Investigadores descobrem que inovações nos tanques de cultivo de dourada melhoram produção e bem-estar

O estudo mostrou «a alteração de comportamento e diminuição dos indicadores de stress»

Um estudo, coordenado por investigadores do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) da Universidade do Algarve (UAlg), revelou que o uso de cordas suspensas em tanques de reprodutores de douradas reduziu os níveis de stress dos peixes e melhorou a sua saúde, passando a adotar comportamentos similares aos do ambiente natural.

O estudo mostrou «a alteração de comportamento e diminuição dos indicadores de stress (níveis de cortisol e glicose plasmáticos), após a colocação nos tanques de estruturas simples e fáceis de aplicar pela indústria e que podem ter um impacto positivo em toda a produção», diz o grupo de investigadores.

Estes resultados são especialmente relevantes por se tratarem de reprodutores, animais que produzem os milhares de ovos e larvas que serão depois cultivados e onde «ninguém quer tocar», o que, para o coordenador do estudo, pode ser «prejudicial».

«Um reprodutor passa vários anos em tanques relativamente pequenos e num ambiente extremamente pobre para produzir milhares de alevins, e essa quantidade tem de ser certa e de boa qualidade. O enriquecimento ambiental que utilizámos neste estudo revelou-se positivo no comportamento dos reprodutores, nos níveis de stress e na sua saúde. Estarem anos num ambiente quase estéril, não lhes é natural, podendo debilitá-los e os resultados demonstram que podemos impedir que isso aconteça com medidas extremamente simples», afirma João Saraiva.

O biólogo, responsável pelo grupo de Etologia e Bem Estar de Peixes no CCMAR e presidente do Fish Etho Group, adianta que estas estruturas são «especialmente importantes» no cultivo de dourada, por este ser um animal que, no seu habitat, «usa e interage» com elementos no fundo do mar, sendo, por isso, importante fornecer-lhes «algo semelhante ao que têm no meio natural».

Ao contrário de outras espécies usadas para consumo humano, os peixes cultivados «não são domesticados».

Se os animais da pecuária (vacas, cabras, porcos…) contam já com milhares anos de seleção e domesticação, adaptados a um ambiente longe da natureza, um peixe cultivado hoje, continua a ser muito semelhante ao que vive no mar. É assim essencial que se crie um ambiente mais naturalizado para os peixes, de modo a melhorar o seu bem-estar e, consequentemente, a sua saúde.

A facilidade de colocação e remoção destas estruturas, sem atrapalhar a limpeza e as rotinas de produção foi uma das preocupações dos investigadores, já que a intenção é que passem a ser usadas, de forma permanente pelos produtores. Procuraram uma solução que aliasse as necessidades dos animais, as particularidades da própria produção e a facilidade de manuseamento sem prejudicar a qualidade da água.

«As estruturas são fáceis de tirar, fáceis de limpar e, como vimos, não têm qualquer problema a nível de doenças, não aumentam a carga de bactérias ou de outros organismos que possam afetar os peixes», realça.

Cada elemento consistia em nove cordas de sisal presas a um flutuador com quatro metros quadrados, penduradas na coluna de água «quase até ao fundo», criando um ambiente onde os animais têm de navegar num meio mais complexo.

Alguns peixes passaram a adotar comportamentos que anteriormente não tinham sido observados, como o estabelecimento de hierarquias sociais e comportamentos territoriais, mais típicos da espécie, mas sem demonstrarem agressividade excessiva.

O próximo passo é a criação de um produto com a empresa portuguesa Ergomarine – de produção de estruturas sustentáveis para aquacultura – que possa ser usado numa escala comercial pelos produtores. O protótipo está, neste momento, a ser testado na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), local onde também decorreu esta investigação.

O estudo publicado na revista Applied Animal Behaviour Science, foi elaborado por investigadores do Fish Etho Group (Faro), Centro de Ciências do Mar do Algarve (Faro), da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão do IPMA, do S2AQUA Laboratório Colaborativo (Olhão) e do Instituto Mediterrânico de Estudos Avançados – IMEDEA (Espanha).

O Fish Etho Group é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão estudar e melhorar o bem-estar de animais aquáticos. Faz a ponte entre a ciência e o setor da aquacultura, aplicando o conhecimento científico de ponta nas melhores práticas tanto na aquacultura como nas pescas. Trabalha diretamente com órgãos da União Europeia, autoridades competentes nacionais de vários Estados-membros da UE, empresas de grande dimensão internacional e instituições de investigação de topo.

 



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