Nuvens negras sobre a União Europeia em 2020

Os vírus não respeitam as fronteiras e o turismo é a indústria do nosso tempo

No início de mais uma década do século XXI voltam os cisnes negros e algumas nuvens mais ameaçadoras pairam sobre a União Europeia. Cumpre-se assim a “promessa do risco global” tal como foi exposta pelo filósofo alemão Ulrich Beck.

Com efeito, os vírus não respeitam as fronteiras e o turismo é a indústria do nosso tempo. E ainda nem sequer falamos de vírus informáticos e guerra cibernética.

Os acontecimentos improváveis têm, portanto, muita margem para crescer. Esta é, também por isso, uma grande oportunidade para rever em profundidade a economia dos comportamentos, as nossas pegadas e a nossa maneira de estar, ser e pensar o mundo à nossa volta.

Os acontecimentos de 2020 na União Europeia

Vejamos, então, esses eventos que podem ocorrer durante o ano de 2020 no espaço da União Europeia.

– A pandemia do Covid19
Um verdadeiro cisne negro, totalmente improvável, surgido na China e imediatamente transmitido ao resto do mundo. A progressão do vírus faz-se de forma diferenciada consoante os países, por isso não sabemos ao certo quando acontecerá o pico do ciclo viral.
Até lá vivemos em quarentena enquanto se fazem sentir os efeitos negativos da propagação do vírus.

– A crise dos refugiados entre a Turquia e a Grécia
Neste caso não se pode falar propriamente de um cisne negro, o problema já existe há muito tempo, mas agravou-se substancialmente com a guerra na Síria e os refugiados sírios que fogem da guerra, atravessando a Turquia em direção à Europa com passagem pela Grécia.
Há um acordo com alguns anos entre a União Europeia e a Turquia para receber refugiados e, como se imagina, é a troco de muito dinheiro que o problema está contido nas fronteiras turcas.
Todavia, com a nova vaga de refugiados sírios e a crise generalizada nesta zona do globo, a situação na Turquia tornou-se insustentável.
Neste momento a Turquia terá cerca de 4 milhões de refugiados no interior das suas fronteiras e o primeiro país europeu a sofrer as consequências da abertura de fronteiras é, obviamente, o vizinho grego.
A tensão junto à fronteira greco-turca irá continuar enquanto a União Europeia e a Turquia não chegarem a um entendimento satisfatório para ambas as partes. Até lá, trata-se de uma verdadeira bomba de relógio pronta a explodir em qualquer momento.

– A recessão económica grave em 2020
Não sabemos ainda o que acontecerá com a duração do ciclo viral nos países da União Europeia, mas já é evidente que teremos consequências económicas e sociais significativas em 2020, pelo menos.
O turismo e algumas cadeias de abastecimento globais foram afetados, baixam as receitas empresariais, sobem os custos de tesouraria, baixam as receitas fiscais e sobem as despesas públicas com os primeiros programas de apoio.
Se o ciclo viral ficar contido no primeiro semestre de 2020 já é uma vitória, todavia, tudo pode acontecer até ao final do ano e aí a recessão será mesmo muito grave.

– O fracasso das negociações sobre o Brexit
Embora as negociações estejam a decorrer há sinais crescentes de que um não-acordo é sempre possível, como, aliás, os interlocutores não se inibem de declarar.
A União Europeia tem de salvaguardar, como aconteceu na primeira negociação, a unanimidade dos 27 face ao Reino Unido em ordem a preservar a sua unidade futura, o Reino Unido tem de manter intocado o seu prestígio diplomático e o seu orgulho imperial.
Os cenários negociais são variados, mas nada estará decidido enquanto tudo não estiver resolvido. Lembremos que em junho deverá ser avaliada a situação negocial e nessa altura será tomada uma decisão relativamente à conclusão das negociações.

