Nas margens do lago de Narciso: a vítima

O desfecho de Narciso foi-se tornando previsível, paulatinamente arquitetado ao longo de uma demasiado curta vida

A qualidade principal dos grandes mitos é a sua eterna atualidade, apoiada na pujança simbólica com que dialogam connosco a partir do fundo dos tempos como se estivessem diante de nós, aqui e agora. Sendo um património inestimável, é simultaneamente desconhecido de muitos – o que os impede de cumprirem cabalmente a sua missão: interpelarem-nos, fazerem-nos pensar, mas também chorar e rir, assim nos transformando e a nossa perspetiva do mundo e da vida. Apeteceu-me recontar um deles.

A seguir ao nascimento de Narciso, fruto de uma violação da ninfa Liríope pelo deus Cefiso, os pais decidiram consultar o oráculo, para lhe conhecer o destino.
A profecia ditou que ele teria vida longa desde que não se conhecesse. Aos dezasseis anos, já a inigualável beleza de Narciso provocava a paixão de todos quantos dele se abeiravam, mas ele os rejeitava com frieza e soberba, indiferente ao efeito devastador que isso provocava.
Até que, um dia, enviou uma espada a um dos seus mais tenazes pretendentes, Amínias, que, destroçado, com ela se matou na ombreira da porta de casa de Narciso, não sem antes clamar por vingança junto dos deuses.
Ouviu-o Ártemis, a deusa da Lua, condenando o belo Narciso a finalmente apaixonar-se sem poder consumar esse desejo irresistível.
Pouco tempo depois, exausto da caminhada e da caça nos bosques, Narciso abeirou-se de um lago de águas prateadas nunca antes frequentado por pastores e seus rebanhos, animais selvagens ou pássaros.
Ao debruçar-se para saciar a sede, o jovem viu, pela primeira vez, o seu reflexo – e ficou perdidamente apaixonado. Impossibilitado de consumar o irreprimível desejo que o possuiu, Narciso foi definhando na contemplação do seu amado, até morrer. Nas margens desse lago, nasceu a flor que porta o seu nome.

Esta história, que recriei a partir de várias versões greco-latinas do mito (omitindo sequências intermédias, como a do encontro do protagonista com a ninfa Eco), é muito antiga, pungente, algo enigmática e semanticamente tão forte que deu origem a muitos belíssimos poemas e quadros (aconselho vivamente o de Caravaggio) e muitas centenas de páginas de bibliografia especializada, em várias áreas do saber, sobre as suas múltiplas possibilidades de significação. Dela decorre, por exemplo, o Transtorno de Personalidade Narcisista, versão patológica do mais comum «narcisismo».

Há uns anos, li com prazer o delicioso Como Tornar-se um Doente Mental (Publicações Dom Quixote, 2006), do psiquiatra português J. L. Pio Abreu.

Nessa obra, dirigida a leigos, Pio Abreu apresenta as propriedades dos muitos males psíquicos de que podem padecer os seres humanos, numa sucessão de «fichas técnicas» sintéticas e muito claras, arrumadas em conjuntos.

No final, interpela-nos: sentimos nós, ao longo da leitura, que também padecíamos de todas ou muitas daquelas enfermidades? Se sim, somos saudáveis, conclui ele, porque a psique as integra todas em razoável equilíbrio relativo. A patologia, assim sendo, resultará do facto de uma delas (ou, em casos mais graves, mais do que uma) tomar proporções tão gigantescas que desequilibra o maquinismo.

Essa nota final do autor, em que a sua escrita atinge os píncaros do humor crítico, fino e inteligente que perpassa toda a obra, é muito útil para perspetivar a questão da saúde mental, mas também para nos perspetivarmos na nossa humanidade frágil e imperfeita e percebermos que a vida é feita dessa difícil procura do melhor equilíbrio possível entre tendências que lutam diariamente dentro de nós, querendo cada uma delas levar a melhor. O truque parece ser vigiar de perto essa guerra e, se possível, não deixar que nenhuma delas assuma o controlo, acarinhando-as a todas por igual.

Voltemos ao mito de Narciso. Como todos os mitos, põe-nos diante do excesso enquanto elemento causador de desequilíbrio individual e cósmico. E é bom que assim seja, porque só no excesso se tornam bem visíveis as coisas profundas para as quais aqueles nos convocam. Mergulhar neles é uma experiência de aprendizagem impune, já que se trata de uma experiência vivida em diferido, não causando as mossas provocadas pela vida imediata. Os excessos, no mito em apreço, são de vária ordem e origem.

Começam nos pais (nalgumas versões, apenas a mãe), ao sentirem a necessidade de antecipar o conhecimento sobre o destino do filho acabado de nascer; passam pelos pretendentes de ambos os sexos que, desde a sua mais tenra infância, não conseguiam resistir à sua beleza física; por Amínias, que se matou à porta de casa de Narciso com a espada (símbolo de contornos evidentes) que ele lhe enviou; pelo lago, imaculadamente virgem à espera do protagonista; para, finalmente, se elevarem ao seu expoente máximo na morte por definhamento de Narciso, para sempre preso à obsessão consigo próprio.

Se virmos a história do lado de Narciso, ele foi vítima do contexto, já que tudo e todos o ensinaram apenas a olhar exclusivamente para si. Nessa curta história, nunca lhe aparece alguém que diga, simplesmente: «Narciso, já reparaste na beleza daquela águia que voa majestosamente sobre nós?» Ou: «Vê, Narciso, como aquela pessoa aparentemente tão feia só o é enquanto não a ouvimos falar e não a vemos agir».

A soberba de Narciso aparece-nos, então, menos como uma característica sua inata e mais como traço de uma personalidade ajudada a construir por todos aqueles que o rodeiam. Não é por acaso que o nome da personagem (Nárkissos, em grego) é formado a partir da palavra grega nárke, que significa «torpor», e está na origem etimológica da palavra «narcótico».

Desse prisma, o desfecho de Narciso foi-se tornando previsível, paulatinamente arquitetado ao longo de uma demasiado curta vida pautada pela confirmação de que só aquele reflexo nas águas límpidas do lago mereceria toda a sua energia e atenção, porque antes tinha merecido a energia e atenção dos outros.

Como fazemos melhor o que nos ensinam significativamente, quando a oportunidade surgiu, Narciso aplicou com afinco os ensinamentos que os comportamentos dos outros nele induziram. O que Narciso pôde, finalmente, ver nas águas paradas (sim, paradas) do lago foi, tão-somente, o que antes apenas vislumbrara na extrema dedicação dos outros a si.

Por isso há tradições (e pessoas) que reputam o elogio sempre de pernicioso ou improdutivo, por considerarem que dificulta o crescimento saudável em profundidade. Na verdade, saber encaixar um elogio exige uma mestria que poucos alcançam, porque na ponta de lá dum elogio aguarda-o a parte narcísica que vive em nós – e domá-la é tarefa colossal que nenhum ser humano deveria ter de suportar, muito menos na infância e na juventude.

 

 

Autor: António Branco é professor e foi reitor da Universidade do Algarve

 

 

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