Ainda vamos a tempo de salvar o Mundo e de nos salvarmos?

“Energia fóssil, muito obrigada por tudo o que fizeste por nós, mas está na altura de entrares na reforma!”

Decorreu de 4 a 7 de Novembro, em Portugal, e pelo quarto ano consecutivo, a Web Summit, uma das cimeiras tecnológicas mais importantes da atualidade para quem está ligado às startups, à inovação e ao empreendedorismo.

Mais de 70 mil participantes de 163 países e mais de 2 mil startups vieram a Lisboa partilhar as suas ideias e os seus negócios num evento que pretende olhar para o presente, antecipando o futuro.

Desde a primeira edição que desejava visitar a Web Summit, mas, por uma ou outra razão, nunca tinha conseguido.

Este ano, aceitei o convite de dois empreendedores algarvios que marcaram presença com a sua startup Sprint CV (que ainda irá dar muito que falar…) e parti à descoberta daquela que é considerada por muitos, uma grande “feira das vaidades”.

Como só tinha um dia disponível, perscrutei o programa, o painel de oradores no palco central, e, entre debates sobre marketing, desafios da era digital, inteligência artificial, realidade virtual, robótica, publicidade, branding, o futuro da mobilidade, encontrei um dia com um tema que me interessou sobremaneira: o Ambiente sob o prisma “Is it too late to save the World?

Confesso. quando cheguei ao recinto da FIL fiquei deslumbrada com todo o aparato. Parecia estar noutro país. Primeiro, só se falava em Inglês e depois, a multiculturalidade era evidente em cada corredor, onde quase se conseguia sentir o fervilhar das ideias.

Depois de passear por entre inovações, robôs e ter até a oportunidade de fazer o meu pitch, desbravei caminho até à Altice Arena. O espanto foi inevitável perante o gigantesco palco, demasiado pequeno para a multidão que enchia praticamente todos os lugares do Arena.

Christiana Figueres, secretária executiva da UNFCCC de 2010 a 2016, atualmente na Missão 2020 (um esforço global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2020), e Kate Brandt, que lidera a pasta da Sustentabilidade nas operações, produtos e cadeia de fornecedores mundiais da Google, eram as oradoras que pretendia ouvir, num debate de ideias moderado por Cheng Lei, da China Global Television Network (CGTN) e antiga correspondente da CNBC na China.

O mote do debate era claramente politizado: com a retirada dos Estados Unidos da América do Acordo de Paris e com os cientistas do clima emitindo previsões cada vez mais pessimistas sobre a crise climática, a questão era se agora seria já tarde demais para mudar de rumo. Se pudéssemos evitar uma catástrofe, como fazer isso?

Em menos de 30 minutos, as oradoras demonstraram ser bastante incisivas no seu discurso e no apelo a todos os presentes: para que seja possível mudar o rumo e surgir uma luz de esperança no fundo do túnel, todos temos de reduzir em 50%, no período de 10 anos, a nossa pegada ecológica. Todos temos de descarbonizar o nosso estilo de vida.

É um facto: a energia fóssil, por mais útil que tenho sido – sem ela, não estaríamos onde estamos hoje – já deu provas de que não consegue acabar com a pobreza ou resolver outros problemas das sociedades atuais.

Basta olhar o exemplo do acesso à eletricidade que continua a ser uma miragem em muitos países. Em contrapartida, na Índia e na China, graças ao recurso à energia solar, muitas famílias começaram a sentir o conforto de um lar com eletricidade e as comodidades que, para nós, no Ocidente, são quase banais.

Uma das oradoras afirmou mesmo, gracejando: “Energia fóssil, muito obrigada por tudo o que fizeste por nós, mas está na altura de entrares na reforma!”

A Terra irá sobreviver de uma maneira ou de outra – foi dito mais do que uma vez. Não é a Terra que está em causa. É o futuro da Humanidade. De como iremos conseguir viver e sobreviver num Planeta em convulsão, com temperaturas altas, subida do nível das águas do mar, secas e fenómenos atmosféricos cada vez mais imprevisíveis.

A solução para nos salvarmos de nós próprios – afirmaram – passa pelo recurso às tecnologias ao serviço da eficiência energética, por Políticas e Finanças viradas para o Ambiente e Sustentabilidade, com políticos fortes, capazes de fazer frente aos interesses económicos, apoiados numa base de pessoas informadas, verdadeiros cidadãos ativos.

Muitos adultos sentem-se hoje melindrados pois há crianças e jovens a contestar nas ruas, porque o seu trabalho enquanto políticos, enquanto governantes, enquanto gestores, tem sido mal executado.

O papel dos indivíduos como parte da solução passa pela contestação, mas também pela monitorização do seu consumo energético, consumo de água, desperdício alimentar, reciclagem – valores que perdurarão e nos salvarão.

Graças a Kate Brandt, descobri que existe a Google Sustainability, que entre outras ferramentas, disponibiliza o Your Plan, Your Planet uma ferramenta online através da qual podemos aprender como reduzir o nosso desperdício alimentar, o nosso consumo de água, de energia e como podemos reutilizar produtos, reduzindo assim, o consumismo.

As nossas ações podem ser somente mais uma gota de água no oceano, mas o oceano é mesmo isso: muitas gotas de água.

Quanto a Donald Trump, fiquei mais sossegada depois desta palestra, pois fiquei a saber que 60% das empresas dos Estados Unidos da América continuam o seu caminho carbon free e além disso, Trump não irá ficar no poder para sempre…

Temos pouco tempo, mas ainda temos algum tempo para mudarmos o rumo e conseguirmos dizer, um dia, que estivemos à beira do abismo, mas conseguimos salvar-nos. Temos é de agir. Agora. Não há (mesmo) tempo a perder.

Obrigada Web Summit pelo importante momento dedicado ao Ambiente e à preservação do Planeta Terra, mesmo que, logo a seguir, no mesmo palco, se falasse das tendências do Marketing em 2020, com representantes da Lamborghini, Forbes, Burguer King e Weber Shandwick…

 

Autora: Analita Alves dos Santos é uma Mãe preocupada com questões ambientais

 

 

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