A Marginal do Baixo Guadiana

O professor António Covas imagina um Baixo Guadiana diferente

Caro leitor, não acredite no que está a ler, é tudo pura ficção, fogo de artifício próprio desta quadra de passagem de ano.

E, no entanto.

Imagine que a navegabilidade do rio Guadiana até à vila de Mértola era assegurada e que o rio se tornava não apenas um vetor importante de mobilidade regional, mas, também, um instrumento fundamental de gestão de recursos hídricos nas suas várias vertentes, do abastecimento de água ao regadio e à rega.

Imagine que da política integrada da água para a região algarvia fazia parte, também, uma estação de dessalinização, em estreita articulação com os outros instrumentos de gestão de recursos hídricos.

Imagine que, na mesma linha, era projetado um centro tecnológico de reciclagem e tratamento de águas residuais, a pensar no regadio, na rega dos campos de golfe e jardins, na abordagem aos incêndios e em outros usos e aplicações.

Imagine que todo o Baixo Guadiana era concebido para ser uma sub-região exemplar em termos de neutralidade carbónica e pegada ecológica e hídrica e que, nessa linha, era projetado para a sub-região um programa integrado de medidas de economia circular.

Imagine que todo o Baixo Guadiana era concebido para ser uma sub-região de turismo acessível, isto é, uma “zona de mobilidade integral” dotada de equipamentos adequados, regras de acesso e circulação específicas e cuidados médicos especializados para os membros mais frágeis da sociedade sénior.

Imagine que todo o Baixo Guadiana era concebido para realizar um programa exemplar de envelhecimento ativo, não apenas nas artes e na cultura, mas, também, em estreita articulação com o parque agroecológico intermunicipal do Baixo Guadiana e o seu programa de hortas e jardins que, em conjunto, seriam os instrumentos fundamentais de visitação, recreio, lazer e terapia para os membros mais frágeis da sociedade sénior.

Imagine que um projeto imobiliário inovador promovido pelas autarquias do Baixo Guadiana, concebido em regime de parceria, idealiza uma espécie de “Marginal do Guadiana” devidamente enquadrada pelo “Programa Integrado do Baixo Guadiana”, com uma tipologia de habitações que respeita a agroecologia regional e as amenidades paisagísticas que ladeiam o rio Guadiana de Mértola até Vila Real de Santo António.

Imagine que o mesmo “Programa Integrado do Baixo Guadiana” concebe um subprograma para a agro-silvo-pastorícia de todo o nordeste algarvio, tendo em vista reabilitar não apenas a agroecologia regional, e os solos em particular, mas, também, o bosquete multifuncional, as hortas tradicionais e os produtos regionais e onde os pagamentos por serviços ambientais e ecológicos desempenham um papel central.

Imagine que o Baixo Guadiana criava um centro internacional de treino e alto rendimento e que eram desenvolvidas algumas provas de prestígio mundial, da canoagem ao remo e do triatlo ao atletismo, para citar apenas estes exemplos.

Imagine que o Baixo Guadiana criava um centro de artes e cultura do mediterrâneo como projeto emblemático do cosmopolitismo da sub-região, mas, sobretudo, como instrumento de política de comunicação e cooperação com os países da bacia mediterrânica.

Notas Finais

Imagine, ainda, que a Euro-região Alentejo, Algarve, Andaluzia (AAA) e a Euro-cidade do Baixo Guadiana eram as plataformas ideais e o atores-rede indicados para conceber, promover e liderar todo este programa integrado de realizações, devidamente apoiado em programas de financiamento nacionais e europeus.

Imagine, ainda, que esta retaguarda da Euro-região AAA proporcionava à Euro-cidade do Baixo Guadiana algumas medidas relevantes para a realização do seu programa, como, por exemplo:

– Uma marca coletiva “IGP-AAA” para os mercados de nicho dos seus parques naturais,
– Uma “rede de extensão empresarial AAA” com uma bolsa para estágios profissionais,
– Uma “plataforma interuniversitária de pós-graduação AAA” com titulação conjunta,
– Uma via verde AAA para a mobilidade dos grandes doentes de risco,
– Um programa piloto AAA para o combate às alterações climáticas,
– Um programa piloto para a economia azul do BG,
– Um programa AAA para a receção e colocação de refugiados,
– Um cartão BG para a mobilidade, ou seja, uma via verde para jovens e seniores.

Falta apenas referir que a sub-região do Baixo Guadiana precisa de alguns “sinais distintivos territoriais” para comunicar, em primeira instância, no universo digital, por exemplo: 2 ou 3 factos relevantes histórico-culturais, 2 ou 3 percursos de natureza de grande notoriedade, 2 ou 3 produtos com denominação de origem ou indicação geográfica, 2 ou 3 endemismos florísticos ou faunísticos de grande valor, 2 ou 3 eventos de prestígio internacional, 2 ou 3 residências permanentes artísticas e culturais.

A Marginal do Baixo Guadiana é, evidentemente, uma metáfora dos nossos desejos, mas neste novo recomeço do ano 2020 vale a pena trazer estes dois atores-rede, a Euro-região AAA e a Euro-cidade do BG, para um patamar mais ambicioso e, de certo modo, encenar uma nova dramaturgia regional para o Nordeste Algarvio, o Baixo Guadiana e a Euro-cidade do BG a partir das propostas que aqui se apresentam.

Já agora, acrescente-se, o “programa integrado” vale pelo seu todo e pelo seu efeito de rede e aglomeração, cada medida de per si não tem impacto significativo ou efeito multiplicador. Fica a proposta.

 

Autor: António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve

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