As dificuldades acrescidas de financiar um jornal regional

O ideal seria que a publicidade, as doações dos leitores e de alguns patronos empresariais ou individuais pudessem ser suficientes para manter o acesso à informação gratuito e livre

Garantir a sobrevivência económica de um jornal regional não é fácil. Para mais quando esse jornal, como é o caso do Sul Informação, que tem sede em Faro, se assume, desde a sua fundação há oito anos, como apenas e só online.

E quando se aposta, como nós fazemos, em conteúdos de acesso gratuito, uma decisão que irei explicar mais à frente.

O Sul Informação foi criado em Setembro de 2011, por um grupo de três jornalistas que se despediram em bloco de um outro jornal algarvio, devido a salários em atraso. Desde o início que nos afirmámos como jornal do Algarve e do Baixo Alentejo, duas regiões que estão naturalmente ligadas, não só geograficamente, como em termos de problemas e vivências.

Com edição apenas online e sem conteúdos pagos ou assinaturas, como sobrevivemos? É esse o exercício que temos vindo a fazer nestes oito anos, com sucesso crescente.

A solução tem passado, por exemplo, por não parar, por estar permanentemente a melhorar, quer o serviço jornalístico oferecido aos leitores, quer as plataformas em que trabalhamos.

Em termos de suporte digital, temos aproveitado todas as ferramentas de financiamento que são postas à disposição, nomeadamente os Incentivos à Imprensa Regional, geridos pelas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional.

Por outro lado, ao contrário do que acontece cada vez mais, até com media nacionais, nós fazemos muito pouco jornalismo de secretária.

O Sul Informação, mesmo sendo um jornal com pouco dinheiro, vai aos sítios para fazer as reportagens, para falar com os protagonistas das histórias e conhecer os seus problemas. Vamos a Alcoutim ou a Aljezur, vamos a Barrancos ou Odemira. Tudo isso acarreta mais despesas, mas nós encaramos essa parte do nosso trabalho como um investimento que fazemos em mais leitores e mais qualidade.

A solução para nos financiarmos passa também por expandir os nossos serviços. É o que vai acontecer esta sexta-feira, com o lançamento da nossa subpágina Alentejo | Sul Informação, que é fruto da candidatura que apresentámos à CCDR Alentejo, no âmbito dos Incentivos à Imprensa Regional.

E então, poderão perguntar, porque é que desde o início determinámos que os conteúdos seriam gratuitos? Porque o Algarve e Baixo Alentejo não têm público suficiente para justificar conteúdos pagos.

O Algarve tem 450 mil habitantes, o distrito de Beja tem 152 mil habitantes. Juntando isto, são mais de 600 mil habitantes, o que, assim à primeira vista, para quem não conhece a realidade destas regiões, pode parecer muito e, sobretudo, pode parecer o suficiente para justificar a aposta num jornal pago.

Só que o Algarve nunca teve, sequer, um jornal diário impresso.

Mesmo os semanários algarvios impressos, que agora são apenas dois em toda a região, nos seus tempos mais pujantes, em inícios e meados dos anos 2000, tinham tiragens ridiculamente baixas de um máximo de 10 mil exemplares…e não era todas as semanas, era apenas em algumas semanas especiais, como no Natal.

Ou seja, não há na região algarvia um público leitor de jornais. Porquê? Isso será talvez um tema bom para uma tese de mestrado ou mesmo de doutoramento…

Ora, não havendo público leitor de jornais, se nós ainda por cima fôssemos criar barreiras para acesso às notícias, às reportagens, às histórias que publicamos, estaríamos a dar um tiro nos pés. E a correr o risco de, rapidamente, ficar sem pés e cairmos.

Então vocês vivem de quê?, poderão perguntar-me. Vivemos da publicidade. Mas quando começámos não tínhamos um cêntimo de publicidade, portanto, durante alguns longos meses, tivemos de investir dinheiro do nosso bolso para sobreviver e crescer.

Hoje, o Sul Informação tem uma média de 30 mil pageviews diárias, ou seja, perto de 900 mil visualizações por mês. Em Agosto passado, totalizámos 1 milhão de pageviews. Mas temos dias em que atingimos 50 mil, 70 mil. Já atingimos mesmo 102 mil pageviews num só dia…

São números baixos, se comparados com os media nacionais, mas são números muito altos, dos mais altos mesmo, no âmbito da imprensa regional em Portugal.

Apesar destas métricas muito encorajadoras e que têm mantido uma tendência consistente de subida, no Sul Informação não nos focamos na “ditadura do click”. Sabemos, por experiência, que notícias de desgraças representam muitas visualizações e muita interação nas redes sociais, em especial no Facebook.

