praia do Peneco para constatar esta situação, garante que a descrição feita está de acordo com o que se passa.

«Já denunciei a situação junto das autoridades, nomeadamente da Capitania, já falei com o vereador Ricardo Clemente, que é o responsável pela Polícia Municipal, já falei com o presidente da Câmara. Mas a situação mantém-se, ano após ano. E nós, que fizemos este investimento de 700 mil euros no apoio de praia, é que arcamos com o prejuízo do negócio que perdemos. E ainda temos de manter as nossas casas de banho abertas ao público…», acrescentou o administrador.

João Guerreiro diz que já perdeu a conta às reuniões que já teve, com a Câmara, com a Capitania, com a Polícia Marítima, com a GNR. «E tudo continua na mesma!», lamenta.

Enquanto decorre a conversa, na esplanada frente ao hotel Rocamar e com vista para a Praia do Peneco, lá em baixo, apesar de ainda não se estar na época balnear, é grande a azáfama dos vendedores ilegais no areal. «Está a ver?», insiste João Guerreiro. «Chama-se a Polícia Marítima, quando podem vêm, quando não podem, não vêm. Mas, quando chegam aqui e os apanham, falam com eles, vão-se embora e, no minuto seguinte, já eles estão a vender outra vez. E nós aqui a vermos, sem podermos fazer nada…»

E porque não põe o Rocabeach os seus funcionários a fazer o mesmo, levando bebidas aos clientes a partir do apoio de praia? «Já tentámos isso, mas eles ameaçam os nossos colaboradores. Ameaçam mesmo!»

O gestor acrescenta que não é apenas o hotel Rocamar e o seu apoio de praia que saem prejudicados com a situação. «Outros empresários estão a ser afetados, porque estes vendedores ambulantes ilegais lhes estragam o negócio também a eles. Aliás, estragam a todos os que estão aqui ao pé da praia, que pagam as suas licenças e impostos». São os casos do Hotel Sol e Mar (do Grupo Barata), dos restaurantes Ruína, Túnel e Belo Farol, que, no ano passado, até participaram conjuntamente numa reunião na Câmara de Albufeira, com a presença do comandante da GNR.

«Chegámos a um ponto de saturação em que isto tem que ter solução: ou eu fecho as casas de banho e esta praia deixa de ter bandeira azul, porque isso é uma das condições necessárias. Ou eles tomam uma decisão como deve ser! Já não sei a quem mais posso recorrer…», desabafa João Guerreiro.

 

Hotel Rocamar, no topo da falésia frente à Praia do Peneco – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

O Sul Informação falou com o comandante Pousadas Godinho, capitão do Porto de Portimão, que tem jurisdição sobre o litoral de Albufeira, e comandante local da Polícia Marítima. Falou ainda com José Carlos Rolo, presidente da Câmara de Albufeira.

«Temos feito um esforço, a nível da Polícia Marítima, mas também com a Polícia Municipal, a GNR. Todas as entidades responsáveis têm feito um esforço no âmbito da fiscalização, para, de alguma maneira, criar constrangimentos e erradicar esse tipo de atividade», garantiu o comandante Pousadas Godinho.

No entanto, admitiu, «não nos tem sido fácil, porque é impossível ter um polícia em permanência no areal. E, efetivamente, quando a polícia aparece, eles desaparecem do areal, vão-se embora e acabam por se refugiar noutro sítio qualquer».

E quanto à falta de efetivos da Polícia Marítima, de que os empresários se queixam, dizendo que é um dos problemas que impedem uma atuação mais eficaz das autoridades?

«Não se coloca esse problema. O que estamos a falar é de uma área de intervenção grande e que não permite ter um polícia permanentemente em cada uma das praias concessionadas do município. Albufeira tem cerca de 40 praias concessionadas, o que torna inviável ter permanentemente um polícia em cada uma delas».

Para este responsável, a solução, que tarda em chegar, «passa por uma atuação conjunta das várias forças policiais e do município». «Certamente, deveremos conseguir restringir ou mesmo erradicar esse problema», garantiu.

Por seu lado, o autarca José Carlos Rolo lamenta que a Câmara não possa fazer muito, sobretudo quanto à atividade no areal. Aí, a Câmara Municipal é hoje a entidade licenciadora das atividades dos vendedores (como os de bolas de Berlim), mas não tem competências de fiscalização. Nem a Polícia Municipal tem, uma vez que só pode trabalhar em terra, tal como a GNR. A competência de fiscalização na praia é da Polícia Marítima.

Mas, salientou o presidente Rolo, «se eles transportam bebidas para serem consumidas, também temos de ter aqui a atuar a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, a ASAE», para verificar as condições higiénicas em que tudo se processa.

O autarca acrescenta que, em relação ao que se passa fora do areal da praia, a Polícia Municipal já tem instruções para atuar.

José Carlos Rolo afirmou a sua solidariedade para com os empresários lesados, admitindo que o que está a acontecer na Praia do Peneco «é injusto». Trata-se, acrescentou, de «atos económicos ilícitos, que não é justo que aconteçam, uma vez que os outros empresários estão legais, pagam as devidas licenças, enquanto estes vendedores e quem os fornece fazem a sua atividade sem a legalização necessária».

O presidente da Câmara de Albufeira anunciou ainda que, «provavelmente já na próxima semana», irá promover uma reunião com «as várias forças em parceria, para ver se se consegue, de uma forma sistematizada e parametrizada entre as várias organizações, promover uma ação conjunta de modo a resolver este problema».

O administrador do hotel Rocamar diz que só acredita «quando isso acontecer».

 

 

 

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