Casa onde Teixeira Gomes nasceu será novo Núcleo Museológico em Portimão

Uma folha amarrotada, um óculo para espreitar África, memória e modernidade

A casa onde Manuel Teixeira Gomes nasceu, em Portimão, vai ser transformada num Núcleo Museológico dedicado a este homem do mundo, que foi comerciante, diplomata, escritor, Presidente da República e morreu longe da sua terra, auto exilado em Bougie, na Argélia.

Já há anos que parte da casa pertencia à Câmara de Portimão, funcionando como centro de exposições e de pequenas conferências. Mas a autarquia comprou recentemente a parte restante da casa, onde antes funcionava uma loja de velharias, permitindo, assim, alargar o espaço disponível.

No ano em que se comemora o centenário da subida da então Villa Nova de Portimão a cidade, numa decisão que saiu precisamente do punho desse que foi, até agora, o único Presidente da República portimonense, nada como homenageá-lo de forma mais visível com um Núcleo Museológico.

O projeto arquitetónico, da autoria do arquiteto portimonense Marco Rodrigues, para esta nova estrutura, que está sob a alçada do Museu de Portimão, onde aliás já existe uma ala dedicada a Manuel Teixeira Gomes, foi apresentado, precisamente a 27 de Maio, data em que se assinalaram os 164 anos do nascimento desta figura.

 

Arquiteto Marco Rodrigues, José Alberto Quaresma, Álvaro Bila e Isabel Soares, com Dina Monteiro a apresentar – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

Antes, Isabel Soares, chefe da Divisão de Museus, Património e Arquivo Histórico do Município, na prática a atual diretora do Museu de Portimão, já tinha explicado que, «para o arquiteto trabalhar os espaços, tinha de saber o que lá vamos colocar, conhecer o acervo, que história aqui queremos contar».

Foi, por isso, estabelecido um «projeto museológico preliminar», que indica que o futuro Núcleo terá «uma exposição permanente de referência», uma «zona de exposições temporárias, no edifício anexo que foi comprado», um espaço dedicado aos frutos secos (cuja compra e venda esteve na base da fortuna da família de Manuel Teixeira Gomes», a instalar na antiga cozinha, dois pátios interiores, um espaço para o «serviço educativo, gabinetes de investigação e ainda espaços reservados para gabinetes técnicos e administrativos».

Mas a apresentação no dia de aniversário de Teixeira Gomes era, sobretudo, para dar a conhecer o projeto de arquitetura.

Marco Rodrigues, o seu autor, começou por dizer que o que lhe foi pedido pela Câmara e pelo Museu Municipal é que «este conjunto edificado prestasse homenagem a Manuel Teixeira Gomes. E foi isso que tentei fazer».

 

 

Lembrando a compra, por parte da Câmara, de vários edifícios contíguos, «para serem demolidos e darem origem a uma nova rua», «abrindo a cidade ao rio», o arquiteto acrescentou que essa intervenção foi também a oportunidade para conceber um novo projeto para a Casa Manuel Teixeira Gomes.

Assim, «a entrada principal vai passar a ser feita pela nova rua», junto ao grupo de palmeiras que já lá foram plantadas. Além disso, essa nova fachada irá «trazer a memória da casa antiga, através das seis arcadas, réplicas da entrada atual da Casa».

No meio, haverá «um novo elemento», «desconstruído», que representa «uma folha amarrotada», remetendo para a tarefa do escritor, em busca das melhores palavras. «O escritor está sempre à procura do melhor de si mesmo e escreve, escrevendo, amarrotando a folha», explicou o arquiteto Marco Rodrigues.

Segundo ele, trata-se de um «elemento que confere um caráter moderno» ao edifício, «a folha amarrotada representa essa modernidade e essa procura pelo melhor».

O novo elemento servirá de entrada para o Núcleo Museológico e será ainda dotado de «um óculo virado para África, para a Argélia», onde Teixeira Gomes, desencantando com o rumo que a então nova República Portuguesa levava, acabou por passar os últimos anos da sua vida, aí morrendo em 1941.

Esse óculo, disse o arquiteto, «representa também o olhar de Teixeira Gomes sobre a cidade e a sociedade do seu tempo».

Este novo elemento irá servir de entrada e também permitirá distribuir os visitantes pelos diversos espaços, novos e já existentes.

Na parede exterior, vai ser pintado um mural «que celebre e homenageie Manuel Teixeira Gomes», enquanto a atual casa será também alvo de remodelação.No total, estima-se que a Câmara de Portimão invista neste novo equipamento museológico cerca de 3,6 milhões de euros.

A intervenção divide-se em dois grandes projetos: o museológico e respetivo programa funcional, cuja elaboração está a decorrer, estimando-se um investimento de cerca de 550 mil euros.

O segundo projeto tem a ver com a obra propriamente dita, «cuja empreitada se prepara para ser lançada, uma vez que já chegou o parecer favorável da Unidade de Cultura da CCDR Algarve, sendo obrigatórios trabalhos de acompanhamento arqueológico», como revelou fonte municipal ao Sul Informação.

Neste caso, o valor da empreitada está estimado em cerca de 3 milhões de euros, com um prazo de pouco mais de um ano. «No entanto, estes indicadores serão critérios do concurso público que se prepara para ser lançado, pelo que poderão mudar», acrescentou a mesma fonte.

Os outros projetos, de arquitetura e especialidades, custaram cerca de 75 mil euros.

Álvaro Bila, presidente em exercício da Câmara de Portimão, fez questão de sublinhar a «sala cheia» de gente interessada que marcou a apresentação, o que considerou como «sinal de que Manuel Teixeira Gomes nos diz muito».

Por seu lado, José Alberto Quaresma, diretor científico da Casa, salientou que Manuel Teixeira Gomes «gostaria muito de ver como vai ficar esta sua casa, se pudesse regressar aqui».

 

Casa cheia para assistir à apresentação – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

Edifício da Alfândega já foi cedido à Câmara de Portimão

Mas a apresentação do projeto arquitetónico do Núcleo Museológico Casa Manuel Teixeira Gomes, no âmbito do 164º aniversário de nascimento do escritor e estadista que dá nome ao futuro equipamento cultural, reservava ainda uma outra surpresa.

Álvaro Bila, presidente em exercício da Câmara de Portimão, anunciou que o vizinho edifício da Alfândega «já é do Município», o que, em breve, irá permitir alargar as atividades culturais também a esse espaço.

É que, por despacho do secretário de Estado do Tesouro e das Finanças datado de 14 de Maio, o edifício da antiga Alfândega foi cedido ao Município de Portimão por 50 anos.

Ao que o Sul Informação apurou, o despacho de cedência prevê que a Câmara avance com obras de reabilitação e adaptação do imóvel, no valor estimado de dois milhões de euros, para aí criar uma sala de conferências e salas para a realização de exposições, especialmente para mostras de arte contemporânea e património cultural imaterial.

O projeto do Núcleo Museológico Casa Manuel Teixeira Gomes já contempla um acesso físico ao edifício Alfândega, prevendo-se uma ligação da casa à antiga Alfândega através de programação cultural.

 

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