A viagem de comboio de Lisboa ao Algarve ou o calvário dos passageiros

Relato de mais uma viagem de comboio muito atribulada, de Lisboa ao Algarve

Verão é sinónimo de férias e também de viagens. Não foi, porém, nessa situação que me desloquei do Algarve a Lisboa no passado dia 31 de Julho. A viagem iniciou-se logo pela manhã, no Alfa Pendular, num trajeto normal, pese embora alguma turbulência em partes do percurso, que há alguns meses não se sentia.

O regresso iria depender de vários fatores, ou no Alfa às 17h30 ou no Intercidades das 18h40, ambos em Entrecampos, motivo pelo qual o bilhete não foi adquirido atempadamente.

O dia, como sempre acontece, correu lesto e depois de alguns passos mais apressados e por fim recorrendo a um táxi, cheguei à estação de Entrecampos às 17h15. Perfeito, pensei quando entrei.

Havia, porém, somente dois balcões abertos e uma fila interminável, para aquisição de bilhetes, passes, informações, etc. Mau, isto vai ser difícil, matutei. Sem tirar os olhos do relógio, 10 minutos depois, cheguei à minha vez. A diligente funcionária, quando lhe pedi o bilhete, lançou um suspiro, e atalhou «por volta das 14h00 o Alfa já estava esgotado», ainda assim confirmou o confirmado e eu não tinha hipótese.

Ainda alvitrei a ideia de adquirir o respetivo título só a partir de Pinhal Novo, mas a funcionária riu-se para me questionar, afinal como ia eu até àquela estação? Pensando bem, já não tenho idade para brincadeiras… Não sem antes questionar se o Intercidades ia mesmo partir às 18h40? A resposta, perentória, foi que sim, até porque iniciava a marcha em Lisboa Oriente. Nada havia então a temer… Afinal era só uma hora… É certo que o vejo chegar frequentemente a Messines muito depois da hora prevista, ou tabelada, como antes se dizia. Mas, a uma quarta-feira, ia de certeza cumprir o horário…

 

À hora aprazada, lá estava eu e muitos outros passageiros a aguardar a composição, de pé, que os bancos são poucos e os comboios, muitos e sempre a chegar e a partir.

O sistema sonoro não trazia, todavia, boas notícias, afinal o comboio estava atrasado, primeiro 5 minutos, depois, 7, 10, enfim… Desci à bilheteira, para pedir explicações e reclamar, em papel, mas a fila crescera imenso e passar à frente daquelas pessoas todas não ia ser de ânimo leve e para exaltação já bastava a minha.

Voltei a subir… e a mesma voz “o comboio Intercidades com destino a Faro que deverá entrar na linha n.º4 circula com um atraso de 15 minutos. Pedimos desculpas pelos incómodos causados”…

Voltei a descer. Porém a fila era ainda maior, pois um balcão encerrara entretanto…

Regressei à plataforma e, claro, o atrasado comboio deu entrada na gare já passava das 19h20, mais de 40 minutos depois do previsto.

Confesso, estava possesso! Uma coisa é de meia em meia dúzia de minutos comunicar o aumento do atraso a outra é assumir logo a sua totalidade. À minha volta todos protestavam.

Por coincidência, viajava também para o Algarve, na mesma carruagem, o Deputado Paulo Sá, do qual me acerquei e a quem pedi que intercedesse pelos interesses da região, os algarvios merecem melhores transportes. Extremamente simpático, disse-me que viajava com frequência e que, por diversas vezes, levara o assunto ao Parlamento, motivando mesmo a aprovação de resoluções nesse sentido na Assembleia da República…

Mas as vicissitudes da viagem de comboio não haviam cessado. É que, nas casas de banho, não havia água, nem estas haviam sido limpas, sabe-se lá desde quando…

E depois de Grândola… o odor na carruagem tornou-se insuportável, nem na 1ª classe, onde excecionalmente viajava, me salvava do infortúnio.

 

Vidros sujos

As vidraças já é hábito estarem sujas e faziam jus à normalidade… Agora casas de banho conspurcadas e sem água, num comboio repleto de passageiros, muitos deles estrangeiros em trânsito para a região mais turística de Portugal, é inadmissível!

Saquei do telemóvel e percorri carruagens e casas de banho a confirmar, em fotografias, o inaceitável… Pois, sim, era inimaginável!

A juntar à “festa”, saímos de Grândola com 1h5min de atraso… Ali viemos nós sem grandes alterações, a não ser em Amoreiras, onde chegámos às escuras, para um pouco antes da partida a gare se iluminar: o milagre da luz, pensei.

Às 22h15, estávamos em Messines. Em Tunes, mudam de comboio os passageiros com destino às estações até Lagos e ali eram aguardados por um velha composição, de duas carruagens, que mais parecia ressuscitada de um qualquer aterro sanitário, suja e barulhenta.

Por entre as dezenas de passageiros em trânsito de uma composição para a outra, maioritariamente estrangeiros, sentia-se odor a fragrâncias caras… Decerto a composição em que agora viajavam para Barlavento foi a mais miserável que alguma vez utilizaram… Mereciam melhor e mais respeito, tal como nós os algarvios…

Mas a nossa viagem já havia cessado… E sujidade e atrasos é o que de mais houve nos últimos 130 anos, desde que o comboio chegou a Faro, a 1 de Julho de 1889.

 

Estação de Amoreiras-Odemira sem luz à chegada do comboio

Mas, caro leitor, afinal porque circulava o comboio Intercidades atrasado e sujo? E porque motivo a situação é tão frequente?

É muito simples. Há duas composições de Intercidades que viajam diariamente de Faro para Lisboa e vice-versa. Comboios que, em Lisboa, recebem passageiros da Linha do Norte e afins.

Ora, se o comboio que sai do Porto chegar atrasado a Lisboa, logo pela manhã, o comboio do Algarve, e muito bem, espera. Só que, se sai atrasado da origem, mais atrasado vai chegar a Faro e depois vai atrasando sempre, de tal forma que, a determinada altura, não há tempo para limpezas, é inverter a locomotiva e aí vai ela veloz…

Já sabemos que não há composições novas, mas neste caso é somente de higiene que se trata. O exterior só é limpo quando chove e este Inverno não nos trouxe água, e vassouras e cabos extensíveis é coisa que a CP – Comboios de Portugal não conhece.

Quanto ao interior, é desleixo e incompetência. Mais vale assumir que as composições atrasam e dar maior dilação entre as chegadas dos comboios do norte e a partida dos do sul, pelo menos no Verão, que há mais passageiros. Não mudam sempre os horários no Verão?

Mas isso é feito por quem não anda de comboio… Só que, sinceramente, mereciam esse castigo. Irra, não há paciência!!!

 

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação

 

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