Galinha dos ovos de ouro da Amazónia pode ser “morta” antes de ser descoberta

Livro que venceu o Prémio Manuel Gomes Guerreiro fala sobre os problemas e o futuro da Amazónia

Paulo Faria Nunes com Lídia Jorge, membro do júri do Prémio Manuel Gomes Guerreiro – Foto: Hugo Rodrigues

A Amazónia poderá ter tesouros por descobrir e só a cooperação internacional e a aposta no conhecimento podem garantir que não se está a matar a galinha dos ovos de ouro antes de se saber, sequer, que ela existe.

Esta é uma das ideias transmitidas por Paulo Henrique Faria Nunes no seu livro “A Institucionalização da Pan-Amazônia”, que venceu a primeira edição do Prémio Manuel Gomes Guerreiro, organizado pela Universidade do Algarve, com o patrocínio das Câmaras de Faro e Loulé.

O académico brasileiro viajou para Portugal para receber o prémio, durante a sessão solene do 40º aniversário da UAlg, em Dezembro, e falou com o Sul Informação sobre a obra que foi escolhida, por unanimidade, pelo júri do concurso.

Depois de muitos anos a estudar a Amazónia, numa perspetiva geopolítica e de relações internacionais, Paulo Faria Nunes chegou a uma conclusão: «há a necessidade de uma mudança no perfil económico de exploração da Amazónia. Sem isso, não há possibilidade de um desenvolvimento viável da região».

Para isso, «há que haver um projeto de longo prazo, porque isto não é algo que se realize em dez ou quinze anos».

Por outro lado, o académico brasileiro defende  «um investimento maciço na investigação científica, porque a Amazónia ainda nem sequer foi inventariada quanto ao seu potencial económico».

Paulo Faria Nunes dá o exemplo da indústria farmacêutica, já que «existem muitas espécies que se sabe que têm potencial medicinal e que são utilizadas por comunidades tradicionais, mas que ainda não foram suficientemente estudadas».

Ou seja, «quanto mais nós desmatamos, pensando em abrir espaço para pasto de animais ou lavouras, podemos estar a perder um ativo económico e ambiental muito grande, que pode gerar empregos com valor agregado e uma indústria nacional, e não apenas produtos primários».

 

Paulo Faria Nunes com Rogério Bacalhau, Paulo Águas e Vítor Aleixo – Foto: Hugo Rodrigues

 

Esta falta de estratégia e de visão de futuro é apenas um dos problemas com que se debatem a floresta amazónica e os territórios pelos quais esta se estende.

«Normalmente, quando falamos da Amazónia, só nos lembramos do Brasil. Porém, é um espaço muito mais abrangente. Dos 12 países da América do Sul, oito possuem territórios amazónicos, além da Guiana Francesa», resumiu Paulo Faria Nunes.

«Os problemas amazónicos são muitos complexos, devido a esta interdependência. O Brasil, sem dúvida alguma, tem a maior parte do território, mas os principais rios provém da Colômbia, do Peru e da Bolívia. Desta forma, a gestão ambiental, no Brasil, depende de como for feita a gestão dos recursos hídricos nesses territórios e vice-versa», acrescentou.

Por outro lado, «há muitos problemas fronteiriços, como a mineração ilegal. Há muitos brasileiros que se dirigem à Guiana Francesa, ao Suriname, à Venezuela – o extremo Norte -, onde, atualmente, o principal problema é a extração ilegal de ouro. Mas também do outro lado, em algumas áreas em que há uma ausência da fiscalização do Estado, há movimentos no sentido Norte-Sul».

O investigador da Universidade de Goiás aproveitou, ainda, para falar dos fogos que têm assolado territórios amazónicos, no Brasil.

Recentemente, houve «um estímulo a determinadas práticas. No ano passado, o Governo brasileiro dispôs-se a regularizar terras públicas, que estavam ocupadas indevidamente, na Amazónia. Mas elas só podem ser regularizadas se houver a demonstração de que a área foi efetivamente ocupada e utilizada. E a forma como muitos encontraram para o provar foi ateando fogo ao terreno. Daí este aumento dos incêndios».

 

Paulo Faria Nunes – Foto: Hugo Rodrigues

 

Foi esta visão sobre os problemas da Amazónia, mas também as soluções de futuro apontadas por Paulo Faria Nunes que levaram o júri do Prémio Manuel Gomes Guerreiro a escolher o livro “A Institucionalização da Pan-Amazônia” como o vencedor desta primeira edição do concurso.

Lídia Jorge, membro do júri , explicou que esta é uma obra «que não se limita a descrever o estado da realidade. Propõe, em concreto, uma melhoria e salvação dessa realidade, com valor para a região e para a Terra inteira, no seu todo».

«O júri valorizou a abordagem singular do autor sobre a questão complexa da gestão da Amazónia, enquanto espaço geográfico único no planeta, visto à luz dos vários cruzamentos de dados de natureza histórica e geopolítica da região, espaço carente de uma maior coordenação internacional entre os oito países amazónicos que a ocupam, análise a que o autor, Paulo Henrique Faria Nunes, acrescenta a defesa de um ponto de vista estratégico institucional para a criação de uma Pan-Amazónia multinacional coordenada», resumiu a escritora algarvia.

O investigador brasileiro não esconde, de resto, a satisfação por ter sido galardoado. «Como professor e investigador brasileiro, é uma satisfação muito grande ganhar este prémio. Nós, no Brasil, olhamos muito para as universidades europeias e portuguesas, até porque as nossas primeiras universidades foram inspiradas nestas instituições».

Paulo Faria Nunes salientou, igualmente, a importância deste prémio, no valor de dez mil euros, ter sido atribuído por um júri «completamente isento e sem contacto». Confessou mesmo que ter sido o escolhido «foi uma surpresa completa».

«Comecei a desenvolver este projeto em 2009. Eu sempre trabalhei com temas ambientais ligados à área internacional, porque tenho formação muito disciplinar. A minha licenciatura é em direito, mas estudei geografia, no meu mestrado, e fiz pós-graduação e doutoramento em ciências políticas, na área das relações internacionais», explicou.

«Quando comecei a estudar mais a Amazónia, senti a necessidade de ver textos que conciliassem a perspectiva doméstica e internacional dos problemas da Amazónia».

É que, diz, «normalmente, estuda-se a Amazónia de forma fragmentada», ou seja, olhando em separado dimensões como «a biologia, as ciências naturais, a engenharia florestal, a mineração, a biodiversidade e a indústria farmacêutica».

Ainda assim, foi em relação à área das relações internacionais que o académico brasileiro sentiu «uma maior carência de estudos».

E foi a busca por este conhecimento que esteve na génese da obra que foi premiada.

 

Oiça a entrevista a Paulo Faria Nunes na íntegra:

 

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