As Cidades Criativas da Unesco

Nos últimos vinte anos assistimos a uma curva ascendente da economia criativa na sua aceção mais geral, num movimento marcado pela criatividade e inovação

As cidades de Óbidos (Literatura, 2015), Idanha-a-Nova (Música, 2015), Amarante (Música, 2017), Barcelos (Artesanato e Artes Populares, 2017), Braga (Artes Digitais, 2017), Leiria (Música, 2019) e Caldas da Rainha (Artesanato e Artes Populares, 2019) têm um traço em comum: foram denominadas cidades criativas pela Rede Unesco de Cidades Criativas, depois de uma criteriosa avaliação dos sinais distintivos nas respetivas áreas objeto de candidatura.

A título de exemplo, Idanha-a-Nova apresenta a música antiga como elemento estrutural das suas linhas de programação anuais e plurianuais desde 2001 e delas constam diversos grupos de música tradicional, a filarmónica idanhense, o agrupamento profissional “concerto ibérico orquestra barroca”, os cursos internacionais de música antiga, as festividades da semana santa, o festival anual Fora do Lugar e o Boom Festival.

Por sua vez, Óbidos converteu os seus espaços mais nobres em espaços artísticos e culturais: uma rede de livrarias, galerias de exposição, residências artísticas e literárias, salas de concertos e conferências. A programação tem o seu ponto mais alto no Festival Literário Internacional Fólio.

 

A curva ascendente da economia criativa

Nos últimos vinte anos assistimos a uma curva ascendente da economia criativa na sua aceção mais geral, num movimento marcado pela criatividade e inovação e, mais especificamente, pela emergência das tecnologias e artes digitais nas indústrias culturais e criativas.

A economia criativa é uma espécie de “movimento contracorrente” que se apresenta em contramão face ao movimento de massificação e comoditização da economia mundo, mas isso não significa que ela não tire todas as vantagens de pertencer a esta economia mundo e de ser uma janela aberta ao mundo.

A economia criativa tem a sua própria genealogia que se consolida no último quarto de século: indústrias culturais e criativas, classes criativas, cidades criativas, ecossistemas e clusters criativos, cadeias de valor e modelos de negócio criativos, políticas públicas para a economia criativa. No plano conceptual, a criatividade é um conceito muito elástico que se estende desde as artes e cultura no sentido mais convencional até à inovação científica, técnica e empresarial, no sentido mais amplo.

Mas esta visão dual ou dualista está, também, cada vez mais ultrapassada, ou seja, na economia mundo todas as atividades terão de ser criativas e inovadoras ou não serão.

Esta é a razão pela qual se afiguram fundamentais os investimentos feitos na “base criativa”: a infraestruturação digital dos territórios, a transformação digital das empresas, a literacia digital e a cidadania, a educação pelas artes e a cultura, a proteção da propriedade intelectual, os mercados públicos das artes e da cultura, as políticas públicas para o estímulo à criação de ecossistemas e clusters criativos, enfim, a criatividade como núcleo central e transversal da política de desenvolvimento na sua aceção mais larga.

As cidades criativas ou criaticidades são o lugar central deste ambiente e espírito criativos, elas criam espaços colaborativos, investem na aglomeração e clusterização de atividades criativas, procuram atrair classes e profissionais criativos, concebem incubadoras para alojar start up tecnológicas, apostam no branding da marca e no marketing urbano; não obstante, não é ainda evidente a ligação absolutamente necessária entre os tradicionais núcleos empresariais regionais e os novos espaços colaborativos para onde esta criatividade deve convergir.

Estou em crer que a próxima fase da economia criativa será, justamente, esta convergência entre centros de investigação, espaços de incubação e aceleração e núcleos e associações empresariais, em busca de novas cadeias de valor, novos mercados culturais e criativos e novos modelos de negócio e gestão da economia criativa.

Apesar de toda a retórica que rodeia a ideia de criatividade, a economia já não é o que costumava ser, ao ponto de o capitalismo ter usado todos os seus argumentos para lançar “o capitalismo cognitivo”, uma economia 3C, feita de conhecimento, cultura e criatividade. E tem razão, a economia criativa é o modelo económico dos nossos tempos. Depois da revolução agrícola e da revolução industrial é, agora, o tempo da revolução digital.

As tecnologias digitais impulsionaram a globalização para níveis nunca vistos. Produtos e serviços circulam à escala planetária e a uma velocidade inimaginável, os seus ciclos de vida são cada vez mais curtos e mais parecidos com o processo de comoditização da economia.

