Ana Abrunhosa, a ministra que é “embaixadora” do Algarve Tech Hub no Governo

Ministra esteve em Faro para conhecer o projeto do Polo Tecnológico algarvio

O Algarve Tech Hub (ATH) passou a ter uma embaixadora no Governo. Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial, esteve esta terça-feira nas instalações da VisualForma, em Faro, para conhecer o projeto do Polo Tecnológico que irá nascer na capital algarvia, mostrou-se entusiasmada com o que viu e ouviu e prometeu incluir nos seus discursos a mensagem de que existe um ecossistema de inovação que faz com que a região algarvia seja «mais do que turismo».

«Fui completamente convencida a ser uma embaixadora do Algarve Tech Hub! E uma que dirá: no Algarve há bom turismo, mas o Algarve não é só turismo», afirmou Ana Abrunhosa, numa entrevista em exclusivo ao Sul Informação.

O nosso jornal foi o único a acompanhar a reunião de trabalho que a ministra e os secretários de Estado Adjunto e do Desenvolvimento Regional e da Valorização do Interior, Carlos Miguel e Isabel Ferreira, mantiveram com representantes das diferentes entidades envolvidas no Algarve Tech Hub, nomeadamente com a Algarve Evolution, que junta mais de três dezenas de empresas tecnológicas algarvias, incluindo a anfitriã VisualForma, e a Algarve STP, o chapéu institucional do polo tecnológico, constituído pela Universidade do Algarve, através do CRIA, pela Câmaras de Faro, Loulé, Olhão, Lagos e Portimão e pela ANJE.

No final, a ministra admitia ter ficado com uma outra perceção sobre a dinâmica económica do Algarve. «Já tinha a noção que o Algarve não era só turismo, mas saí daqui ainda mais convicta, porque ouvi de viva voz os atores que estão envolvidos nesta dinâmica e neste projeto muito interessante», disse.

«A minha presença aqui é testemunho de que o Governo quer ajudar a divulgar o Algarve Tech Hub. A partir de hoje, sempre que falar sobre o Algarve, esta dimensão fará parte do meu discurso», acrescentou.

 

Os secretários de Estado Carlos Miguel e Isabel Ferreira, junto da ministra Ana Abrunhosa

 

É que, considerou a ministra, o projeto algarvio destaca-se pela positiva.

«Eu acho que a marca que aqui foi criada, a Algarve Tech Hub, como eu tive o prazer de testemunhar, já fez o difícil. Já criou o software e só agora é que está preocupada com o hardware», que, neste caso, é o edifício onde ficará instalado o polo tecnológico.

E o mais difícil, na visão de Ana Abrunhosa, «foi conseguir com que as empresas e as entidades públicas se associassem. Aqui já está criada a entidade gestora do Parque Tecnológico e ele ainda não existe fisicamente».

«Esta concorrência com cooperação é algo de que as empresas necessitam. Elas precisam cooperar naquilo que lhes permite acrescentar valor: na formação dos seus recursos humanos e na internacionalização. A marca, o próprio conceito e o reconhecimento por parte da União Europeia da existência, aqui, de um Digital Inovation Hub, são muito importantes», acrescentou.

A comitiva do Ministério da Coesão Territorial esteve em Faro para ouvir a parte boa, mas também para ficar a conhecer a parte má, ou seja, os problemas com que os promotores deste projeto se debatem. Foram, aliás, várias as vezes que Ana Abrunhosa instou os sucessivos oradores a diagnosticar aquilo que consideravam ser os principais entraves e a apontar formas de o Governo ajudar.

Cláudio Martins e Pedro Alves, da VisualForma, Vanessa Nascimento, da Algarve Evolution, e João Guerreiro, que representou a Algarve STP, não se fizeram rogados e apontaram diversas questões. E as mais prementes parecem ser a questão da habitação e da atração de recursos humanos.

Estes são dois problemas que, de certa forma, estão ligados, tendo em conta que a dificuldade de arranjar casa impede que a região seja capaz de trazer talentos vindos de fora. Mas há também questões ligadas à legalização de trabalhadores.

