O Algarve precisa de uma nova barragem na Foupana ou de “novos” autarcas?

O Algarve não precisa de fait-divers, mas de edis à altura do século XXI e das suas responsabilidades

Barragem do Funcho em 2005. Ainda bem visíveis os efeitos do incêndio de 2003 – Foto: Aurélio Nuno Cabrita | Arquivo

O Algarve tem vindo a atravessar, nos últimos anos, mais um período de estiagem. Desde 2010 que a precipitação registada é consecutivamente inferior à média anual. Trata-se de uma realidade reiterada ao longo dos séculos, à qual os nossos antepassados se adaptaram com maior ou menor resiliência.

Não esqueçamos as célebres «passinhas do Algarve», sinónimo de dificuldades, de que a seca de 1870 constitui exemplo, como já aqui recordámos.

Hoje, nas lembranças dos mais velhos, estão ainda presentes as contrariedades advindas da seca da década de 1940. Na verdade, a partir dos anos de 1960, com a abertura de furos artesianos um pouco por todo o lado, bem como com a construção de barragens, as consequências nefastas das estiagens começaram a ser mitigadas, tornando-se hoje quase imperceptíveis para a maioria dos algarvios.

Nos últimos 50 anos, multiplicaram-se os jardins de relva, as culturas de regadio, sejam hortícolas ou arvenses, e, acima de tudo, o consumo desregrado de água no uso doméstico. Por outras palavras e ao contrário dos nossos antepassados, perdemos a noção de um recurso escasso e finito e usamo-la no dia a dia como se fosse inesgotável, independentemente de chover ou não.

As barragens do Funcho, Beliche, Odeleite e mais recentemente Odelouca, construídas com a promessa de acabar com a seca no Algarve, estão hoje praticamente vazias, tendo as atenções recaído nos aquífero, qual balão de oxigénio que nos permite continuar a gastar, ou talvez mesmo a estragar, água por mais algum tempo, enquanto ela teima em não cair do céu. Ainda assim, estes dias solarengos são para a maioria, e incompreensivelmente, sinónimo de «bom tempo».

Em 2009, quando foram fechadas as comportas da barragem de Odelouca, com uma capacidade de 134 milhões de m3, acreditava-se que o Algarve ficava imune à seca, seria «um ponto final às situações de aperto vividas em 2005, quando uma forte seca meteorológica deixou o Algarve quase sem água nas torneiras», conforme vaticinava o periódico “Barlavento”, na sua edição de 17/08/2009.

Ora, a irregularidade da chuva é uma das características do clima mediterrânico onde nos inserimos. Todavia, é inequívoco que as alterações climáticas estão a tornar ainda mais irregular a pluviosidade, potenciando eventos atmosféricos extremos.

Por outro lado, são evidentes as temperaturas acima da média, nas diversas estações do ano, particularmente no Verão, impulsionando incêndios, de que o da serra de Monchique em 2003, reiterado em 2018, ou Caldeirão, em 2004, são exemplos.

Barragem do Funcho na seca de 2005. Esta última foi determinante para o recomeço das obras em Odelouca – Foto Aurélio Nuno Cabrita | Arquivo

 

Como é apanágio do ser humano, aliás, bem vincado no provérbio popular «só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões», as autoridades algarvias, nomeadamente os autarcas, vieram ultimamente clamar por medidas para combater/ erradicar o flagelo da seca.

A maioria efetuou mesmo um périplo por Espanha, com vista a dotar a região algarvia com centrais dessalinizadoras (produção de água doce a partir de água salgada), enquanto, em simultâneo, pugnam pela urgência da construção da barragem da Foupana, em Alcoutim.

Alternativa defendida acerrimamente pelo edil alcoutenejo, e ventilada há muitos anos, tal como outros autarcas, alguns mesmo já «aposentados» das lides políticas.

Acreditará, certamente, o autarca de Alcoutim que a barragem da Foupana lhe trará residentes para o seu concelho, um dos mais despovoados do país, uma realidade que os Censos de 2021 não vão deixar de, friamente, demonstrar.

Quanto aos restantes autarcas, a defesa da barragem causa-nos alguma apreensão: é que estamos em 2020 e, desde 2011, enquanto entidades gestoras, os municípios ou as empresas municipais reportam anualmente à Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) uma diversidade de indicadores que se prendem justamente com a gestão da água, em cada concelho.

Os dados são públicos e demonstram, para o Algarve, uma realidade traumática, que teima em permanecer. É que cerca de 30% da água que entra nos sistemas de abastecimento não é faturada. Ou seja, perde-se nas condutas, nunca chegando aos consumidores e, portanto, nunca sendo faturada.

Isso leva a ERSAR a classificar como insatisfatória a qualidade de serviço prestado pela grande maioria das Câmaras algarvias. Com qualidade de serviço boa, somente se destacam Tavira (empresa municipal Tavira Verde) e Faro (empresa municipal FAGAR), com 16,6 % e 18,3 %, de água não faturada, respetivamente.

Depois, na classe de qualidade de serviço mediana, temos Portimão (EMARP) com 23 %, Albufeira 24,8 %, Olhão (empresa municipal AmbiOlhão) com 27,3 % e Aljezur com 29,7 % de água não faturada.

