Portugal: o desafio de um círculo vicioso

Vamos conseguir sair deste círculo vicioso? Que a força esteja com os portugueses

Agora que chegamos à reta final de mais uma década, é hora de fazer uma retrospeção. No início do milénio, 2029 era considerado um futuro longínquo, em que se perspetivava uma realidade demasiado “exagerada”, demasiado virtual e tecnológica. Agora, estamos exatamente no meio, distanciados 10 anos (depois) de 2009 e 10 anos (antes) de 2029. A realidade que tanto nos estranhava é hoje “quase” palpável.

Há dez anos, estávamos no final de uma das piores crises financeiras mundiais, mas à beira de uma tremenda tempestade para os lados europeus, sentida particularmente, também em Portugal.

À entrada para 2020, os desafios que as sociedades enfrentam são muitos, e a Portuguesa não é exceção. Desde a área ambiental, emigração, demografia, sustentabilidade energética e de recursos, até às desigualdades, paz e segurança, equilíbrio e transição digital.

É com base nas desigualdades sociais e numa procura incessante pelo combate às mesmas que é importante ressaltar o desenvolvimento económico da Economia Portuguesa.

O próprio primeiro ministro Português assumiu no recente discurso de Tomada de Posse do XXII Governo Constitucional que a desigualdade será um dos desafios para o atual mandato. Esperemos que sim.

Se por um lado a igualdade económica total pode ser utópica e até inadequada, a excessiva desigualdade cria diversos problemas para a sociedade, podendo pôr em causa a liberdade de muitos.

Olhando para alguns dados publicados pela Pordata no Retrato de Portugal na Europa 2019 nenhum português pode ficar descansado face ao panorama atual.

Segundo este relatório, Portugal:

>>É o oitavo país onde a desigualdade na distribuição de rendimentos entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres é maior (os 20% mais ricos recebem cerca de 5.7 mais do que os 20% mais pobres);

>>Está em 11º lugar na taxa de risco de pobreza após transferências sociais (18,3%);

>>É, na área do Emprego e Mercado de Trabalho, o terceiro país com maior percentagem de População Empregada com contrato de trabalho temporário (22%).

Estes são apenas alguns dos dados que mais saltam à vista. Em termos globais observa-se com base neste retrato que Portugal está em muitos indicadores na cauda da Europa e não estamos positivamente em quase nenhuns indicadores no topo da Europa (a emissão de gases efeito de estufa é uma das poucas exceções).

O que pensar face a isto? Vamos continuar a traçar os mesmos caminhos? Ou vamos acreditar otimisticamente que, em 2029, estaremos muito melhores?

Uma boa gestão das expectativas será sem dúvida importante.

Falar que Portugal se encontra numa armadilha da pobreza, será talvez demasiado. Temos de reconhecer que o desenvolvimento que temos tido é assinável, a partilha de saberes com os mais velhos nestas questões é fundamental para sabermos de onde viemos e de como estamos hoje. Tal fica mais claro quando nos comparamos a países de outras regiões do mundo, como África ou América do Sul, onde a pobreza e a insegurança são uma dura realidade.

No entanto, parece-me evidente que Portugal se encontra num período rotineiro, onde os rendimentos reduzidos da maioria da população portuguesa, levam a uma poupança reduzida – facto esse que se verifica, por exemplo, numa pessoa, cujo salário médio de 900€ não permite uma poupança mensal regular (grande parte da população situa-se abaixo de valor).

Tal como refere Jeffrey Sachs, uma poupança reduzida retarda o crescimento do capital acumulado e retarda o investimento na educação. Este fraco desempenho na acumulação de capital e deficiente investimento em formação origina uma produtividade reduzida, e uma produtividade reduzida leva a rendimentos baixos.

Tabela 1: Fonte de dados – PORDATA

Numa curta análise, verificamos que em termos de educação temos conseguido aumentar a escolaridade da nossa população, contudo estamos longe do topo e semelhantes à Europa há 10 anos neste indicador.

Porém, esse crescimento na educação não resultou num aumento significativo do rendimento médio – apenas de 1062€ anuais – e a produtividade até diminuiu. Por outro lado, o indicador de poupança é preocupante e o de investimento não menos, tendo em conta ainda para mais o baixo desenvolvimento da economia Portuguesa. Temos pois um longo caminho a percorrer para chegar aos padrões dos nossos amigos suecos.

Por outro lado, uma apreciação mais fina do Retrato de Portugal permite verificar que somos o verdadeiro Ronaldo da Europa no que toca ao número de empregadores sem o ensino secundários ou superior, bem como de trabalhadores por conta de outrem sem o ensino secundário ou superior.

Em termos de número médio de horas trabalhadas estamos também no TOP 5 com uma média de 35,8 horas por semana (aproveito para deixar um artigo interessante, que pode ser lido, clicando aqui)

Para a próxima década o que podemos esperar? Quantos mais casos obscuros a justiça portuguesa vai encontrar? Está a nossa sociedade preparada caso da economia dê um “espirro”?

Precisaremos, certamente, de mais ética nas empresas e no estado, face aos anos anteriores. Além disso, a aposta na formação e educação é também crucial, dado que não é apenas o economista ou o advogado que necessitam da dita formação, mas sim qualquer profissão. Para melhorarmos a nossa produtividade considero que temos de ser exigentes ao nível da formação tanto com o eletricista, com o auditor de contas, com o engenheiro, com funcionário de armazém, com o jornalista ou com o agricultor. O caso alemão é bastante interessante neste aspeto.

Investir na educação pode até parecer um contrassenso, tendo em conta que temos a geração mais qualificada de sempre, mas tardamos em transformar isso em resultados concretos. Estaremos a desenvolver bem a nossa educação em Portugal? Criam as nossas empresas um ambiente positivo e que incentive a formação dos seus colaboradores? Estamos a utilizar os métodos corretos?

Vamos conseguir sair deste círculo vicioso? Que a força esteja com os portugueses.

 

Nota biográfica:
João Justo é atualmente gestor de projetos. É membro estagiário da ordem dos Economistas. Licenciado em Economia pela Universidade do Algarve. Foi ainda vice-presidente e tesoureiro da Associação Académica da Universidade do Algarve entre os anos 2014 e 2016.

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

 

 

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