Um saboroso piquenique à chuva para descobrir a Comida Esquecida

Foi um verdadeiro piquenique no campo à moda algarvia, com baile e acordeão

«Porque hoje chove e por isso está bom tempo, quero propor-vos um brinde à chuva», disse Patrícia de Jesus Palma. «À chuva!», gritaram todos, erguendo os copos. A cena aconteceu no sábado à tarde, durante o piquenique de charme inaugural do Festival da Comida Esquecida, algures na serra de Silves.

O piquenique era para ter tido lugar na aldeia da Azilheira, antecedido de um passeio a pé à descoberta da paisagem e das tradições rurais. Mas as previsões meteorológicas aconselharam a organização – a cooperativa QRER, tendo como operacionais Alexandra Santos, Susana Calado Martins, Patrícia de Jesus Palma, Marco Santos, Ana Seixas Palma, Pedro Bartilotti, Andreia Pintassilgo – a mudar de local, para a Quinta Pedagógica de Silves, a uns quilómetros do local originalmente pensado.

«Para fazer um piquenique, era preciso caminhar, despertar os sentidos para a paisagem, para a envolvência, e é isso que vamos fazer aqui», começou por exortar Patrícia de Jesus Palma, a anfitriã desta sessão inaugural, dirigindo-se às cerca de sete dezenas de pessoas, de várias idades e proveniências, que participaram nesta atividade inserida na programação do 365Algarve.

«Vamos abrir os olhos para ver melhor, abrir os ouvidos para ouvir os sons dos pássaros, das vacas, dos burros!», desafiou, antes de o grupo iniciar uma visita à Quinta Pedagógica.

Alexandra Santos, por seu lado, fez questão de sublinhar que, ali, como teria acontecido também na Azilheira, «não temos sinal de telemóvel». «Nem um pauzinho!», respondeu uma das crianças presentes, de telemóvel na mão.

 

Um dos objetivos deste Festival da Comida Esquecida, além de recuperar aqueles alimentos e até técnicas de confeção que caíram em desuso, também é levar as pessoas – algarvios e turistas, portugueses e estrangeiros – ao interior do Barrocal e da Serra. «Estes territórios que ostentam a marca do fogo, dos incêndios, precisam da nossa presença aqui, como marca de revitalização».

O percurso pela Quinta Pedagógica começou por passar pela eira, que agora também serve de anfiteatro. Patrícia de Jesus Palma, investigadora das questões do mundo rural, comentou: «a eira era um local de partilha, de solidariedade, de um fazer coletivo, onde toda a comunidade se juntava», para tarefas agrícolas como a desfolhada, que muitas vezes culminavam com música, «cantares ao desafio» e até danças. Um pouco como haveria de acontecer neste piquenique, mais tarde.

O burro Jeremias, as duas vacas frísias com as suas crias, os gansos e as galinhas, as ovelhas churras e as cabras algarvias, a enorme porca cruzada de javali, mas sobretudo a Bonita e o Bonito – ela, uma vaca pura da quase extinta raça algarvia, que se soube nesse sábado estar prenha – fizeram as delícias de miúdos e graúdos. A visita terminou junto ao moinho de água e à antiga casa rural, decorada por dentro como uma habitação campestre algarvia de há meio século.

«Estás a ver, filho? Isto é uma máquina de costura», dizia uma avó ao neto…«Meus Deus…», exclamou uma senhora ao lado: «estou mesmo a ficar velha, quando já é preciso explicar os miúdos que isto é uma máquina de costura».

Reação semelhante teve Anabela Afonso, comissária do 365Algarve. «É estranho entrar nesta casa, que é quase um museu, e ver que isto é igual à casa da minha avó», comentava.

Ao fim da manhã, ainda antes de iniciar a longa comezaina que se seguiria (concebida pelo chef Abílio Guerreiro), houve quem conseguisse registar o momento no fotógrafo lambe-lambe, no caso José Carlos Nero, com a sua «magic box».

 

Entretanto, foram distribuídos os cestos para o piquenique, cada um com pratos, talheres, guardanapos (de pano, claro!), um talego (saquinho) de pano com fatias de bom pão caseiro, e frascos de vidro com azeitonas maçanilhas britadas, cenouras à algarvia, banha corada e doces.

Juntamente com presunto do Zambujal e queijo fresco de cabra, estas foram apenas as entradas iniciais de uma refeição cheia de coisas boas. Também em frascos, mas já com os comensais sentados à mesa do piquenique ao ar livre, haveriam de chegar a salada de feijão frade com sardinhas garnentas e a salada de chícharos com batata-doce. A fechar este extenso rol de entradas, já quando a chuvinha começava a cair, veio a sopa de beldroegas com ovo, feita à moda algarvia.

A regar tudo isto, porque é preciso manter as gargantas bem oleadas em piqueniques, havia vinho de Silves («Imprevisto»), água e sumo de laranja, obviamente também silvense.

O piquenique começou ao ar livre, embora com o céu cada vez mais cinzento, mas acabou debaixo de telha, no alpendre da casa da Quinta Pedagógica. Primeiro, a chuva começou a cair miudinha e os comensais foram salvos por toldos. Mas logo a água passou a cair pesada do céu e foi preciso recolher toalhas bordadas, cestos de verga e cana, pratos e copos, e correr a procurar abrigo.

