Conhece a história da jornalista esfalfada atrás de dois malabaristas na serra?

Um dia pelos trilhos da serra, numa viagem malabarista, à procura da poesia escondida no território

O que pensaria cada um de nós se, de repente, no meio de uma estradinha da serra, nos aparecesse pela frente um homem todo de negro vestido, a agitar nas mãos e no ar as maças de malabarismo? E se, depois, esse mesmo homem de negro vestido nos perseguisse a correr, sempre a fazer malabarismos, pela estrada fora?

Que grande susto, não é? Pois foi o que aconteceu um destes domingos, dia 10 de Outubro, no meio da serra de Monchique, lá para os lados do lugar de Bica Boa, entre a Malhada Quente e a vila.

Esse homem todo de negro vestido era o Pietro Selva Bonino, um italiano da companhia francesa Collectif Protocole. Acompanhado pelo francês Paul Cretin e por mim própria, convidada desta «Grande Errância», fizemos uma caminhada poética pela serra, desde a Malhada Quente (a caminho de Alferce), até ao Barranco dos Pisões, passando por Cruz dos Madeiros, Monchique, Mata Porcas e Alcaria do Peso.

E o que foi este domingo de «Grande Errância»? Foi realmente errar (diga-se que os meus cicerones eram o Pietro e o Paul e eles até se enganaram duas vezes no caminho, por isso foi literalmente “errar”…mas só um bocadinho) pelos trilhos da serra, entre arvoredo e lugares meio perdidos, onde éramos saudados pelos cães a ladrar-nos às canelas e pelas poucas pessoas que fomos encontrando.

Pelo meio, aproveitando a cortiça ainda num sobreiro, a água de um tanque, o cruzamento das estradas, as enormes pedras de sienito esquecidas num descampado, os ramos das árvores, as paredes de casas seculares, o Pietro (sobretudo ele), raramente o Paul, iam fazendo a sua performance.

Isto de eles serem dois e quase só o Pietro fazer as suas habilidades fez-me um bocado de confusão, no início. Por isso, quando chegámos ao primeiro cruzamento, não me contive e perguntei, no meu francês um bocado macarrónico: «então mas porque é que o Paul não faz nada?» E o Paul, com um sorriso, respondeu-me: «sou preguiçoso!»

Achei estranho, mas fiquei por ali…mas mais tarde percebi: o pobre do Paul estava com umas fortíssimas dores de costas, já tivera mesmo de recorrer a um osteopata e a medicamentos, e, por isso, mal se podia mexer… Não era preguiça, eram dores! Claro que lhe pedi desculpa…

Por vezes, além de mim, o único público que Pietro e Paul tinham eram as aves, que fugiam espantadas com aquelas maças a voar pelo ar. Mas isso pouco interessava aos artistas, porque o seu objetivo era mesmo fazer este périplo pelo meio da natureza, às vezes simplesmente caminhando, outras vezes parando à sombra para descansar ou ensaiar um novo movimento com as maças, quase sempre em silêncio, ouvindo o cantar dos pássaros, o vento a soprar nas árvores, o marulhar das águas, o balido das ovelhas ao longe ou o ladrar dos cães.

Um dos objetivos da Grande Errância é procurar a poesia escondida nos territórios percorridos. E foi o que fizemos, ao longo desse domingo de encantamento.

«Esta é a primeira vez que o Périplo sai de França», disse-me o Pietro.

 

Outra coisa que achei estranha é que, sendo eles uma dupla de malabaristas experimentados, as maças caíam ao chão muitas vezes. Claro que perguntei porquê. E o Pietro explicou-me que, no dia anterior, tinham estado a pintar as maças com uma tinta prateada, o que aumentara, ainda que ligeiramente, o seu peso. Também as encheram de brilhantes minúsculos, que foram deixando pelo caminho, como um trilho de migalhas… «Esta pintura pode ter acrescentado dois ou três gramas ao peso. É uma diferença minúscula, mas está a afetar o equilíbrio. Isto é baseado na repetição dos gestos e, se se muda um grama, sente-se».

É que, isto de ser malabarista tem que se lhe diga, como terão todas as artes performativas. Há que estar sempre a praticar, sempre a inventar, sempre a tentar fazer coisas novas.

«É como todas as relações: é preciso renová-las e negociá-las, todos os dias», diz, com uma gargalhada, o Pietro.

«É preciso fazer coisas diferentes, pensar em coisas diferentes», acrescenta o Paul. «Há infinitas combinações, infinitas possibilidades de combinações».

No fundo, «é como a música: as notas, os acordes, são sempre os mesmos, mas todos os dias se faz música diferente». Sonhador, Paul olha para as nuvens e diz: «é como as nuvens. São sempre nuvens, mas são sempre diferentes!»

 

 

Chegados à Cruz dos Madeiros, encontrámos uma senhora carregada de garrafões vazios. Perguntei-lhe se os ia encher de água, na fonte que víramos mais abaixo. «Água? Não! Vinho! E da nossa produção».