Os restantes, todos insatisfatórios, são Lagoa 31%, Alcoutim 31,7 %, Lagos 33,1%, Loulé 35,1%, Vila do Bispo 35,4 % e os campeões Silves 50% e São Brás de Alportel, com 55,1% de água não faturada. A informação reportada por Monchique e Vila Real de Santo António (empresa VRSA- Soc. Gestão Urbana) não foi validada pela ERSAR em 2018.

Um outro indicador analisado é a perda real de água por ramal. Também aqui os resultados não são os melhores. Somente Alcoutim com 39 litros por ramal, Tavira (empresa Tavira Verde) 64 l/ramal e Aljezur 86 l/ramal registam uma qualidade de serviço boa. Já mediana evidenciam-se Faro (FAGAR) 105 l/ramal, Albufeira 136 l/ramal, Castro Marim 137 l/ramal e Portimão (EMARP) 149 l/ramal.

Nos restantes, a qualidade de serviço é insatisfatória: Olhão (AmbiOlhão) 178, Loulé 180 l/ramal, Vila do Bispo 194, Lagoa 216, Lagos 258, São Brás 342 e Silves 377 l/ramal. Monchique e Vila Real também não tiveram neste parâmetro os resultados validados.

A reabilitação de condutas (tubagens) é outro dos indicadores avaliado e aqui todos os municípios, à exceção de Vila Real de Santo António, tiveram uma qualidade de serviço insatisfatória.

Por tudo isto, deviam os edis algarvios estar preocupados em mudar esta realidade, da qual são, por inerência, responsáveis e não em esconder-se por trás de outras soluções exóticas ou anacrónicas.

Imagine o leitor que tem uma carteira velha, com a qual perde dinheiro, e a forma que encontra para resolver a questão não é adquirir uma nova, mas antes meter-lhe mais dinheiro pela manhã, na esperança que chegue algum ao final do dia. É que os nossos autarcas estão preocupados com a fonte, ao invés de estarem com os cântaros (o transporte).

Acreditamos, ainda assim, que esta realidade se modifique nos próximos anos. Silves, pelo menos, anunciou recentemente um plano ambicioso para alterar a sua indecorosa posição no contexto regional/nacional.

 

Barragem de Odelouca em Junho de 2010 – Foto: Aurélio Nuno Cabrita | Arquivo

 

Se não chover, as albufeiras não enchem, exista uma ou uma dezena. Depois, os Verões cada vez mais quentes podem levar à eutrofização da água presente nas albufeira, inquinando-a.

Por outro lado, a serra não pode ficar refém de mais barragens, ou de restrições, com vista à proteção da qualidade da água presente nas albufeiras existentes. Defender a construção de barragens nos anos de 1970 era legítimo, mas, em 2020, é anacrónico, para não dizer ridículo.

Como pode o edil de Alcoutim defender a destruição do belíssimo vale da ribeira da Foupana, um ex-libris e uma mais-valia para o concelho no século XXI?

Parece que não aprendemos nada nos últimos 50 anos e que tudo permanece como dantes.

A estratégia para combater a seca deve passar pela consciência coletiva para a poupança e boa gestão da água, nas quais os municípios e as entidades gestoras têm uma responsabilidade acrescida. Há redes (tubagens) na região com mais de 50 anos que permanecem em atividade, depois há os jardins, as plantas (espécies) e as regas.

Por outro lado, é imprescindível a arborização com espécies autóctones da serra algarvia. Esta área desempenha um papel fundamental na reserva de água para a recarga dos aquíferos no barrocal.

Os incêndios, nos últimos anos, têm levado a uma maior erosão dos solos já de si esqueléticos, uma realidade a que urge pôr cobro. É pena que as autoridades continuem a ignorar esta realidade.

Depois, sem vegetação, a água não se infiltra, escorrendo de imediato pelas encostas e pelos rios e ribeiras e pelas barragens, caso se encontrem cheias.

É pena que a solidariedade manifestada pelo autarca alcoutenejo para com os seus colegas do litoral não lhe seja expressa por estes últimos na defesa do território de Alcoutim e da serra algarvia.

Por outro lado, cabe-lhe, enquanto nomeado pelos seus pares na Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL) para as questões da água, chamar a si esse desígnio.

Tem de ser o litoral a custear a arborização e manutenção da serra, da qual todos ficaremos a ganhar, e a AMAL pode ter esse papel – não só minimizará o impacte das estiagens, como prevenirá os incêndios.

Entre São Marcos da Serra e Cachopo, uma mancha contínua de mato cobre hoje ininterruptamente os cerros. Com ela, é uma questão de tempo até que se repita o terrível incêndio de 2004. Aliás, como em 2018 se renovou em Monchique o «inferno» de 2003.

Se as excursões promovidas pela AMAL se tornam moda, lá para um Outubro qualquer decerto que os nossos autarcas viajarão em digressão até a um outro país, para trazer novas ideias para mitigarmos agora, já não a seca, mas o incêndio do Caldeirão ou mesmo as inundações. É que, depois da seca, a cheia é inevitável.

Estamos em 2020 e o Algarve não precisa de fait-divers, mas de edis à altura do século XXI e das suas responsabilidades – assumam-nas!

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação.

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