Kugelis à algarvia ou a falta de hospitalidade da Seleção Nacional

Gonçalo Duarte Gomes faz uma análise, como sempre bem humorada, ao jogo de ontem, entre Portugal e a Lituânia

A forma como um simpático grupo excursionista da Lituânia foi recebido no Algarve gera em mim sentimentos contraditórios. Se, por um lado, representou uma noite boa para a Selecção Nacional e papinho cheio para o adepto, por outro coloca em causa o bom-nome da região enquanto destino turístico seguro para quem o visita a partir do estrangeiro.

E se, ao olhar para os adeptos lituanos, não pude deixar de experimentar um flashback solidário, causado pelo stress pós-traumático do que é ir ao Estádio Algarve e sair de lá vergado a uma goleada, rapidamente foi ultrapassado por aquele calor no coração, que faz pensar: “então é este o sentimento de vencer!”. Ficam as loas aos bravos que permitiram tal terapia.

Rui Patrício
Noite de pesadelo para a D. Beliza, mãe de Rui Patrício (e ninguém me tente convencer que este nome não influenciou a escolha posicional do filho em campo…).

Ver o filho ali especado no meio de uma frieza quase polar, durante mais de 90 minutos, sem uma camisola de lã, um agasalho, nada… restou-lhe esperar que o seu menino tivesse tomado o Oscillococcinum antes de entrar em campo.

Ricardo Pereira
Foi uma espécie de Pacto Molotov-Ribbentrop unipessoal, anexando, dentro do seu bolso, todo o corredor esquerdo da defesa báltica. É certo que beneficiou de uma espécie de glasnost futebolística que a Lituânia globalmente promoveu, mas ainda assim, grande jogo do lateral, incansável e de uma intensidade a toda a prova, desde o apito inicial até final do jogo.

Rúben Dias
Tanta coisa interessante para um jovem de 22 anos fazer numa Quinta-feira à noite no Algarve, e o central a ter que perder 90 minutos da sua vida que não mais recuperará…

José Fonte
À beira dos 36 anos, a situação de José Fonte é bem diferente da de Rúben Dias. Outra maturidade, outra serenidade, outros interesses. Pareceu francamente grato pela oportunidade de poder acompanhar aquela hora e meia do crescimento da relva do Estádio Algarve.

Mário Rui
Jogar sem ter que estar a pensar se vai encontrar a cabeça de um cavalo na cama é um alívio que se notou no jogador do Nápoles.

Rúben Neves
Rúben Neves foi hoje aquele colega do trabalho que todos temos: anda sempre de um lado para o outro para parecer ocupado, mas na verdade todos sabemos que não tem nada para fazer. Mas também, jogar com trinco contra esta Lituânia foi só mesmo uma cortesia do Fernando Santos para com o adversário.

Bruno Fernandes
Parecia um miúdo numa loja de doces, fascinado pelo facto de estar dentro de campo numa equipa que tem outros jogadores para além de si, e que de facto sabem jogar. Ressentiu-se no entanto dessa mesma realidade, bem como da experiência que é ganhar com facilidade, parecendo mesmo algo perdido a espaços, sem ter ninguém com quem gritar.

Pizzi
Estranhou jogar de início numa competição europeia, mas rapidamente ultrapassou o choque, arrancando para uma exibição sólida, em que aproveitou para praticar exercício físico com moderação e marcar um golo de belo efeito.

Bernardo Silva
Quinito, carismático treinador português, disse um dia sobre Pedro Barbosa, mítico e virtuoso médio que ainda hoje se chora em Alvalade: “comprava o Pedro só para o pôr a jogar no quintal”.

Pois bem, se algum dia se organizar uma festa nesse quintal, Bernardo Silva é o homem a chamar. Hoje fez lembrar um coordenador de festividades, de um lado para o outro, atarefadíssimo, a compor a decoração, escolher o repertório da banda, provar a comida, definir os assentos, garantindo que a festa é bonita e todos se divertem.

E mais do que meramente dar ordens, Bernardo mostra como fazer, com finesse, requinte, como bem demonstrou no golo marcado. A classe é linda de se ver.

Cristiano Ronaldo
Na mitologia lituana existe uma criatura, Baubas, que é invocada pelos pais quando querem que as crianças se portem bem ou comam a sopa. Ao verem o hat-trick de Ronaldo, vários jogadores adversários ficaram a pensar no que teriam feito de mal para merecer esta aparição. Perguntem ao Capello.

Gonçalo Paciência
Não sei o que Gonçalo Paciência fez a Setkus, mas de certeza que foi grave. Só assim se explicam as defesas que ninguém acreditava que o guarda-redes lituano fosse capaz de fazer – mas fez – a tantos e tantos remates seus.

Quando o avançado finalmente conseguiu marcar um golo, após tanto esforço e dificuldades, a emoção partilhada no estádio equivaleu ao momento em que Marco dos Apeninos reencontra a sua mãe. Um misto de alegria e alívio por ver chegado ao fim aquele calvário, portanto.

Bruma
Como eu compreendo o Bruma. É que da bancada também parecia fácil fazer tudo aquilo que os jogadores que estavam em campo faziam…

João Moutinho
Um clássico do populismo futebolístico, ainda que bem intencionado. Meter um indígena para fazer o agrado à populaça nas bancadas, mesmo que não acrescente nada. Mas o que é facto é que funcionou.

Principalmente com a minha tia, que foi ver o jogo comigo, e que já várias vezes me tinha perguntado se ele estava a jogar. Sempre adorou miúdos pequenos…

Diogo Jota
Ninguém esquece a primeira vez. No Algarve então, mais memorável se torna. Só foi pena, porque assim não entrou o Éder.

 

Nota: veja aqui o que é Kugelis

 

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