Os últimos a saírem do local onde tinha começado o piquenique, para se dirigirem ao alpendre da casa principal, fizeram a curta viagem debaixo de um dos toldos e acompanhados pela música do acordeão do jovem Gonçalo Justo. Foi entre o som das pingas grossas a bater no pano do toldo e dos ritmos algarvios que este animado grupo, onde se encontrava a repórter do Sul Informação, chegou a porto seguro.

Arrumadas as pessoas nas longas mesas de madeira dispostas no alpendre abrigado, chegou então o ensopado de grão com galinha do campo e catacuzes. Quentinho, saboroso e oloroso, fez as delícias dos participantes.

Já agora: alguém sabe o que são catacuzes? Alexandra Santos, da organização, explicou que se trata precisamente de uma das comidas esquecidas que este festival quer recuperar. Trata-se de uma erva que «se apanha no campo, logo ali fora», explicou apontando para a rua, parecida às acelgas, e que as pessoas destas zonas do interior do Algarve antigamente usavam em sopas e saladas. No ensopado de grão, os catacuzes souberam mesmo bem!

 

Ainda antes de chegar às sobremesas e aos digestivos – bem necessários, depois de um piquenique tão farto – afastou-se uma mesa e, ao som contagiante do acordeão de Gonçalo Justo, dançaram Patrício e Eliana. O apogeu foi a «Alma Algarvia», do bordeirense José Ferreiro Pai, um corridinho dançado a grande velocidade pelo par de jovens dançarinos.

Pelo meio, houve quem desse também um pezinho de dança, como Carla Benedito, presidente da Junta de Freguesia de Messines, e as bem dispostas irmãs Cidália Martins e Maria Marcelina Guerreiro.

A D. Cidália e a D. Marcelina foram duas das senhoras da aldeia da Azilheira, na freguesia de São Marcos da Serra, que ajudaram a organização do Festival Comida Esquecida neste primeiro piquenique de charme. «Isto é uma ideia maravilhosa!», garante a D. Cidália.

E recorda: «elas foram lá à Azilheira procurar informação sobre as coisas mais antigas. E nós ajudámos com o que sabemos». Uma das coisas que as investigadoras ligadas à organização do festival descobriram foram precisamente os catacuzes, a tal erva do campo.

A D. Cidália e a sua irmã D. Marcelina – que até já vive no Alentejo, no outro lado da ribeira de Odelouca – ajudaram também na preparação do menu do piquenique. Por exemplo, as deliciosas azeitonas maçanilhas britadas, que foram degustadas por todos, tinham sido preparadas pela D. Cidália.

E não ficaram tristes pelo facto de ter sido mudado o local do piquenique, devido às previsões meteorológicas? «Foi pena, porque estava tudo preparado na Azilheira», confessou uma das irmãs.

«Mas esta chuvinha estava a fazer tanta falta…Isto está tudo seco sequinho!», comentou a outra. «Nós ainda temos água para nos governarmos, de um furo, mas já só podemos tirar água durante uns 15 ou vinte minutos por dia. Mas há aí zonas no Algarve, como ali para os lados de Alcoutim, onde já não há pinga de água!», acrescentou. Ou seja: a chuva estragou os planos de animação da aldeia, mas foi muito bem vinda.

 

A D. Marcelina e a sua irmã D. Cidália

Cansados, já com a roupa mudada depois da molha que tinham apanhado antes, os elementos da organização estavam felizes no fim da jornada, que terminou já passava das 15h30. Alexandra Santos ainda teve tempo para lembrar que, de acordo com a filosofia base do festival, todos os alimentos ali consumidos eram provenientes de produtores próximos – o grão era de São Marcos da Serra, o queijo fresco era de Salir, o presunto do Zambujal (Alcoutim), os chícharos tinham sido comprados no mercado de S. Bartolomeu de Messines, as azeitonas foram britadas pela D. Cidália na Azilheira, os catacuzes foram apanhados ali na serra.

Os próximos piqueniques de charme do Festival Comida Esquecida, que terão lugar só no próximo ano, serão em «lugares inspiradores» do Algarve, nomeadamente na aldeia da Penina (interior de Loulé, a 28 de Março), Santo Estêvão (Tavira, 18 de Abril) e Cacela Velha (2 de Maio).

É que a próxima atividade deste novo festival terá lugar no âmbito de uma outra iniciativa, o «Momentum, da Floresta ao Prato». Serão jantares sensoriais preparados por alunos do Mestrado em Inovação em Artes Culinárias da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, em que os comensais poderão «tocar, comer e saborear» a comida.

Os jantares terão lugar em monumentos e sítios históricos, nomeadamente o recuperado Convento do Carmo, em Lagoa (8 de Novembro), o Museu do Traje de São Brás de Alportel (9 de Novembro), e a ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, em Vila do Bispo (10 de Novembro).

O Festival da Comida Esquecida, integrado na programação do 365Algarve, é promovido pela Cooperativa QRER, sendo uma conceção coletiva das suas cooperantes Barroca, Produtos Culturais e Turísticos (Susana Calado Martins) e Alexandra dos Santos Design, contando ainda com a colaboração de Pedro Bartilotti.

Para comprar bilhetes, clique aqui.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

 

 

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