Casa onde não há água, todos ralham… mas alguém terá que ter razão!

Terá que ser um debate que olhe não apenas para o presente, mas fundamentalmente para o futuro

Há dias, num artigo de opinião acerca da temática da seca, José Macário Correia defendeu, na condição de agricultor, a necessidade de se avançar para a construção de mais uma infra-estrutura para armazenamento superficial de água, concretamente uma barragem na Ribeira da Foupana.

Há 12 anos, José Macário Correia defendeu, na condição de Presidente da então Associação de Municípios do Algarve, a necessidade de se procurar a optimização na eficiência dos usos da água, em detrimento de novas infra-estruturas para armazenamento superficial de água, concretamente barragens.

Fê-lo no contexto de umas jornadas de trabalho promovidas pelo núcleo regional do Algarve da Liga para a Protecção da Natureza na Universidade do Algarve, em torno de um documento que, corria Janeiro do ano de 2007, estava então em elaboração, e que prometia ser a ferramenta decisiva para a resolução do drama nacional que era, já na altura, a má gestão da água: o Plano Nacional para o Uso Eficiente da Água (PNUEA, oficialmente criado em 2005, e naquela altura ainda sem qualquer operacionalização).

Defendeu, na altura, que nas perdas na rede (na altura saldavam-se em cerca de 40%) se encontrava o equivalente a duas barragens algarvias, o que configurava um grave problema do ponto de vista ambiental e também económico – o que recordo com clareza, pois fui o relator dessas jornadas.

Considerando que parte das conclusões e das medidas propostas dessas jornadas de trabalho, passados quase 13 anos, continua tristemente actual e por cumprir, não consigo assim alcançar, apenas pela leitura deste artigo, e sem ouvir maiores e melhores desenvolvimentos pelo autor, quais as razões que levaram José Macário Correia a mudar de opinião – a qual respeito, embora respeitosamente discordando.

Principalmente porque ao nível das perdas, não obstante o trabalho e investimento a que se tem assistido, lembremos o Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal referente a 2018, publicado pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, e o gravoso retrato do Algarve aí feito, em 3 categorias particularmente relevantes: perdas reais de água (média regional de 183 l/ramal/dia) e percentagem de água não facturada (média regional de 30%) e… reabilitação de condutas (insatisfatória).

Para já, fica então a ideia de que esta sua perspectiva secundariza a mudança de mentalidade face aos recursos hídricos e a optimização da sua utilização, preferindo armazenar mais para mais poder continuar a desperdiçar.

Uma perspectiva que surge na proximidade do arranque daquele que é apresentado como “o maior debate de sempre no Algarve sobre a problemática da água”, numa iniciativa promovida pela associação AlgFuturo.

O maior não sei, mas o primeiro não é de certeza. Daí que, para se diferenciar positivamente – o que esperemos que aconteça –, terá que ter sequência e consequência, o que, para quem assiste a estas coisas há mais tempo e com maior atenção, é fácil descrer. Mais, terá que ser um debate muito mais politizado do que partidarizado – também aqui, é mais fácil esperar do que acreditar.

E, acima de tudo, terá que ser um debate que olhe não apenas para o presente, mas fundamentalmente para o futuro. E aí, para além das normais climatológicas (séries de dados ao longo de 30 anos), teremos também que ponderar os cenários prospectivos de evolução futura do clima.

Para já, ao nível do fenómeno da escassez de água, há uma tendência geral de agravamento do Palmer Drought Severity Index (PDSI, considerado para Portugal Continental, desde 1961 até 2000 – série de dados ao gosto dos mais cépticos, pois descarta “anomalias”, como 7 dos 10 Verões mais quentes desde a década de 1930, registados depois da viragem do século), índice que permite monitorizar de forma integrada estados de seca, combinando os efeitos de temperatura, precipitação e capacidade de água disponível no solo – salvaguardando possíveis desvios induzidos pela consideração isolada de variáveis meteorológicas e englobando funções ecológicas.

Recordo que no último parâmetro, e desconhecendo ainda o balanço de Dezembro, estávamos recentemente à beira da falência ecológica do solo nas suas funções vitais, já que as plantas não conseguiam captar água suficiente para compensar as perdas por constante desidratação.

É também por isso que, quando se fala em barragens, importa pensar não apenas no consumo humano, mas no impacto ambiental integrado que as mesmas terão sobre os ecossistemas a jusante, por supressão de caudais que, mais do que ecológicos, são essenciais…

Na racionalidade dos usos, nada de novo nos vários sectores de consumo, reinando a ligeireza, o optimismo infundado e o desfasamento face às cautelas que a realidade regional recomenda. Mudar tal cenário implica mudar atitudes, comportamentos, estilos de vida, em todos “nós” e não apenas “neles”. E aí, poucos estão disponíveis para dar corpo ao discurso.

Excepto talvez na agricultura, em que a mudança continua… com a progressão do regadio, e com apoio por parte das entidades competentes na matéria. Compreendendo-se a importância do sector primário para a diversificação da economia, o papel de compromisso que às entidades compete e o necessário equilíbrio entre precaução e imobilismo, fica a dúvida quanto à ponderação da questão hídrica nos processos de decisão.

Principalmente quando são “promovidos” exemplos de boas práticas na cultura do abacate, cujos consumos anuais de água para 85 ha, ainda assim e a título comparativo, equivalem a cerca de 14 meses da produtividade média mensal do aquífero Querença-Silves!

Perante tudo isto, e considerando o histórico de soluções milagrosas prometidas (recorde-se Odelouca, com as duas estações elevatórias reversíveis que permitiriam a passagem de água entre os sistemas de Barlavento e de Sotavento), insistimos?

Parecendo-me que não, a verdade é que, neste momento, ninguém pode dizer. Porque nos faltam dados. Já anteriormente o afirmei, agora repetindo: não dispomos de um estudo integrado da capacidade de carga do Algarve, em termos de recursos hídricos, ou pelo menos da viabilidade da actual carga. Uma base comum de discussão, mensurável e actualizável, que permita informar o diálogo e, mais importante, a decisão e a acção em torno dos recursos hídricos.

Para tal parece fundamental e inadiável o envolvimento profundo e empenhado de moderadores fortes, idóneos e com autoridade científica, como por exemplo a Universidade do Algarve (autonomamente ou em conjunto com outros centros de conhecimento).

Neste ou noutros debates, mas acima de tudo, em mecanismos sistemáticos de informação e apoio à decisão, para que, finalmente, cépticos e optimistas possam ser silenciados por realistas, que determinem com o rigor possível se o copo está vazio, meio-cheio, meio-vazio ou se afinal tem avonde.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP).
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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