Chefes de cirurgia de Faro recusam trabalhar nas urgências a partir de 1 de Janeiro

Em causa, as «inaceitáveis e degradadas condições de trabalho no serviço de cirurgia»

Os oito chefes de equipa da Cirurgia do Hospital de Faro vão deixar de fazer banco nas urgências a partir de dia 1 de Janeiro. A decisão dos médicos foi transmitida ao Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) numa carta com data de ontem, dia 4 de Dezembro, e justificada com a «persistência das atuais inaceitáveis e degradadas condições de trabalho no serviço de cirurgia».

Os oito cirurgiões fazem-se valer de «prerrogativas legais, nomeadamente o limite etário», que estipula que médicos com mais de 55 anos não podem ser obrigados a fazer urgências.

O Bastonário da Ordem dos Médicos, que visitou hoje a unidade de Faro do CHUA, diz que os oito médicos «têm a total solidariedade da Ordem».

«Os colegas já não conseguem aguentar mais.  Os médicos, muitas vezes, estão a trabalhar sem a segurança clínica adequada, algo que não é nada aconselhável. O país, até por exemplos recentes, tem de garantir que haja a segurança clínica necessária, para que os doentes sejam tratados da melhor forma», disse Miguel Guimarães.

«Quando nós sentimos que nos está a fugir o tapete de baixo dos pés e começamos a ter imensas dificuldades, temos de dar o alerta. O que estes médicos estão a fazer é dar um grito de alerta, um sinal conjunto e a dizer: tem de se fazer alguma coisa!», acrescentou.

 

Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos

 

Há cerca de um mês, médicos do serviço de Cirurgia I do Hospital de Faro avisaram que deixariam de fazer trabalho suplementar nas urgências a partir de dia 1 de Dezembro, numa carta enviada à administração do CHUA. Ainda assim, os responsáveis pelos hospitais do Algarve garantiram que não haveria falhas neste serviço, este mês.

Em ambas as situações, está em causa a falta de condições de trabalho nas urgências, mas também a diferença nas remunerações dos médicos do quadro e dos médicos tarefeiros, «que chegam a ganhar quatro vezes mais» que os que trabalham a tempo inteiro, para fazerem o mesmo trabalho.

«Há mais de um ano que vimos chamando a atenção para a inexistência de condições de trabalho no serviço de urgência. Temos vindo a protelar esta decisão, porque sabemos que quem sofre, em última instância, são os doentes, mas há uma exaustão que põe em causa a qualidade do serviço prestado», ilustrou, por seu lado, Martins dos Santos, diretor do serviço de cirurgia do CHUA.

«Não temos condições de trabalho, iremos pôr em causa a saúde dos doentes e pomos em causa a saúde dos cirurgiões. E é por isso que tomamos esta posição, que surge depois de várias promessas de que as condições iriam ser melhoradas, mas que, de há uma ano a esta parte, foi zero», resumiu.

«Há uma série de situações. Os cirurgiões não têm condições para observar doentes. Têm uma única sala onde veem 30 ou 40 utentes».

 

Martins dos Santos

 

Por outro lado, estes especialistas «experimentam, sistematicamente, dificuldade em aceder ao Bloco Operatório. Num hospital com uma urgência polivalente, só há uma equipa de anestesia. E nós temos oito especialidades cirúrgicas, com vários doentes que têm de ser protelados, porque não têm acesso ao bloco em tempo útil».

Esta situação, «muitas vezes põe em causa a persistência do órgão e a sua funcionalidade, dependendo do tipo de patologia».

A forma como os doentes «se acumulam no serviço de urgência», devido à falta de camas, é outro dos problemas identificados. «Eu estou cá há mais de 30 anos. A situação tem vindo a degradar-se e nunca esteve tão mal como está agora», assegurou Martins dos Santos.

Quanto à diferença do valor pago à hora a médicos tarefeiros, em relação ao que é pago aos clínicos da casa, o cirurgião do CHUA diz que ele e os seus colegas consideram «que o artigo 59º da Constituição deve ser cumprido: salário igual para trabalho igual».

No caso do Hospital de Faro, há uma agravante, porque os profissionais da casa têm de seguir os doentes após a cirurgia, o que não acontece com os tarefeiros. Ou seja, os da casa ganham muito menos para ter mais trabalho.

«Na segunda-feira, só houve um cirurgião durante a noite no serviço de urgência polivalente e, no próximo sábado, há dois cirurgiões de dia e um à noite, todos eles contratados», denunciou.

 

João Dias, do Sindicato Independente dos Médicos (SIM)

 

Foram estas e outras queixas que o Bastonário da Ordem dos Médicos ouviu de médicos de diferentes departamentos do CHUA.

«Infelizmente, a cirurgia não é o único serviço com problemas. Os vários colegas que falaram connosco, das diferentes especialidades, foram unânimes em queixar-se de dificuldades e de um agravamento das condições nos últimos anos. A falta de investimento tem sido gritante e a desmotivação é cada vez maior», garantiu João Dias, do Sindicato Independente dos Médicos (SIM).

Segundo o sindicalista,  estas dificuldades levam a que os médicos fiquem descontentes e que «se sintam quase convidados a deixar a função pública e o Serviço Nacional de Saúde, para serem contratados, depois, por valores muito superiores, para fazerem o mesmo trabalho».

A solução, considerou, passa por alterar a lei que impede que os médicos do SNS ganhem um valor mais elevado quando fazem horas extraordinárias, ao nível dos outros profissionais vindos de fora.

João Dias e Miguel Guimarães consideraram fundamental o avanço célere do Hospital Central do Algarve, algo que o bastonário já antes havia defendido.

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