Com massagens, meiguices e livros se faz Biblioterapia em São Brás

Câmara de São Brás de Alportel juntou massagens terapêuticas e contos epara criar um projeto original

Foto: Hélder Santos|Sul Informação

Carinho, meiguices, afeto, autoestima, respeito. Estes são alguns dos conceitos e palavras que servem de base ao projeto Biblioterapia, que anda há um ano a relaxar os alunos do pré-escolar público do concelho de São Brás de Alportel.

No ano letivo que terminou há pouco, as crianças são-brasenses aprenderam a fazer massagens aos seus colegas, em sessões em que as histórias e os contos também ocuparam um lugar central. Mais tarde, aplicaram em casa, em família, os conhecimentos que ganharam.

«O objetivo primeiro deste projeto é acalmar, tranquilizar e promover momentos de prazer dentro da sala de aula e os afetos entre as nossas crianças. Aqui promovemos o toque positivo e o respeito por eles próprios e pelos colegas, daquilo que é o seu espaço e o seu corpo», explicou ao Sul Informação Maria José Carocinho, responsável pelo projeto e conhecida entre as crianças e na comunidade escolar de São Brás de Alportel como Zézinha.

A equipa de reportagem do Sul Informação foi encontrar-se com Zézinha, com a educadora Olímpia Forra e com Dora Barradas, conselheira municipal para a Igualdade e técnica superior de Educação Social da autarquia, numa sala de pré-escolar da escola EB/JI nº3 de São Brás de Alportel.

Ali, encontrou cerca de duas dezenas de crianças já preparadas para mais uma sessão de Biblioterapia. Embora os mais pequenos não escondessem a vontade de começar, tudo se passou na maior das tranquilidades: as conversas eram sussurradas, a coordenadora do projeto falava às crianças de carinho, meiguices e amor e o ambiente de paz era quase palpável.

 

 

E o primeiro passo, antes de partir para as massagens propriamente dita, é garantir que todos estão de acordo em participar. «Posso-te fazer uma massagem?», é a pergunta com que começam todas as sessões.

«Com o Biblioterapia, procuramos explicar a diferença em ser tocado de forma positiva e nutritiva, porque nós permitimos, e o tocar sem a nossa permissão e de forma agressiva, que é o que nós não queremos. Queremos que distingam bem as duas coisas. Daí a nossa preocupação em perguntar se podemos fazer a mensagem, como quem diz “não te toco sem tu quereres”», explica Maria José.

«Os afetos e o toque são extremamente importantes. A nossa pele é o órgão mais sensível e é muito importante que recebam esse toque de calor, amizade e carinho, para que eles cresçam de forma equilibrada e meiga e saibam o que isso é», acredita.

Para a técnica da Câmara de São Brás, o toque positivo e autorizado «é muito importante na promoção da autoestima, do amor – até mesmo ao espaço físico, ao educador e aos colegas».

Além das massagens, o Biblioterapia tem a componente dos contos, um momento que as crianças não dispensam, como ficou notório durante a reportagem do Sul Informação.

Maria José traz sempre consigo uma mala, que as crianças «reconhecem imediatamente. É a mala mágica, onde vêm as histórias».

«Se esta vertente do toque é importante, o outro segredo do projeto é esta vertente que alia o prazer à leitura e a leitura ao prazer. Trazer isso para a sala de aula e, depois, levar a leitura e o prazer da massagem para casa, junto dos pais, para momentos em família», explicou.

 

 

É que as crianças levam este ritual para as suas casas e replicam estes momentos de relaxamento com os seus pais «sem telemóveis, sem televisão, e em que estão realmente juntos».

«O feedback dos pais tem sido muito, muito positivo. Ultimamente têm-me abordado vários na rua e dizem-me: Você é que é a Zezinha? Ah, bendita Zezinha (risos)», contou Maria José Carocinho.

Para a Câmara, que assume todos os custos do projeto, que é totalmente gratuito para as famílias – algo inédito no Algarve – esta forte ligação às famílias e o facto e se perceber qual o impacto que o Biblioterapia está a ter é importante.

«A educação é uma das grandes apostas do senhor presidente da Câmara e o objetivo é apostar cada vez mais em projetos que tenham resultados concretos para as crianças e para as famílias», como é o caso do Biblioterapia, ilustrou Dora Barradas ao Sul Informação.

Ainda assim, não foi preciso procurar fora de portas, para inovar.

«Este projeto das massagens existe um pouco por todo o Algarve, mas nós aqui juntámos a pitada dos livros. A Maria José é técnica da  Biblioteca Municipal há 19 anos e como temos escassez de recursos humanos – é só ela – e porque os professores também gostam da hora do conto, juntámos as duas coisas. Este ano foi o ano inicial do Biblioterapia e já estamos a colher os frutos», explicou a conselheira municipal para a Igualdade da câmara de São Brás de Alportel.

«Os resultados estão à vista. Estamos muito felizes e queremos continuar», acrescentou.

 

 

Também feliz está Olímpia Forra, que ganhou, com este projeto, mais uma ferramenta para garantir a harmonia e o bem-estar dentro da sala de aula. E, mais do que isso, ganhou um instrumento que a ajuda na integração de crianças com necessidades especiais.

«Tenho um aluno com autismo que se acalma com as massagens. Acaba a maioria das sessões a dormir. Fica completamente descarregado, o que é ótimo», contou a educadora de infância ao Sul Informação.

«Tenho três situações de necessidades educativas especiais, e todos aceitam a massagem. Ao início, ficavam só a ver, mas agora já todos participam. Tenho uma menina que até faz massagens, também. Ao início só recebia. Por outro lado, já abraça, a mim e aos colegas, algo que antes não acontecia. É uma evolução maravilhosa», reforçou Maria José Carocinho.

O objetivo, agora, é aumentar o número de crianças que beneficiam deste projeto. A ideia é «continuar com os meninos finalistas e acompanhá-los para o 1º ciclo».

«Para isso, também iremos, com certeza, precisar que mais técnicos façam a certificação das massagens. Esperemos que possamos multiplicar e criar uma equipa», recorrendo à prata da casa, disse Dora Barradas.

 

Fotos: Hélder Santos|Sul Informação

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