«O problema que hoje aqui nos foi diagnosticado tem duas dimensões. Por um lado, há a questão da área das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) estar em grande desenvolvimento no Algarve e necessitar de recursos humanos que vêm, sobretudo, de outros países. O pedido que nos foi feito foi para agilizar os processos de entrada no país de trabalhadores estrangeiros», enquadrou Ana Abrunhosa,qq em declarações ao Sul Informação.

O Governo, assegurou, «tem estado muito atento a essa situação» e até já criou «um mecanismo facilitador, que é o Tech Visa. No entanto, segundo o que nos transmitiram aqui, este instrumento, sendo facilitador, continua a ter associado um processo muito burocrático. Tendo isto em conta, vamos falar com outros colegas do Governo que têm essa tutela e transmitir esta preocupação».

 

 

 

Outro problema é a questão da habitação, «nomeadamente de jovens que se querem fixar  terem dificuldade em encontrar casas a preços acessíveis. Este problema existe noutros pontos do país, mas, no Algarve, tem a agravante da grande concorrência que há da parte do setor turístico».

«Neste aspeto, penso que as autarquias têm um papel muito importante. Há um conjunto de instrumentos e de apoios à regeneração urbana, vocacionados para a habitação», referiu Ana Abrunhosa.

Vanessa Nascimento, da Algarve Evolution, concorda que a falta de habitação é um problema grave e acrescenta ao bolo as dificuldades de mobilidade na região do Algarve.

«Eu acho que há interesse das empresas em fixar-se onde os trabalhadores tenham qualidade de vida. Temos toda uma nova conceção de trabalho, nomeadamente o trabalho à distância, mas o que é certo é que as pessoas  precisam de certas condições, de ter facilidade de chegar aos sítios, de ir às compras, de ter escolas para os filhos», ilustrou.

«Temos que trabalhar, quer no mapeamento, quer na construção de novas infraestruturas. E a mobilidade no Algarve, neste momento, é um grande problema. Para mal ou bem, vai-se arranjando casas, mas caras. Torna-se muito pouco atrativo para as pessoas virem para cá. Estamos a tentar, dentro do que nos é possível. Mas precisamos de algo superior, a nível político, que nos dê alguma ajuda», acrescentou.

Quanto à associação que representa, junta já 34 empresas «e mais virão. E só não somos mais, neste momento, porque não há ainda lugar para colocar as empresas e os seus trabalhadores».

João Guerreiro, antigo reitor da UAlg e o pai do Polo Tecnológico, que terá a sua componente física no Campus da Penha daquela instituição de Ensino Superior, também falou da necessidade de atrair novos atores empresariais – ainda que com ponderação.

«Está nas nossas mãos a escolha dos parceiros e dos técnicos que queremos atrair para a região. Não se trata, ainda assim, de uma seleção espartana, com critérios muito fechados. Perante as nossas condições e aquilo que queremos fazer, a ideia é alargar este projeto tanto quanto possível», disse.

 

João Guerreiro

 

Antes de regressar a Lisboa, Ana Abrunhosa deixou «uma nota muito positiva pelo que já foi feito, mas também um desafio para se darem a conhecer ao país».

João Guerreiro assegura que essa divulgação já está a ser feita e que faz parte dos planos do Algarve Tech Hub.

«Nós conhecemo-nos muito bem uns aos outros, temos uma parceria muito sólida e robusta. Mas tudo isto tem de extravasar para fora das nossas fronteiras e das do Algarve, daí que esta linha de encontrar novos parceiros e de internacionalizar as nossas atividades faça parte do nosso programa de ação», disse o antigo reitor.

Aqui, o Governo pode dar uma ajuda, na hora de encontrar financiamento. «O Governo pode ajudar porque, em muitas das coisas, nós precisamos de uma alavancagem financeira. E os programas, por vezes, ou são lentos na avaliação das candidaturas ou têm critérios muito seletivos e orientados para outras realidades que não a nossa».

«Aquilo que eu transmiti à senhora ministra é que devíamos ter uma atenção maior da parte do Governo no que respeita, sobretudo, aos programas de apoio financeiro, independentemente de podermos concorrer a eles de forma aberta e concorrencial. Não pretendemos acesso livre a fundos. Nós estamos seguros da qualidade do projeto que estamos a implantar e da rede que estamos a criar», concluiu João Guerreiro.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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