O futuro é já amanhã

Decidi pegar no conhecido almanaque Borda d’Água, um “repertório útil a toda a gente”, com os seus respeitosos 91 anos de idade e fazer futurologia

Tive sérias dificuldades em escolher o tema para este primeiro artigo de 2020. Por isso, optei por escrever sobre algo talvez um pouco inusitado para uma “Mãe Preocupada com o Ambiente”. Ou talvez não…

Primeiro, pensei em escrever sobre o clima, mas, depois de ler o artigo do Professor António Covas, achei que estava já tudo dito: «Se não mudarmos a nossa vida, podemos já não ter vida para mudar», ponto final.

A carta aberta de Nelson Dias sobre os comentários de Miguel Sousa Tavares à Greta Thunberg está muito próxima da minha própria visão da forma como o percurso da jovem ativista sueca está a ser interpretado por parte do mundo, portanto, também senti que este assunto não justificava mais atenção.

Depois, pensei falar sobre o aeroporto do Montijo; sobre as minas de lítio; sobre o projeto de um hotel numa praia em Matosinhos (que o próprio Ministro do Ambiente acha “estranho” que tenha pareceres positivos); sobre as dragagens no rio Sado; sobre o projeto de uma nova ponte no rio Gilão, em Tavira; sobre o regresso de um novo projeto de três hotéis para a zona de João de Arens, em Portimão; sobre a iminente destruição das Alagoas Brancas, em Lagoa, uma das últimas zonas húmidas do Algarve…

Tantas são as situações de crimes ambientais a acontecer, ou por acontecer, em Portugal, que precisaria de muitas linhas e muitos parágrafos para sensibilizar os leitores para a importância da preservação do ambiente, da biodiversidade, dos habitats, para a importância de, em cada momento do nosso consumo, pensarmos nos 3 “R” (reciclar, reduzir, reutilizar).

Precisaria de muitas palavras para demonstrar a importância da implementação de uma verdadeira consciência coletiva ecológica, uma onda verde de proteção da nossa Casa Comum, começando na nossa própria casa… E a verdade é que provavelmente – e infelizmente -, ninguém (ou poucos) iriam ler.

Decidi, por isso, pegar no conhecido almanaque Borda d’Água, um “repertório útil a toda a gente”, com os seus respeitosos 91 anos de idade e fazer, futurologia.

Optei, nas próximas linhas, por partilhar convosco, o “Juízo” deste novo ano, na esperança de que, assim, em género de profecia auto realizável, possamos todos fazer parte de algo maior do que nós mesmos – algo escrito nas estrelas.

Ainda me lembro quando o meu avô, pescador algarvio de raça, pegava no seu almanaque e abria religiosamente as folhas com o seu canivete, precavendo-se para o novo ano, ritual que repito, em sua memória.

De acordo com “O Cartola” que assina o “Juízo do Ano” (o emblemático artigo que fecha cada edição do “Borda d’Água”), «iniciamos o ano de 2020, sob o ciclo de Saturno, com regência na nossa estrela mais próxima, o Sol, que nos sublima a nossa ambição íntima, a nossa forma de nos dar a conhecer; por outro lado, pouco acrescenta ao nosso real autoconhecimento e dá a conhecer as nossas tendências individuais sem aumentar os motivos de nos fazer azia perante determinadas pessoas».

Lendo este primeiro parágrafo, fiquei na dúvida se isto seria um bom ou mau auspício para o ano novo. Continuemos…

«O sol é repleto de verdades e pode abalar muito o nosso dia-a-dia, mas será muito positivo; pois a sinceridade estará em alta neste período. Centraliza e ilumina todos os planetas e convoca cada coisa no seu lugar. É um ano que nos inspira a liderança, a saúde e fé».

Melhor: já me sinto mais esperançosa!

Depois, continuando a ler, fico a saber que, de acordo com o Zodíaco Chinês, 2020 será o ano do Rato de Metal, um Rato brilhante e engenhoso quando se trata de encontrar soluções para problemas difíceis, mas com dificuldades em aceitar e aprender com os seus fracassos (parece-lhe familiar?); um Rato que não gosta de solidão e que, quando é privado do apoio moral dos seus parentes, é atreito à depressão (faz sentido…); um ano de ambições e estratégias renovadas em que se volta as costas ao passado, sem arrependimentos (um bom pronúncio, assim sendo…)

Descubro também, que 2020 será o Ano Internacional da Fitossanidade. Um ano em que deverá existir mais preocupação com as plantas, as árvores, os pássaros, os insetos, os ecossistemas – o ciclo natural da natureza, 100% biológico – mas que o nosso Parlamento parece ignorar, ao permitir que o glifosato continue a circular livremente nos nossos jardins públicos, nos cultivos… Talvez também precisem de receber os conselhos do “Cartola”.

«O que andámos a fazer até hoje está tudo mal, pois erradicámos as pragas que comiam as culturas e aplicámos químicos para que elas crescessem. Com essas aplicações milagrosas dos químicos, acabámos não só com as pragas, mas também com os combatentes naturais das mesmas, por consequência, andámos a envenenar-nos a nós também. Agora e muito devagar, começamos a tomar consciência de que afinal estava tudo mal!»

Não sou eu que o digo. É o Senhor Cartola, do alto dos seus 91 anos. Talvez seja altura de começarmos a respeitar os mais velhos, a sua sabedoria, a ouvir os sinais da nossa grande e velha amiga Terra, senti-la, nutri-la, cuidar dela, ela que tudo nos dá e tão pouco pede em troca, a não ser o nosso respeito.

O futuro somos nós que o construímos em cada dia em que estamos vivos.

Que possamos juntos, construir um melhor 2020!

 

Autora: Analita Alves dos Santos é uma Mãe preocupada com questões ambientais

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