Esta é uma grande oportunidade para a economia criativa, em todas as suas dimensões, incluindo os produtos da economia local e regional. A diferenciação de um produto ou serviço por meio da criatividade abre para esse produto uma janela para o mundo.

A curva ascendente da economia criativa vai continuar com a internet dos objetos e a inteligência artificial e nos próximos anos os dois perfis de trabalho mais cobiçados serão os de talento criativo e de inteligência social. Eles constituirão o caldo de cultura das nossas cidades criativas no futuro próximo.

 

Notas finais

Em primeiro lugar, devemos estar avisados para a retórica política “barata” em redor da criatividade e da inovação, como se fossem mezinhas caseiras para todos os males. E não são.

Em segundo lugar, e face à escassez de recursos, devemos estar avisados para as indústrias culturais e criativas que são pura despesa pública e para aquelas que são capazes de reagir aos incentivos financeiros; há aqui um custo de oportunidade que é preciso relevar.

Em terceiro lugar, devemos estar avisados para a necessidade urgente de fazer convergir economia do conhecimento (centros de investigação), economia da cultura (centros, associações e empresas culturais) e economia criativa (espaços colaborativos, hubs criativos, incubadoras, start up); há uma logística própria para esta convergência que é fundamental procurar e implementar.

Em quarto lugar, na economia criativa a indústria e os serviços fundem‐se cada vez mais. As indústrias criativas são não apenas economicamente valiosas em si mesmas, mas, também, como fornecedoras de valores intangíveis para outras atividades económicas que, dessa forma, aumentam a sua participação nas cadeias de valor. Esta conexão ou transferência é central para a riqueza de um país e é, mesmo, uma das suas imagens de marca.

Em quinto lugar, cidades e espaços criativos precisam de muita inteligência coletiva territorial para evitar o enquistamento, a segregação ou a gentrificação; a política de criatividade é muito sensível aos sinais distintivos e deve ser conduzida transversalmente em intima articulação com a política urbana e comunitária, o turismo cultural e a captação de trabalhadores criativos, sob pena de desembocar em mais polarizações e discriminações sociais e promover a exclusão de pequenos empreendimentos criativos locais.

Em sexto lugar, a economia criativa como estratégia de desenvolvimento deve pensar seriamente em considerar os territórios-rede, as redes de cidades ou as cidades-região como instrumentos nucleares de desenvolvimento territorial, tendo em vista uma integração plena de objetivos sociais, culturais, ambientais e económicos, a uma escala tal que otimize todos os seus recursos escassos.

Finalmente, e no caso em apreço, os Municípios da Rede Portuguesa das Cidades Criativas da UNESCO, com o intuito de fortalecer a cooperação entre si no plano nacional, estabelecem um plano de ação para os próximos dois anos que contempla:
– A realização da Conferência de Cidades Criativas, em outubro de 2020, em Idanha-a-Nova;
– A criação de um Evento Conjunto para a celebração da criatividade;
– A criação de um Projeto Conjunto onde a criatividade e a cultura são o motor de integração social;
– A criação de Residências Artísticas entre as cidades portuguesas;
– A criação de uma Bolsa de Oportunidades para Artistas;
– A contribuição para a Estruturação do Turismo Criativo em Portugal;
– A criação de uma Estratégia de Comunicação Conjunta das diferentes cidades;
– A criação de Parcerias ou Projetos no contexto das cidades criativas envolvendo as Universidades, Politécnicos e outras entidades e/ou pessoas ligadas à investigação.

Como se observa, estamos ainda muito próximos das atividades culturais em sentido estrito. Os efeitos externos de aglomeração destas medidas são muito pequenos e isso não nos deve surpreender.

Em todos os casos, a política pública para a economia criativa deverá considerar: o capital humano e o talento criativo, a inovação e a proteção da propriedade intelectual, as tecnologias e as artes digitais, o branding e a imagem de marca, o marketing urbano e territorial.

Por isso, a nossa insistência nas redes de cidades e na triangulação das atividades por intermédio da cooperação entre centros de investigação, núcleos empresariais e associações culturais e artísticas. Se conseguirmos aumentar a intensidade-rede destas relações triangulares estaremos muito mais próximos de uma verdadeira economia de aglomeração.

 

Autor: António Covas é professor catedrático da Universidade do Algarve e doutorado em Assuntos Europeus pela Universidade Livre de Bruxelas.

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