– As falhas na implementação do Pacto Ecológico Europeu (PEE)
Depois da aprovação política do Pacto Ecológico Europeu, a Comissão Europeia apresentou a sua proposta de lei climática europeia visando alcançar a neutralidade carbónica até 2050.
Decorre agora um período entre 6 de março e 1 de maio de 2020 para recebimento de sugestões e comentários à proposta de lei.
Nas palavras da presidente da Comissão Europeia, esta proposta de lei climática europeia, sob a forma jurídica de regulamento europeu, faz parte da estratégia verde de crescimento económico do bloco europeu para as próximas décadas.
Dados os acontecimentos imprevistos entretanto ocorridos e os atrasos na aprovação do Quadro Financeiro Plurianual ficam a pairar algumas nuvens negras sobre a implementação efetiva do PEE em 2020.

– A reeleição de Donald Trump nos EUA
Um outro acontecimento, sobre o qual pairam algumas dúvidas quanto ao resultado final, diz respeito às eleições americanas no final do ano em novembro. Estamos a assistir em direto ao desmantelamento das relações transatlânticas e do multilateralismo que foram apanágio do chamado mundo ocidental nos últimos 70 anos.
Tudo parece ficar reduzido ao acaso e necessidade e ao juízo circunstancial das autoridades em funções. Infelizmente, a União Europeia, em 2020, não tem pensamento nem músculo político para decisões próprias e assim “corre atrás” dos humores desses homens políticos que hoje tomam a maioria das decisões e está, por isso, refém dessas decisões.

– O caos nas relações internacionais
Mas não é apenas a eventual reeleição de Trump e o fracasso eventual do Brexit que colocam em dificuldades a União Europeia em 2020, é também o número inusitado de conflitos internacionais em curso, diretos ou por interpostos interlocutores e muitos deles próximos das fronteiras da União Europeia no chamado mediterrâneo oriental.
Refiro-me, por exemplo, à Líbia e à situação nos países do Sahel, aos inúmeros conflitos no Médio Oriente, mas, também, às incursões da Rússia em toda a sua área de influência.
Em todos eles, é por demais evidente a impotência das organizações internacionais mundiais e regionais para resolver a contento os conflitos.
E, mais uma vez, a falta de músculo político da União Europeia para dar um contributo mais definitivo a esses conflitos.

– A eventual não-aprovação do QFP em 2020
Um último acontecimento pode abalar a União Europeia, sobretudo, se todos os outros eventos se confirmarem. Trata-se da não aprovação do Quadro Financeiro Plurianual (QFP) em 2020.
Com efeito, as novas despesas europeias com a pandemia do covid19 e as migrações de refugiados entre a Turquia e a Grécia irão traduzir-se numa pressão enorme sobre o envelope orçamental da União Europeia, agora que o Reino Unido deixou de ser um contribuinte líquido para o orçamento.
Isto significa, por exemplo, que o grupo de pressão constituído pelos países da coesão, onde está Portugal, estará em dificuldades para fazer passar as suas reivindicações. Na presente conjuntura, e em face das incógnitas atuais, remeter para mais tarde a discussão sobre o QFP pode ser uma tentação política para os contendores em presença.

 

Notas Finais
O destino do ano europeu de 2020 já está marcado e não é nada famoso. Doravante, os riscos globais e sistémicos, materiais e imateriais, serão uma autêntica provação para a comunidade humana e porão à prova a nossa verdadeira solidariedade.

No futuro, deveremos ter por companhia habitual uma carta de riscos globais e sistémicos devidamente atualizada.

Por uma razão simples, em matéria de riscos sistémicos e suas consequências a procissão ainda só vai no adro, ou seja, as nossas diferentes pegadas – ambientais, sanitárias, hídricas, digitais, alimentares, securitárias, tecnológicas, industriais – vão devolver-nos com custos acrescidos e graves muitos dos nossos erros de comportamento.

Por isso, a grande lição desta pandemia em 2020 é acerca da economia dos nossos comportamentos, das nossas diferentes pegadas e da sua interdependência.

Eis, pois, uma verdadeira mutação à nossa frente, a mutação dos nossos comportamentos habituais e a busca de um outro padrão de relações humanas.

 

 

Autor: António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve

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