Brexit Disaster Sale, ou o que é a solidão

Parece-me que em tantas ocasiões vivemos um “Brexit” voluntário, uma separação de águas consciente, uma escolha resoluta e egoísta, individualista, que promove a tal solidão solitária

Old fathers, great-grandfathers,
Rise as kindred should.
If ever lover’s loneliness
Came where you stood,
Pray that Heaven protect us
That protect your blood.

(Love’s Loneliness, de William Butler Yeats)

Caminho muitas vezes sozinha. Caminho e faço coisas sozinha. É a minha natureza e condição daquilo que, com desdém, se chamava antigamente (não sei se hoje ainda se aplica, embora ache que pessoas da minha geração provavelmente ainda tenham como conceito) “solteirona”.

Não sei se a solidão é sempre boa ou sempre má. Há dias em que me sabe muitíssimo bem estar só, escutar a voz do meu pensamento, realizar as minhas tarefas ao meu ritmo e sem interferências, mas há dias em que isso me parece um fardo e que, se alguém partilhar comigo um pouco do seu tempo, tudo se me afigura mais apelativo.

Dou por mim a olhar para os outros e a pensar se efetivamente caminham a meu lado em total solidão e se estar só é somente estar sem companhia ou estar separado dos demais na visão, na forma de agir, nos sentimentos. Enfim, estar verdadeiramente num estado de total ausência de partilha do que quer que seja. E será a solidão de estar só mais leve ou mais pesada que a solidão da não partilha?…

Às vezes, parece-me olhar para tantos solitários… Riem, dividem momentos de festa, refeições, férias e, no entanto, se estivermos atentos, veremos a ausência total de um estado de comunhão verdadeira, efetiva. Está a fazer-se o que é esperado de nós, mas que não nos traz realização interior, nem tão pouco completa o outro. Somente para não se estar só ou para se cumprir um papel socialmente determinado, mesmo numa época em que os papéis sociais são constantemente desafiados…

Não escolhi este estado, não foi consciente e deliberado. Aconteceu. E pode deixar de ser assim. E há outros como eu. Mas eu sei que tenho parte relevante no que sucede comigo, já que a minha personalidade, o meu modo de agir me conduziram, certamente, às escolhas que fui fazendo.

E, depois, há os que sentem que nunca tiveram opção e que tudo lhes foi imposto e que nada na vida é passível de ser resultado da sua própria ação.

Vivem como num saldo: apanham tudo o que for verdadeiramente uma pechincha, seja ela de que natureza for e não importa se o que se ganha é verdadeiramente útil ou necessário. O que se quer é marcar presença, arrecadar créditos neste jogo da vida, acumulando relações como se de coisas se tratassem e pondo nas prateleiras das suas existências os amigos, os companheiros, os colegas, tudo e todos, em pilhas arrumadinhas e prontas a usar.

E no momento certo, lá está o que faz falta. Usa-se e descarta-se, porque aos sentimentos ainda não chegou a política dos três Rs. E quando é o outro que precisa de nós? Somos capazes de desmontar do nosso cavalinho da solidão e sair em seu auxílio, nem que seja com um sorriso?

Parece-me que em tantas ocasiões vivemos um “Brexit” voluntário, uma separação de águas consciente, uma escolha resoluta e egoísta, individualista, que promove a tal solidão solitária, na qual somos mesmo incapazes de dar de nós, de compreender que ser humano implica ser com os outros. Tantas ocasiões, tantas…

Este saldo ao modo “Brexit” tem tudo para ser um desastre, mas tal como no verdadeiro “Brexit” é difícil descortinar o fim, o momento da resolução.

Resta-nos a esperança em nós mesmos. Resta-nos acreditar que somos capazes do melhor, da conciliação efetiva a que poderemos chamar tantas coisas: amizade, amor, companheirismo…

Eu não estou só. Habitam em mim e levantam-se comigo em todas as horas aqueles que se cruzaram comigo e de alguma forma e em algum momento se tornaram meus parentes, ou como dizia William Butler Yeats, o grande poeta irlandês, será essa relação de sangue, construída e forjada no âmago do coração que me salvará sempre.

 

Autora: Sandra Côrtes Moreira
É licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Universidades de Lisboa e Algarve e mestre em “La Educación en la Sociedad Multicultural” pela Universidad de Huelva.
Desempenha as funções de coordenadora do Gabinete de Informação e Relações Públicas da Câmara Municipal de Silves e é assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, com quem colabora, integrando também a equipa da Pastoral do Turismo.

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