A senhora, mal olhou para o Pietro, para o Paul e para mim, perguntou: «são do Lavrar o Mar?» Somos pois! Mas como é que nos reconheceu? «É que eu já participei num espetáculo deles, na piscina!», respondeu a senhora, orgulhosa.

«E porque é que eles estão todos vestidos de preto?», perguntou de novo a senhora. Eu traduzi e depois disse-lhe qual a resposta: «É uma espécie de farda da companhia, uma assinatura». A senhora voltou a olhá-los, de cima a baixo, e lá seguiu com a sua molhada de garrafões, ainda vazios.

Engraçado que essa questão dos dois homens de negro vestidos iria colocar-se várias vezes ao longo do dia. Até que, por um comentário que ouvi à nossa passagem, percebi: «parecem ciganos!». Pois.

O almoço foi no restaurante do Jogo da Bola, na Cruz dos Madeiros, que, como o nome diz, fica junto ao campo de jogos de Monchique. Havia jogo de futebol de miúdos, com muitos pais e mães a acompanhar, e os gritos de alegria e incitamento foram-nos acompanhando. No restaurante, após o almoço, o Pietro fez uma pequena performance, para as pessoas que enchiam o espaço, entre as quais algumas minhas conhecidas, como a D. Aldina e o Senhor Mário.

À tarde, depois de almoço, o calor apertou e o percurso foi todo a subir, até Alcaria do Peso, primeiro atravessando as ruas íngremes de Monchique, depois passando pelas várias aldeias contíguas. A escorrer suor, a arfar, eu lá segui atrás deles. Fomos enchendo as garrafas de água em todas as fontes, bebendo litros e litros de água. Eles, apesar de vestidos de preto, bem mais frescos que eu, diga-se…

 

Apesar de o Pietro e o Paul até serem pessoas silenciosas, eu sou faladora, como, quem me conhece, bem sabe. Mas desta vez não falei muito. Fui-lhes contando histórias da serra, falando das árvores, frutas e animais que íamos encontrando, da vida da gente serrana, do fogo e da resiliência, respondendo às suas (raras) perguntas. Mas também estive longos minutos em silêncio, seja porque estava a contemplar a paisagem, com os dois malabaristas dela fazendo parte, seja porque, nas subidas, o fôlego me faltava…

Pelo caminho, colhemos (e comemos) medronhos maduros, maçãs, uvas e figos, vimos árvores carregadas de dióspiros, castanheiros cheios de ouriços com as suas castanhas lá dentro, abacateiros com fruta, nogueiras com os ramos vergados pelo peso das nozes. Para mim, esta abundância é normal, mas, pelos vistos, para eles não é. O Paul chegou mesmo a comentar que aquilo lhe parecia «uma salada de frutas gigante».

E finalmente, chegou a descida até ao Barranco dos Pisões, um local frondoso junto a uma ribeira, onde ainda há um antigo moinho e um parque de merendas. Famílias inteiras, aproveitando aquele soalheiro e quente domingo de Outubro, faziam os seus piqueniques, apesar de serem já umas quatro e tal da tarde. Rádios a tocar, música dos telemóveis, gritos de crianças e das mães a chamá-las, sobrepunham-se ao marulhar das águas da ribeira.

Foi aí que o Pietro e o Paul fizeram a última performance. Aproveitaram os ramos dos carvalhos e dos sobreiros, o Pietro pendurou-se na árvore, envolveu-se num pano que carregaram a viagem toda, pôs-se de cabeça para baixo…mas os piqueniqueiros pouco ou nada lhe ligaram.

Daí a pouco, chegou o Giacomo Scalisi, que me vinha buscar e deixar ao Pietro e ao Paul as chaves da autocaravana onde iriam pernoitar, para, no dia seguinte, seguirem a sua «Grande Errância» com outro convidado.

Tirada a fotografia do grupo dos três errantes desse domingo, feitas as despedidas, fiquei a pensar no dia estranho e maravilhoso que tinha passado, ao lado desta dupla de artistas. Estive ali não como jornalista, mas como convidada, como elemento que também fez parte daquele malabarismo poético (embora sem nunca conseguir desligar totalmente a tecla da jornalista, admito). Foi um privilégio.

Esta sexta-feira, não sei se o Pietro e o Paul, se outros malabaristas do Collectif Protocole (ao todo foram seis os que se foram revezando durante 21 dias de caminhada), ainda andam por aí, mas agora lá para os lados de Santiago do Cacém, depois de terem atravessado o território de Monchique, Aljezur e Odemira.

Devido à previsão de chuva para o fim-de-semana, amanhã, sábado, às 16h00, a cerimónia de chegada d’A Grande Errância não será ao ar livre, mas irá acontecer na SRFUA (Sociedade Recreativa Filarmónica União Artística), em Santiago do Cacém.

Já agora, querem saber uma coisa? Raras vezes me acontece, porque os jornalistas são para estar do lado de cá da câmara, mas eles partilharam no site da Grande Errância um vídeo em que estou a caminhar, bem como várias fotos da minha pessoa e até uma do meu bloco de notas, cheio de gatafunhos, que os interessou…Que estranho é estar deste lado do espelho, como se de uma Alice mais anafada se tratasse…

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

 

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