DRAPAlg garante que estrada não afetará fruteiras do Centro Agrário de Tavira

Câmara, que escolheu o polémico traçado, diz estar disposta a investir no centro

Foto: Elisabete Rodrigues|Sul Informação

«Tudo fica incólume!» A garantia é de Pedro Valadas Monteiro, diretor regional de Agricultura e Pescas, que assegurou ao Sul Informação que a obra de construção de uma nova estrada, em terrenos hoje pertencentes ao Centro de Experimentação Agrária (CEA) de Tavira, não vai afetar as fruteiras tradicionais e outras coleções de material vegetal, nem nenhum dos «edifícios mais emblemáticos».

Mais do que dar a garantia de que o património agrário, cultural e edificado do CEA tavirense será preservado, o responsável máximo pela Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve vê nesta intervenção uma oportunidade.

«O que eu pretendo agora, mais do que pensar no que já é definitivo, é pensar no futuro. Esta intervenção não vai destruir o centro e não vai pôr em causa os projeto de futuro que temos para o CEA de Tavira. Antes pelo contrário. Esta pode ser a oportunidade de avançar com projetos que estavam na gaveta e que, até agora, não houve condições para os pôr em marcha», disse Pedro Valadas Monteiro.

«Penso que agora, de uma vez por todas, temos condições para fazer um projeto de futuro para aquele centro, algo que nos orgulhe, por um lado, a nós técnicos da DRAPAlg, e, por outro, que possa ser colocado ao serviço dos tavirenses, da região e dos portugueses», reforçou.

O mesmo não pensa um grupo de cidadãos, que veem na construção desta estrada uma ameaça à continuidade do próprio centro e a sentença de morte para as coleções vegetais ali existentes.

 

 

Mas vamos por partes.

A obra em causa será realizada no âmbito da eletrificação da Linha do Algarve e «permitirá encerrar em definitivo a passagem de nível rodoviária adjacente à Estação de Tavira, deixando-a apenas para peões, o que garantirá um acréscimo da segurança, não só para a infraestrutura ferroviária, mas sobretudo para as populações locais», segundo a Infraestruturas de Portugal (IP), que irá realizar a intervenção.

A mesma empresa, contactada pelo Sul Informação, esclareceu que, numa fase inicial, foram apresentadas à Câmara de Tavira duas alternativas.

«Uma das soluções (A) estudada previa que o restabelecimento sul iria ocupar um caminho privado (da CEA) existente entre o hipermercado [Lidl] e as instalações da Direção Regional de Agricultura e Pescas – Centro de Experimentação Agrícola e terminando junto da rotunda do Largo da Estação», revelou a IP.

«A outra solução (B) apresentada, e que teve o acordo da Câmara Municipal de Tavira, desenvolve-se em alinhamento reto até à rotunda da Rua Dr. Fausto Cansado [junto à EB 2,3 D. Manuel I], ocupando terrenos da Direção Regional de Agricultura e Pescas», acrescentou.

Ana Paula Martins, presidente da Câmara de Tavira, que está no cargo desde Outubro e antes era vice-presidente do município, assegurou ao Sul Informação não ter participado nas reuniões entre a autarquia e a IP. «Soube mais tarde que tinha sido esta a decisão e que teria sido por causa de tirar o trânsito de dentro da cidade, mas não estive ligada ao processo», afirmou.

A Infraestruturas de Portugal, por seu lado, avança que a Câmara optou pela solução B «por ser a que melhor se adequava ao Planeamento e Gestão Urbanística do município. Neste enquadramento, propôs, ainda, vários melhoramentos, nomeadamente ao nível dos passeios e faixas clicáveis».

Recentemente, Ana Paula Martins tentou sentar-se à mesa com a empresa, «para perceber se há alternativas e se o processo ainda pode ser revertido», mas a resposta que recebeu da IP foi de que só poderá haver conversações depois de a Agência Portuguesa do Ambiente se pronunciar sobre a Avaliação de Impacte Ambiental da obra.

«Quando eu cheguei, há cerca de um ano, a situação já estava numa fase em que havia um atravessamento e apenas um trajeto em cima da mesa. Numa fase anterior do processo, segundo o que foi comunicado pelo IP, havia um outro projeto. Agora, o trajeto alternativo também não era bom para nós, porque nos iria colocar ali numa espécie de bunker, já que a propriedade iria ficar rodeada de estrada por todos os lados», disse, por seu lado, Pedro Valadas Monteiro.

 

 

 

Com o projeto que está a ser alvo de Avaliação de Impacte Ambiental – o estudo já esteve em consulta pública, mas ainda não há uma decisão final – o CEA de Tavira será dividido em dois, com «um quarto da propriedade de um lado da estrada e três quartos do outro. A área que vai ficar a Norte, onde fica o edifício-sede, tem cerca de 4,5 hectares. A que ficará a Sul tem à volta de 24,5 hectares». É nesta segunda parcela que estão as fruteiras, que não serão «minimamente afetadas».

