Tântalo a banhos numa barragem algarvia

O debate continua

Gosto de mitologia. Principalmente pela forma quase lúdica como nos coloca a pensar sobre questões estruturais da condição humana, dos nossos valores, dos nossos comportamentos. A propósito do debate em curso neste espaço de opinião do Sul Informação, acerca da temática dos recursos hídricos, recordo precisamente uma figura da mitologia grega: Tântalo.

Tântalo era rei da Frígia (mais ou menos na contemporânea Anatólia, na Turquia), e era fulano podre de rico. Mas levado da breca. Vai daí, e num tempo em que aos mortais era permitida a graça de partilhar mesa com os deuses, Tântalo deu um banquete, no qual se portou mal.

Há versões divergentes acerca da natureza das suas faltas enquanto anfitrião, mas a versão mais popular (e perversamente entusiasmante) conta que, a fim de pôr à prova a omnisciência das divindades, assassinou, cozinhou e serviu o seu filho Pelops como iguaria nesse jantar.

Descoberta a ignomínia de tão abjecto “gato por lebre”, os irados deuses restauraram a vida a Pelops, amaldiçoando o reino e a dinastia de Tântalo para todo o sempre. Como forma adicional de penalização, um particularmente danado Zeus condenou Tântalo a uma danação no Além, sendo obrigado a permanecer, para toda a eternidade, num lago, sem nunca poder dele beber para satisfazer a sua insaciável sede, já que as águas escorriam para longe sempre que o tentava fazer. Adicionalmente, sobre si havia uma árvore, cujos suculentos frutos ficavam sempre um nadinha para lá do seu alcance, condenando-o assim também a uma eterna fome.

Pois bem, esta maldição, conhecida como o suplício de Tântalo, é mais ou menos o que o Algarve tem que enfrentar, caso não mude radicalmente a forma como encara os seus recursos hídricos – e não só.

No último artigo de opinião que escrevi, deixei, de certa forma, uma interpelação a José Macário Correia, por não compreender, sem mais informação, as razões da sua alteração de opinião no que a novas barragens no Algarve diz respeito. Com a frontalidade que lhe é reconhecida, teve a cortesia de adensar a sua argumentação, em defesa do anteriormente escrito. Na sua “resposta” (o seu texto é, naturalmente, mais do que isso), e por entre os argumentos expostos (muitos dos quais subscrevo), um em particular afigurou-se-me fulcral, e dele faço plena boa-fé: o modelo do contrato de fornecimento pelas Águas do Algarve ao Municípios, assente na obrigatoriedade do crescimento dos consumos mínimos.

Ora tal princípio, tendo sido incorporado enquanto valor básico da gestão das Águas do Algarve, é o pecado original na gestão dos recursos hídricos. E é precisamente na interrupção desse ciclo vicioso que reside o principal desafio.

Acredito que, na sua génese, estejam critérios económicos, porventura associados à própria viabilidade do sistema. Sendo no geral compreensível esta preocupação, torna-se um pouco enviesada por se tratar de água. Porque o princípio da água enquanto bem transaccionável e não recurso fundamental à vida – portanto da esfera dos direitos inalienáveis – não é aceitável. Daí que, enquanto cidadãos e contribuintes, talvez devêssemos exigir que, a presidir à gestão da água em contextos de escassez, como é o contexto algarvio desde sempre, estivesse, desde a concepção de modelo à sua operacionalização, a racionalidade e a eficácia, e não a contabilidade.

Para muitos, isto pode oscilar entre o esotérico e o lírico, mas o que é facto é que a escola que dessa ideia meramente mercantilista resulta, tudo admite, desde o desperdício à superfluidade dos usos, passando pela irracionalidade dos consumos. Tudo, desde que a respectiva factura (com taxas e taxinhas acopladas, claro está), seja paga – e sabemos que em certas entidades gestoras, nem assim…

Portanto, é mais uma questão de princípio e fins do que de meios, aquela que mais significativamente me leva a discordar das posições que secundarizem a optimização do uso da água relativamente a novas infra-estruturas de captação. Não parece viável a sucessiva procura de fontes hídricas a fim de suprir uma procura perpetuamente crescente.

Ao invés, um dimensionamento do consumo ajustado à capacidade de carga, ainda para mais num contexto de alterações climáticas cujo principal traço é a incerteza que introduzem nos padrões climáticos, é a opção mais responsável e viável (sustentável, se quisermos utilizar o chavão), de resto em linha com os modelos ancestrais de utilização da água no Algarve.

Sem aqui repetir os argumentos anteriormente apresentados, direi apenas que não há uma negação de novas infra-estruturas, da procura de novas fontes alternativas de águas ou preconceito para com as mesmas ou qualquer uso em particular – e quanto a isso, qualquer discussão superficial sobre superficialidade das análises é vã, já que os números estão em cima da mesa.

Há é o entendimento de que existe grande carência da sua justificação, viabilidade e eficácia – uma lacuna de conhecimento fundamental – enquanto não se sanar todo o desperdício, seja ele “conceptual” – a noção de que podemos dimensionar os nossos consumos acreditando sermos sempre capazes de ir buscar mais água desde que o queiramos – e/ou operacional – redes com perdas, más práticas no uso da água, culturas desadequadas da realidade edafo-climática –, mais água apenas servirá para alimentar mais desperdício, sem nunca efectivamente satisfazer as necessidades.

Eis-nos então num estrutural suplício de Tântalo à algarvia.

Concordo, integralmente, com uma ideia-chave veiculada por Macário Correia: as soluções multifacetadas.

Naturalmente não há, para este problema, soluções imediatas, milagrosas ou únicas. Apenas uma ampla combinação de ideias, decisões bem fundamentadas e, acima de tudo, acções determinadas, nos permitirão adaptar. Mas todas ruirão pela base se não alterarmos a ideia de que a adaptação passa apenas pelo aumento das entradas do sistema (inputs de energia, água, espaço) e nunca pelo redimensionamento dos consumos, pois estaremos perante um défice perpétuo.

Em reflexão conjunta, sem tabus mas também sem vacas sagradas, seguramente conseguiremos alcançar ideias bem melhores do que essa.

Caso contrário, acabaremos a dizer, como mais ou menos até agora, num misto de espanto e consciência expiada, que tudo correu de acordo com o plano, omitindo apenas um importante pormenor: o plano era uma nódoa.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP).
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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