Ramos-Horta: «O ser humano tem que estar no centro das políticas»

Adelino Gomes moderou a conversa

«O ser humano tem que estar no centro das nossas preocupações, das políticas e das instituições» porque, de outra maneira, o mundo pode ser «de caos e de conflitos». As palavras de José Ramos-Horta, o Nobel da Paz que tanto lutou por Timor-Leste, encaixam que nem uma luva no tema da nova Bienal de Loulé, apresentada esta quinta-feira, 12 de Setembro, em Loulé: o Humanismo. 

Ao longo de quase duas horas, um Cine-Teatro Louletano repleto assistiu, com toda a atenção, à conversa de Ramos-Horta com o conceituado jornalista Adelino Gomes.

Falou-se, claro, de Timor (e de todas as batalhas que Ramos-Horta travou ao lado de pessoas como Xanana Gusmão), de António Guterres, atual secretário-geral da ONU mas então primeiro-ministro, mas também do que é isto de se ser um humanista.

 

Ramos-Horta

 

O vencedor do Nobel da Paz, em 1996, defendeu que «tudo tem de agir à volta da pessoa humana», ideia que concretizou, no final, em declarações aos jornalistas.

«Quando criamos um Governo e começamos a comprometer-nos com alianças só para sobreviver, começamos a falhar naquele princípio de que qualquer político tem que ter o povo, o ser humano, no centro das preocupações. Quando não se faz isso, qualquer país ou Governo, mais tarde ou mais cedo, é desconectado. Depois surpreendemo-nos de sermos abandonados pelo eleitorado», disse.

Para Ramos-Horta, se o ser humano não for a base da ação política, podemos cair «nas mãos de gente irresponsável que quer o caos para ser eleita, com promessas de tudo fácil», usando, para tal, «as redes sociais». E até há exemplos. «Isso está a acontecer com o Brexit», enquadrou.

Só que, na longa conversa que teve no palco do Cine-Teatro Louletano, o antigo Presidente da República de Timor (2007 -2012) e que foi um dos rostos da resistência timorense contra a Indonésia, também não deixou de apontar algumas lacunas que ainda existem no seu país.

«Falhámos em algumas coisas, claro. Se há pobreza, a pobreza tem de ser eliminada e ser uma prioridade absoluta. Se há falta de água para as aldeias, isso tem de ser prioridade. Se há analfabetismo, temos de o combater. Se há subnutrição, isso é um crime que temos de resolver. E aí falhámos, nas coisas mais básicas, como levar água potável», lamentou.

 

 

Mas também há fatores positivos que Ramos-Horta não se inibiu de elencar. «O mais positivo é o nosso grande sucesso na área da reconciliação nacional e com a Indonésia. Não temos um único caso de violência política e crime organizado também não temos», afirmou.

Este ano, cumpriram-se os 20 anos do Referendo de 1999, em que perto de 79% dos timorenses votaram a favor da independência face à Indonésia. Os resultados trouxeram retaliações, com as forças pró-Indonésia a matarem milhares de pessoas.

O processo de paz, que tardava em chegar ao tão ambicionado fim, só ficou concluído em 2002, com a eleição de Xanana Gusmão como o primeiro Presidente da República.

Timor é, por isso, uma jovem nação, algo que não se pode esquecer. «O país continua frágil, mas também porque só tem 17 anos. Construir uma nação e uma democracia leva gerações e nós começámos do zero», considerou.

Ramos-Horta não tem dúvidas: «tomara que Timor estivesse tão bem como Portugal».

«Acho que o país está muito bem. Recuperou da crise. Eu vim cá nessa altura e era triste. Portugal tem de ter cuidado com o défice, mas não podem ser os jovens e os pobres a pagar. Que ponham o Banco Central Europeu e os ricos a fazê-lo. O que é preciso é investir, investir, investir na economia portuguesa. O primeiro-ministro tem sabido fazer essa dita geringonça política. Até lá em Timor nós citamos o exemplo português», contou aos jornalistas, entre risos.

 

 

E se, na altura da crise, Angela Merkel até foi uma das figuras menos queridas na Europa (e Portugal foi exemplo disso), hoje Ramos-Horta vê a questão por outro prisma.

«Atualmente, eu daria o Nobel da Paz a Angela Merkel devido ao acolhimento dos refugiados», justificou. Uma opinião que vai ao encontro daquele que é o tema desta Bienal, organizada por Carlos Albino: o Humanismo.

No final, Ramos-Horta, em resposta a uma pergunta de um jovem, deixou uma mensagem que, por certo, ecoará na memória de muitos, neste tempo marcado pela incerteza em tantos pontos do globo: «A construção da paz não é para os impacientes».

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