«As coleções de material vegetal, ou seja, o banco de germoplasma, as fruteiras tradicionais, a ampelográfica da vinha – uva para vinho e uva de mesa –, bem como os edifícios mais emblemáticos, nomeadamente o edifício sede, os da formação profissional e o edifício que existe lá em baixo, que há muito tempo está pensado para acolher o Museu Agrário do Algarve, nada disso é atingido. Tudo fica incólume», assegurou Pedro Valadas Monteiro.

Também a IP assegura que «ficou assegurado com os contactos desenvolvidos com estas entidades que o traçado rodoviário não afeta, de modo algum, as coleções e o repositório de espécies autóctones de que o CEA de Tavira é fiel depositário e que se localizam noutras zonas deste centro».

As únicas coisas que são atingidas, diz o diretor regional de Agricultura e Pescas «são umas estufas já abandonadas e das quais só restam as armações, um sistema de rega instalado no terreno em causa e cinco barracões pré-fabricados, que foram utilizados no tempo da construção do perímetro de rega do Sotavento, que estão devolutos e tinham de ser retirados – só não foram ainda porque nós ainda não tivemos condições».

«É um património vivo que ali está. Este centro é único. Resulta de um trabalho de décadas dos funcionários da Direção Regional e dos produtores do Algarve, na sinalização, na recolha, na transplantação e na caraterização daquelas variedades que ali se encontram, que fazem parte do património cultural do Algarve», acredita.

«Por isso é que eu acho que é muito importante esta mobilização que está a haver, quer da sociedade civil, quer da autarquia, quer de um grande conjunto de atores – ministérios e não só -, que despertam para o interesse e para quão único é o centro e para quão importante é defendê-lo e reabilitá-lo», acrescentou Pedro Valadas Monteiro.

 

 

Já o Movimento de Cidadãos pela Defesa do CEA Tavira fala num processo «decidido à porta fechada, por entidades públicas e decisores políticos regionais e da administração central, sem que tivesse havido uma consulta transparente e a devida discussão pública».

Para os defensores do centro, o que está em causa é «a desintegração de um campo agrário de experimentação científica, com uma colecção de fruteiras que o próprio Estudo de Impacto Ambiental (EIA) classifica como “únicas”, bem como a destruição dos seus cinco laboratórios. Está em causa a expropriação parcial de terrenos, que hoje pertencem ao CEA Tavira, e a consequente fragmentação desta propriedade».

Falam mesmo na abertura de uma porta para a especulação e interesses imobiliários.

Acusações que são refutadas pela presidente da Câmara de Tavira, que garantiu ao Sul Informação que não tem qualquer intenção de permitir a urbanização desta área e que o interesse da Câmara é que as coleções ali existentes sejam preservadas.

«Aliás, quem tem tentado enaltecer desde há muito as fruteiras e promovido visitas guiadas a este património é a Câmara», afirmou Ana Paula Martins, que louva o surgimento do movimento, lamentando apenas «que não tenha surgido antes».

 

 

Entretanto, a DRAPAlg tem muitos planos para este centro, que têm esbarrado na falta de meios financeiros e humanos. Daí que esta entidade tenha aproveitado a realização desta obra para pedir algo em troca.

«Nós, em sede de consulta pública, pedimos uma série de medidas de minimização. Nós já tínhamos colocado, numa fase inicial, uma série de condições, que foram agora melhor destrinçadas», resumiu Pedro Valadas Monteiro.

E as exigências passam pela «reabilitação do edifício-sede, que é já muito antigo, onde nós temos a ideia de instalar o espaço físico da Quinta de Ciência Viva, em colaboração com a Câmara de Tavira e a rede nacional de Centros Ciência Viva», bem como «dos edifícios, que ficarão a sul da estrada, que sempre estiveram afetos à Formação Profissional em Tavira. A nossa ideia é, uma vez mais em parceria com o município, criar ali o Centro de Interpretação da Dieta Mediterrânica».

«Tudo isto, sempre em ligação com as coleções de fruteiras regionais, que ficarão ainda mais a sul, mais longe da estrada que será feita. Como é evidente, estamos a pedir a reposição das vedações e a criação de um acesso desnivelado no interior da propriedade, só para trânsito interno de veículos, bem como cortinas arbóreas, por causa da questão da poluição visual e sonora. Mais a sul, está um edifício que sempre foi pensado para instalar um Museu Regional Agrário. A nossa intenção é que seja recuperado esse edifício e se instale, de uma vez por todas, este museu».

Ana Paula Martins afirma-se disposta «a investir no centro» e diz já ter pedido um encontro com a ministra da Agricultura para falar do futuro do CEA de Tavira.

«Temos em vista esta parceria com o Centro Ciência Viva, ligada à Dieta Mediterrânica. Já falámos sobre isso, mas ainda não existe um projeto concreto», disse a edil tavirense.

Já quanto ao centro interpretativo e ao museu, «existe já um protocolo assinado. Mas, para mim, faria sentido que fosse tudo integrado num só projeto, até por uma questão de escala e de partilha de meios entre os diferentes espaços», defendeu.

Neste momento, muito depende do parecer que a APA der à AIA do projeto, embora seja certo que há um grupo de cidadãos atentos, que promete usar «todos os meios legais ao seu alcance» para travar o avanço desta estrada e se manifestará frente ao CEA de Tavira no dia 13 de Março, às 17h00.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues|Sul Informação

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