Leonardo da Vinci: o “intervalo” entre a ciência e a arte

No ano em que se comemoram 500 anos sobre a morte de Leonardo da Vinci, ocorrida em 1519, nunca será exagerado relembrar o impacto que este homem teve no “seu tempo”, bem como o legado inquestionável

Leonardo da Vinci, tomado como filho exemplar do Renascimento, fincou-se, talvez como nenhum outro homem, na vertigem que separa a ciência da arte, e vice-versa.

Com efeito, é no século XVI que se abre, através do mergulho perpetrado pela anatomia no corpo humano, o solo da ciência moderna, ao mesmo tempo que se preparam os fundamentos do mundo entendido enquanto imagem.

Na formulação de tal imagem, avulta a arte, e especificamente a pintura, como aquela que delimita e enquadra, aquela que de forma económica melhor coloca o humano em cena, oferecendo-lhe então um espelho de grande eficácia.

Não acredito que seja possível, hoje, falar de Leonardo da Vinci, e consequentemente do passado, como de facto foram, mas sim como lhes acedemos a partir do agora. Além de tal, a inquirição ao passado é potenciada por varas de vedor como as enuncia João Barrento: elementos prospectivos.

Pese embora tal incapacidade de (re)construção, acredito que indo ao passado como um mineiro vai ao interior da terra, ou seja, utilizando uma qualidade iluminante específica, torna plausível trazer, aqui e agora, a actualização de um possível prometido pelo tempo, e nele admiravelmente encastrado, como uma espécie de ordália que apenas no futuro se clarifica: é o que tentarei aqui fazer.

Leonardo foi tudo, como nos habituámos a pensar: artista, onde avulta a pintura; “cientista”, pela intensa curiosidade que reservava às coisas todas do mundo; inventor, de magníficas maquinetas e dispositivos, na maioria apenas transponíveis para a realidade séculos depois.

Pese embora a sua incansável voragem de criação e indagação, o que gostaria de vos demonstrar é que Leonardo da Vinci sincretizou na pintura o que mais tarde seria paulatinamente disperso cientificamente, assim como, a par com André Vesálio, e apesar do desfasamento temporal, lançaria os dados, através da anatomia, das regras de submersão no corpo humano.

E chegamos ao nó: é a prática anatómica que permite, tanto a Leonardo como a Vesálio, apreender uma medida do corpo; já as consequências daí advindas diferem e apontam-se ao futuro como lâminas finas e cortantes.

Leonardo da Vinci dissecou cadáveres para poder preservar o corpo na pintura; André Vesálio dissecou cadáveres para poder ancorar o corpo na medicina; os dois gestos gerariam movimentos díspares.

Apesar da disparidade, uma particularidade os liga com sentido profundo: é a apreensão do corpo, é o seu conhecimento intensivo, é o mergulho abismático no interior do corpo, e conhecimento deles provindo, que sustenta o poder, tanto da arte, como da medicina e, através desta, mais tarde da ciência.

Repare-se: não pertence ao Renascimento a criação do “Homem”? E não é esse “Homem” colocado, então, em cena? Pois bem: é-o pela arte e pela medicina. Pelo que não vale a pena hesitar: quem conhece o corpo por dentro, a quem esse corpo entra pelos olhos adentro, já que é o olhar que vai “radiografar” e verter-se em linguagem, é quem terá o poder para interceder entre a terra e o céu. “Quem” vê as vísceras é também “quem” depois irá observar as estrelas, ou seja, quem “tem corpo”, porque o apropriou e planificou com as suas próprias mãos.

Convém, agora e todavia, distinguir diferentes níveis de corpo com base em Leonardo da Vinci e André Vesálio: humano, pictórico, científico.

O primeiro é mortal, o segundo é luminoso, o terceiro é operativo.

Mortal porque entretecido com o tempo; luminoso porque da Vinci o dotou de pele; operativo porque Vesálio o abriu e decompôs em partes que prefiguram as especificações modernas.

A idealização luminosa dos corpos pintados por Leonardo só pode ser a preservação da integridade humana, e não outra coisa; a dispersão orgânica proporcionada pela sistematização de André só pode ser a base corpórea e visual do próprio conhecimento, e não outra coisa. Os dois movimentos, pese embora não se complementem, são necessários!

 


Autora:
Cláudia Ferreira é natural de Coimbra.
Licenciou-se em História/variante História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, frequentou Estética e Filosofia da Arte na FLUCL, em Lisboa, sendo nessa mesma cidade que viria a concluir o mestrado em Estudos sobre a Mulher – As Mulheres na Sociedade e na Cultura, concretamente, na FCSH da Universidade Nova.
De momento, ultima a sua tese de doutoramento em Estudos Contemporâneos no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, em Coimbra.
Os seus interesses de investigação aliam a arte à questão do feminino/masculino, acopladas desde um ponto de vista filosófico.
Foi professora no ensino básico e secundário, bem como numa universidade sénior; foi produtora na área do cinema; foi revisora de texto; e desempenha actualmente as funções de consultora cultural na Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova.
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

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