Não acredito no silêncio

Acabamos como as personagens de O velho, o rapaz e o burro, montando e desmontando ao sabor das opiniões

Nos poucos dias deste Verão em que pude desfrutar de algum descanso, convivi com várias crianças. Pequenas, ainda, para ouvirem histórias com o grau de atenção que qualquer “contador” gosta, fizeram, no entanto, despertar em mim o desejo de revisitar as que na minha infância me foram contadas.

Contos, rimas, fábulas, histórias do nosso reportório tradicional que tanto contribuíram para que eu desejasse muito aprender a ler e que foram partilhadas pelos que me eram mais próximos, regressaram ao meu pensamento.

Fixei-me numa: O velho, o rapaz e o burro. Para quem já não se lembra dela, um pequeno resumo: um velho, um rapaz e um burro caminham lado a lado e, na estrada que percorrem, encontram várias outras pessoas. Estas, ao vê-los, opinam sobre a sua estratégia de caminhada: porque não vai o velho em cima do burro, que é quem mais precisa dessa ajuda, pela sua vetusta idade? E assim fazem. Porque vai o velho em cima do burro, se é o mais novo que merece ser protegido e apoiado? E o velho coloca também o rapaz no dorso do burro e lá vão. Mas outros que os veem reclamam: – «Tal é isto! Que grandes abusadores! Coitado do burro, que vai com dois personagens em cima, sofrendo e gemendo!» E logo desmontam os dois, voltando tudo ao princípio.

Quanto mais pensava nesta história, mais percebia como ela pode ter uma aplicação real e contemporânea, como seria, aliás, a intenção deste estilo literário intemporal, que, mais do que moralista, me parece ser reflexivo e propiciador do sentido de observação.

Há nela duas ideias centrais: a constância e segurança do nosso pensamento e das nossas decisões e a profusa exposição a muitas opiniões a que estamos sujeitos ao longo das nossas vidas.

Todos cogitamos sobre o que nos rodeia e, desde pequenos, firmamos formas de ser e de encarar as situações, fundadas nas ideias que nos transmitiram, nas crenças religiosas e filosóficas que fomos conhecendo e assumindo como nossas, bem como nos valores que consideramos mais ou menos importantes e nos conhecimentos académicos/científicos que vamos adquirindo.

É próprio do ser humano – e creio que isso ainda é o que nos distingue dos animais, pois pese embora saibamos que há pensamento e comunicação em muitas espécies, não existem de forma tão estruturada e expressa como em nós.

E é bom, porque é essa construção do pensamento que define as nossas personalidades, palavra tão usada. O “Ego” dos filósofos; o “Eu” de cada um de nós, que nos diferencia dos demais e nos permite distinguir os nossos próprios processos interiores e a realidade que nos é apresentada.

Pensar é útil e importante e são as ideias que criamos e vamos pondo em prática que constroem o mundo, as sociedades em que vivemos. Umas vezes, são boas ideias e outras nem tanto e dão mau resultado. Mas, sem pensar, nada se faz, nada se muda.

Viveríamos a antítese do imortal texto de Camões: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/Muda-se o ser, muda-se a confiança;/ Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades». E estagnaríamos. É a força desta nossa inegável e humana característica que nos faz tomar decisões e que nos leva a seguir em frente, num caminho que consideramos o mais correto. Pensamos para nós mesmos e pensamos os outros e para os outros.

E aqui está o busílis da coisa: temos opiniões e ideias e manifestamo-las a propósito do mais comezinho ato ou da mais complexa situação. Comedidamente e de forma ponderada em alguns casos; apaixonada e estridentemente noutros, dependendo do tema, do momento e de quem connosco partilha o contraditório. Mas todos somos (ou pensamos ser) especialistas em algo, todos sabemos profundamente de um tema, todos somos atentos conhecedores de uma qualquer realidade.

Esta forma de ser de homens e mulheres exacerbou-se com o advento do digital e das redes sociais. É quase como, se para existirmos, tivéssemos mesmo de encontrar um espaço, uma voz que deixe uma marca, um selo – será este, ao invés, o nosso lado comunicacional mais próximo dos animais que sinalizam o seu território desse modo.

E essa marca fica mais facilmente vincada na perspetiva de muitos através da crítica mordaz, do vociferar, da reprovação, que raia tantas e tantas vezes a grosseria, faltando-lhe vigor e assertividade, a tal constância e segurança de pensamento, a capacidade de perceber que, no olhar do outro sobre o mundo, pode haver mérito e verdade e que mudar, aceitar com humildade que se aprendeu algo, é tão sinal de existência e de nobreza de alma como recusar, só porque sim.

Acabamos como as personagens de O velho, o rapaz e o burro, montando e desmontando ao sabor das opiniões ou, ao contrário, gritando aos quatro ventos o que achamos que é correto, mas sem ponderar as circunstâncias dos outros que encontramos nas nossas estradas.

Não acredito no silêncio, até porque isso não é nato em nós. Acredito profundamente na liberdade de expressão e nos direitos a ela associados.

Vivo no ambiente digital, tal como no ambiente físico, e acho que ambos são parte do que somos, da tal personalidade que formamos. E em ambos temos de ter opinião, ideias e estar expostos às dos outros.

Confesso, todavia, que às vezes gostava de sentir menos ruído e mais ponderação, mais produção sensível e menos bruta dos nossos neurónios.

Mas, como se costuma dizer, “já estou como” o humorista Ricardo Araújo Pereira, cuja imensa cultura admiro e com quem algumas vezes estou de acordo em variadas coisas e noutras não, mas que respeito independentemente disso: «Parece-me que deixar um idiota falar é quase sempre menos nocivo do que calá-lo. Às ideias de que não gostamos, responde-se com ideias de que gostamos» (Jornal Sol, 16/12/2017).

Pelo menos assim, mais uma vez como se costuma dizer, “sabemos onde estamos”.

PS – A partir do momento em que este texto for publicado, já sei o que me espera, mas, pelo menos, desejo que tudo o que queiram comentar venha em bom vernáculo e com um nível de língua cuidado.

 

Autora: Sandra Côrtes Moreira
É licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Universidades de Lisboa e Algarve e mestre em “La Educación en la Sociedad Multicultural” pela Universidad de Huelva.
Desempenha as funções de coordenadora do Gabinete de Informação e Relações Públicas da Câmara Municipal de Silves e é assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, com quem colabora, integrando também a equipa da Pastoral do Turismo.

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