Obviamente que temos de dar notícias de tudo o que acontece no Algarve e Baixo Alentejo, mas preferimos focar-nos em temas mais profundos, em reportagens próprias, em histórias que descobrimos. Porque, se as desgraças nos trazem muitos leitores imediatos (na sua maioria apenas “leitores toca e foge”), são estes trabalhos de maior qualidade e profundidade que nos granjeiam o respeito e a preferência de quem nos lê ou vê. E que fazem com que o Sul Informação seja, hoje, o jornal de referência no Algarve e Baixo Alentejo.

Poderão vocês perguntar: ter tantas pageviews garante-vos retorno publicitário direto? Esse é, realmente, um dos fatores que pesa, tanto no que diz respeito aos anunciantes regionais, como aos grandes anunciantes.

Outro fator tão ou mais importante que o número de pageviews é continuar a garantir que o Sul Informação é o jornal de referência e mais lido do Algarve e Baixo Alentejo. É que o prestígio do jornal também atrai anunciantes. E mantem-nos.

Em termos de financiamento, também temos um sistema, desde o ano passado, para facilitar as doações de leitores, a partir da nossa home page. Há já pouco mais de uma dezenas de pessoas que faz contributos mensais ou anuais, voluntários, para o Sul Informação, como forma de apoiar o nosso trabalho, mas ainda não geram um montante financeiro muito significativo. No entanto, esta poderá ser uma área em que poderemos apostar mais, no futuro.

Além disso, porque o Sul Informação é um título detido por uma associação cultural, temos ainda protocolos com entidades públicas, para apoiar a produção de conteúdos em determinadas áreas da Cultura e do Património.

Também já começámos a estruturar uma espécie de fundo de apoio ao nosso trabalho jornalístico, para o qual contribuiriam empresas regionais ou com interesses na região, que considerem importante – como nós consideramos! – que haja meios de comunicação social fortes e independentes no Algarve e Baixo Alentejo.

Esse fundo, para o qual as empresas funcionariam como uma espécie de patronos e contribuiriam anualmente, serviria para financiar trabalhos de investigação de mais fôlego.

Mas que fique desde já esclarecido um aspeto: os patronos financiadores não teriam qualquer interferência nos temas a escolher e, muito menos, nas abordagens escolhidas para os trabalhos que ajudariam a financiar…

Já fizemos vários contactos com empresários, nomeadamente com aqueles que frequentemente nos dão palmadinhas nas costas a dizer que fazemos bom trabalho (e nos mandam as suas notas de imprensa para que as publiquemos)…mas até agora, o que temos ouvido é apenas uma série de “nins”… Mas não desistimos!

Quanto a esta premente questão do financiamento dos media, tenho acompanhado com interesse as propostas que têm surgido nestes tempos mais recentes, da Associação Portuguesa de Imprensa, da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã e do re/media.lab, que sugerem medidas de apoio aos media em Portugal.

De algumas, penso que jornais regionais online, como o Sul Informação, pouco ou nada beneficiariam, como é o caso do pagamento de assinaturas digitais, entre outras semelhantes.

Mas há sugestões interessantes, uma delas passando apenas pelo facto de o Estado cumprir as suas próprias leis – como no caso da publicação de Publicidade Institucional, que obviamente deveria também ter uma verba significativa para os media regionais, ao contrário do que atualmente acontece. E que deveria não esquecer os media regionais digitais.

Outras medidas sugeridas, relativas a projetos de promoção da literacia dos media e da maior ligação dos media com a comunidade, com as escolas, etc, são aspetos em que o Sul Informação já trabalha e que, portanto, veremos com bons olhos se houver mais apoio.

Além dos projetos de literacia dos media que promovemos, com uma rede de escolas, em 2018/2019, em todo o Algarve, não há semana em que um de nós não seja convidado para ir falar a uma escola ou que não recebamos visitas na redação. Isso também é trabalho no âmbito da literacia dos media, que devia ser, de facto, pago, porque estamos a prestar um serviço à comunidade.

Apoios indiretos, como à contratação de jornalistas jovens e menos jovens, isenções fiscais e de contribuições, poderão também ser boas medidas a implementar.

E agora voltando ao princípio: será que alguma vez teremos conteúdos pagos? Talvez, no futuro, em alguns conteúdos ditos premium.

Mas continuamos a pensar que o ideal seria que a publicidade, as doações dos leitores e de alguns patronos empresariais ou individuais pudessem ser suficientes para manter o acesso à informação gratuito e livre.

Pode ser idealista, mas, se não tivermos sonhos, de que vale estarmos cá?

 

Autora: Elisabete Rodrigues é jornalista e diretora do Sul Informação – versão integral da intervenção apresentada na conferência sobre Financiamento dos Media, promovida pelo Sindicato dos Jornalistas, a 2 e 3 de Dezembro, no Palácio da Cidadela em Cascais.

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